Morre Aretha Franklin, rainha do soul, aos 76

Conhecida como a “rainha do soul”, Aretha Franklin morreu ontem em Detroit, aos 76 anos, de um câncer de pâncreas, contra o qual lutava há oito anos. “É com profunda tristeza que anunciamos a morte de Aretha Louise Franklin, a rainha do soul”, afirmou a família, em comunicado divulgado por sua agente. “Em um dos momentos mais sombrios de nossas vidas, não somos capazes de encontrar as palavras apropriadas para expressar a dor em nosso coração”, acrescenta o texto. 

Aretha Franklin pode ser considerada a voz feminina nº1 do soul, especialmente por sempre ter se destacado como artista solo, ao contrário de contemporâneas como Diana Ross e Martha Reeves, que faziam parte de grupos vocais.

Aretha Franklin cantou pela última vez em novembro de 2017, no aniversário da Fundação Elton John para a Aids, bastante frágil, apesar de já ter anunciado a sua aposentadoria: “muito, muito enriquecida e satisfeita com relação até onde minha carreira veio e onde está agora”. Em 25 de março, ainda pretendia fazer um show pelo aniversário de 76 anos, mas, sem condições, precisou cancelá-lo. 

Nascida em 25 de março de 1942 em Memphis, no Tennessee, Aretha Louise Franklin foi criada em Detroit, no Michigan, onde o pai dela, C.L. Franklin (1915-1984), era pastor da Igreja Batista Nova Betel. Aprendeu cedo a tocar piano e, acompanhando o pai, começou sua carreira na música gospel, gravando seu primeiro álbum, “Songs of faith”, nesse estilo, ainda adolescente, aos 14 anos, em 1956. Após completar a maioridade, Aretha Franklin teve o consentimento do pai para passar à música pop e ao soul, influenciada por Sam Cooke.

Curiosamente, embora nascida e criada nas duas cidades das principais gravadoras de soul dos Estados Unidos, Aretha nunca gravou pela Stax, de Memphis, nem pela Motown, de Detroit. O empresário Berry Gordy Jr. chegou a tentar contratá-la para a sua gravadora Tamla, que incorporaria à Motown. 

Dois anos mais velho que Aretha, Smokey Robinson, que viria a ser músico (com seu grupo Miracles) e produtor da Motown, a ouvia cantar desde que eram crianças, pois eram vizinhos em Detroit. Ela tinha entre quatro e cinco anos. Entretanto,  C.L. Franklin achou que o selo ainda era incipiente, apesar de já ter lançado o hit “Money”, com Barrett Strong. 

Em vez disso, conseguiu um contrato com uma grande gravadora, a Columbia, pelo qual a filha gravou seu primeiro compacto, “Today,  I sing the blues”, em setembro de 1960, chegando ao Top 10 das paradas de rhythm’n’blues e foi incluída em seu primeiro álbum, “Aretha: with the Ray Bryant Combo”, em 1961. Deste disco, “Won’t be long” foi sua primeira gravação no Top 100 da Billboard.

O grande estouro veio em 1967, quando mudou da Columbia para outra major, a Atlantic, e, só naquele mesmo ano, emplacou cinco singles no Top 10 da Billboard, entre eles o blues “I never loved a man (The way I love you)”, em 9º lugar, e a balada “(You make me feel like) A natural woman” – composição do dono da gravadora, Jerry Wexler, com o então casal Carole King e Gerry Goffin –, na 8ª posição.

Os maiores sucessos, porém, foram três músicas agitadas: “Baby, I love you” (4º lugar), “Chain of fools” (2º) e “Respect” (1º). Primeira gravação da cantora a atingir o topo da Billboard, “Respect” foi composta por Otis Redding, que já a havia gravado, em 1966, de forma mais pesada, próxima do rock, chegando ao 35º lugar da parada americana. Redding, que morreria em dezembro de 1967, aos 26 anos, em um acidente aéreo, ainda teve tempo de ver sua canção alcançar o número 1, com Aretha, que a gravou de maneira mais dançante e com algumas alterações na letra, trocando o trecho “When I get home” (“Quando eu chegar em casa”) do refrão por “just a little bit” (“somente um pouquinho”) – cantado em tom sarcástico não por ela, mas pelas cantoras que fizeram os backing vocals.

No ano seguinte, a também dançante e agitada “Think” atingiu o 7º lugar da Billboard e se tornou o primeiro single no Top 10 composto por Aretha Franklin, em parceria com seu então marido Teddy White, enquanto o clássico álbum “Lady soul”, um de seus mais clássicos LPs, com dois singles do ano anterior, chegava ao 2º lugar na parada. 

Também em 1968, como melhor performance vocal feminina de rhythm’n’blues, por “Respect”, Aretha Franklin ganhou o primeiro de seus 18 prêmios Grammy.

No mesmo ano, cantou no funeral do reverendo Martin Luther King Jr., líder da campanha pelos direitos civis, que morreu assassinado e era próximo de seu pai, também devido à atividade religiosa. Na ocasião, revisitou suas raízes musicais, com o hino gospel “Precious Lord”.

A vida pessoal não era um mar de rosas, entretanto. Aretha, que teve dois filhos ainda adolescente, aos 13 e 15 anos, separou-se, em 1969, de Teddy, com quem tivera o terceiro filho, em meio a rumores de violência doméstica. Nos anos 1970, depois de ter o quarto e último filho com um empresário de turnês, a cantora enfrentou problemas com cigarro, alcoolismo e excesso de peso. Em 1979, seu pai foi baleado, em um assalto, e passou cinco anos em coma, morrendo aos 69 anos, em 1984. No mesmo ano, ela se divorciou do segundo marido, Glynn Turman, com quem se casara em 1978.

Já veterana, Aretha Franklin voltou aos holofotes nessa época, ao participar, ao lado de outros astros como Ray Charles, James Brown e John Lee Hooker, do filme “Blues Brothers”, renomeado no Brasil como “Os irmãos cara de pau”, de 1980. Na comédia, Aretha tem atuação convincente como uma dona de restaurante, cujo cozinheiro e marido, vivido pelo guitarrista Matt Guitar Murphy, é levado pelos protagonistas, interpretados por John Belushi e Dan Akroyd, para se reunir à antiga banda deles.

A década marcou uma renovação em sua carreira, já na nova gravadora Arista, com o primeiro disco de platina, “Who’s zooming who?” (1985), e o segundo single a chegar ao topo na Billboard, “I knew you were waiting (for me)”, do álbum “Aretha” (1986),  gravada em dueto com um então jovem George Michael (1963-2016). Em 1987, foi a primeira mulher a entrar para o Hall da Fama do Rock’n’Roll. Coincidentemente, Matt morreu em 15 de junho deste ano, aos 88.

Suas colaborações com as gerações seguintes continuou em álbuns de 2007 e 2014, nos quais gravou duetos com cantoras influenciadas por ela, como Mary J. Blidge, Adele e Sinead O’Connor. Homenageada pelo Centro Kennedy em 1994 e 2005, ela recebeu a Medalha Presidencial da Liberdade, a maior distinção civil americana, e cantou na posse de três presidentes: Jimmy Carter, Bill Clinton e Barack Obama. Em 2015, cantou outro hino gospel, “Amazing grace”, papa Francisco visitou a Filadélfia.

“A perda de Aretha Franklin é um golpe para todos que amam a música real: música do coração, da alma e da igreja. Sua voz era única, seu piano tocando subestimado – ela era uma das minhas pianistas favoritas”, disse Elton John.

Paul McCartney ressaltou que a cantora “nos inspirou por muitos e muitos anos. Sentiremos sua falta, mas a memória de sua grandeza como música e um belo ser humano viverá conosco para sempre”.

Diana Ross se declarou “em oração pelo maravilhoso espírito dourado Aretha Franklin”, enquanto o amigo de infância Smokey Robinson desabafou:  “Nesta manhã, minha amiga de mais tempo neste mundo foi para casa, para ficar com seu pai. Vamos sentir muito a sua falta, mas sabemos que ela está em paz”.