Censurada no ano passado, ‘Queermuseu’ chega ao Rio amanhã como símbolo da liberdade de expressão

A Escola de Artes Visuais do Parque Lage (EAV) acolhe a partir de amanhã, às 11h, a exposição “Queermuseu: Cartografias da diferença na arte brasileira”. Desde o seu fechamento antecipado por parte do patrocinador Santander Cultural, em Porto Alegre, em setembro do ano passado, após uma controvérsia pública incitada pelo Movimento Brasil Livre (MBL) e por outros grupos conservadores, a mostra se converteu em símbolo da liberdade de expressão e artística, angariando apoio popular e visibilidade que dificilmente teria alcançado de outra maneira.

O curador da exposição, Gaudêncio Fidélis, acredita que a montagem terá “enorme sucesso de público, mas não exatamente em razão da polêmica, que designa um falso conteúdo, desabonador”. Segundo ele, as pessoas irão ver a Queermuseu para “defender o direito de vê-la e de ter acesso a ela. É isso o que mobiliza o público. Ele entende que a farsa foi construída com motivos escusos e, às vezes, claramente eleitoreiros”.

A reabertura foi viabilizada por meio da mais bem-sucedida campanha de financiamento coletivo do Brasil até hoje, que levantou mais de um milhão de reais, com 1.724 doações. Realizada ao longo de dois meses no início do ano, a empreitada contou com um show de Caetano Veloso e o evento “Levante Queremos Queer”, que levou mais de duas mil pessoas ao parque num sábado.

A remontagem no Rio contará com 214 obras de 82 artistas reconhecidos nacional e internacionalmente, como Lygia Clark, Leonilson, Portinari, Adriana Varejão, Efrain Almeira, Volpi e Erika Verzutti. Em paralelo à mostra, acontece um fórum de discussões sobre manifestações culturais periféricas, que pretende reforçar o movimento contra a censura e intolerância, com programação a cargo de Ulisses Carrilho, curador da EAV.

O diretor da escola, Fábio Szwarcwald, diz que imediatamente se dispôs a hospedar a exposição, após o prefeito do Rio, Marcelo Crivella, divulgar um vídeo afirmando que o Museu de Arte do Rio (MAR) só sediaria a exposição “se fosse no fundo do mar”. Mantida pela Prefeitura em parceria com a iniciativa privada, a instituição havia demonstrado interesse em receber a exposição, mas logo abortou os planos, alegando motivos de segurança. “Após um ato de censura muito preocupante por parte de Crivella, fui conversar com o então secretário de Cultura do Estado, André Lazaroni, que deu carta branca para seguir com uma campanha desafiadora contra o obscurantismo nas artes. Acreditamos que a escola manteve-se fiel a seus ideais e reafirmou o seu DNA”, explicou Fábio.

Os motivos da controvérsia

O público que for às Cavalariças da EAV poderá ver as obras que receberam imputações de “blasfêmia”, “zoofilia” e “apologia à pedofilia”, respectivamente:  “Cruzando Jesus Cristo com Deusa Shiva” (1996), em que as imagens das duas divindades são fundidas e misturadas à cultura pop, de Fernando Baril; “Cena de interior II” (1994), de Adriana Varejão, na qual há a representação de atos sexuais na roça, incluindo uma relação com uma cabra, e “Travesti da lambada e deusa das águas” (2013), de Bia Leite, que alude à experiência gay na infância.

A exposição terá classificação indicativa de 14 anos e menores poderão ir acompanhados dos pais. De acordo com Fábio, a faixa etária foi definida junto ao Ministério Público. Haverá avisos de que o evento contém obras de arte com nudez, conteúdo sexual e uso de simbologia religiosa, potencialmente ofensivos aos valores morais de algumas pessoas.

Devido ao retrospecto de hostilidades, a segurança foi uma preocupação  dos organizadores. Quase 30 câmeras foram instaladas nas galerias e no resto do parque, assim como foram contratados agentes adicionais, que se revezarão 24 horas por dia. Por decisão curatorial, a exposição vai durar 30 dias, período idêntico ao que o Santander Cultural cancelou.

Crítica queer

Muito falada e pouco vista, a Queermuseu tem a qualidade artística defendida por seu curador. “Não é só o fechamento abrupto o que justifica seu impacto e visibilidade. Ela tem por trás uma grandiosidade e um potencial artístico que pode estimular o debate”, argumenta Gaudêncio.

Ao lado das críticas conservadoras, todavia, a exposição também foi objeto de protestos de setores ligados à pesquisa e à militância LGBT. Um desses foi um artigo publicado no “Le Monde Diplomatique Brasil”, no qual o pesquisador da sexualidade e curador Tiago Sant’anna afirma que a “representatividade da exposição é embaraçosa, já que a maioria dos artistas sequer são LGBT”. Ele defende que a mostra domestica o conceito de “queer” – por vezes traduzido como “estranho”, “fora da norma” ou “à margem” –, conformando-o ao mercado e removendo sua potência incômoda. 

Há na exposição, sustenta, “uma visão muito simplista e integracionista sobre a estranheza ‘queer’, higienizando uma pauta que se insurgiu aos próprios modelos sociais e também de produção artística”.  

A este respeito, Gaudêncio coloca que as críticas se fundamentam em pessoas que entendem que “a teoria queer pertence a eles, quando não pertence a ninguém”: “A mostra não é uma ilustração desta teoria, mas se alimenta de diversas tradições como o marxismo e [o teórico Georges] Bataille”. Segundo Gaudêncio, as críticas –  desenvolvidas em redes sociais, na imprensa e na academia –  “não são representativas da sociedade progressista brasileira” . 

A despeito do que pensa o curador, no próprio Parque Lage que agora o hospeda, há quem entenda que a necessidade de inclusão exige mais. Por decisão da curadoria da EAV, travestis e pessoas trans farão a mediação e a recepção da exposição. Além disso, quatro obras de Matheusa,  jovem artista trans brutalmente assassinada em maio, serão expostas. Ulisses Carrilho responsável pelas decisões, assim as justifica:  “Se a pertinência de pessoas LGBT como autoras de obras não interessa a outros, a mim interessa, sim. Como homem gay, inclusive”.

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SERVIÇO

QUEERMUSEU. Escola de Artes Visuais do Parque Lage (Rua Jardim Botânico, 414; Tel. 2334-4088). Seg. a sex., das 12h às 20h; sáb., dom. e feriados., das 10h às 17h. Classificação indicativa: 14 anos. Até 18/9. Entrada franca.