‘Noir’ na tríplice fronteira: JB visitou o set de filmagem de ‘Águas selvagens’

Co-produção Brasil-Argentina investiga sombria realidade da região que une os países ao Paraguai

TIJUCAS DO SUL (PR) – Fazia frio pela manhã, até mesmo para os padrões do inverno paranaense: 6° C. Mas, em breve, as coisas iriam esquentar naquela fazenda localizada em Tijucas do Sul, cidadezinha distante cerca de 64 quilômetros da capital Curitiba. Encapotado e enluvado, expondo-se o mínimo necessário ao frio fora da casa, o sujeito barbudo empunhava um revólver e anunciou a nós, com um sorrisinho nos lábios: “Hoje o negócio vai ser bom. Vai ter tiro, soco, morte, pontapé... Hoje vamos matar dois!”. 

“Nós” éramos os jornalistas convidados a visitar o set de filmagens do longa “Águas selvagens”, co-produção Brasil-Argentina que está sendo rodada no Paraná. O “sujeito barbudo” era um dos técnicos da equipe, o revólver era cenográfico e seu discurso referia-se à cena a ser filmada naquela dia: o confronto crucial da trama, um desfecho previsivelmente violento para um roteiro ambientado na tríplice fronteira entre o Brasil, a Argentina e o Paraguai. 

Inspirado no romance “El muertito”, do argentino Oscar Tabernise (também autor do roteiro), “Águas selvagens” segue os passos do investigador particular Gualteri (Roberto Birindelli), que sai de Buenos Aires para desvendar um crime cometido na zona de fronteira, região que só costuma frequentar os noticiários nacionais por meio das páginas policiais. “A tríplice fronteira é um não-lugar, um mundo cão com suas próprias leis peculiares”, explica o protagonista Birindelli. “A região atrai pessoas desesperadas, em fuga, que estão apenas preocupadas em sobreviver. Em uma frase: é um lugar onde mães vendem seus filhos e há gente para comprá-los”. 

Referenciado nas tradições do cinema noir, “Águas selvagens” traz elementos tradicionais do gênero: o detetive que se enreda em uma trama cada vez mais complicada, uma bela mulher com passado misterioso (Rita, vivida por Mayana Neiva), um homem poderoso (Dalmácio, interpretado por Luiz Guilherme) que pode ou não estar envolvido na rede de crimes. O caráter ambíguo dos personagens, confrontados com situações extremas, é outra marca do estilo explorada pelo diretor, o argentino Roly Santos. 

“Cada um deles tem um lado sombrio. A violência vai num crescendo, que não é necessariamente explícito”, conta o cineasta, autor do documentário “Caffè sospeso” (2017) e das séries “Hola Índia” (2015) e “New Dubliners” (2016). “O protagonista vem da cidade grande e se encanta com a natureza da região da fronteira. Mas a floresta também tem seu lado sombrio e violento, e o expulsa dali”. 

Mayana Neiva dispensa meias-palavras para explicar as relações entre os personagens e a tríplice fronteira. “O filme mostra pessoas f******. Gente para quem o bem e o mal não existem. O roteiro enxerga a humanidade que há nesses personagens, mas não propõe uma lição de moral”. Atualmente no ar, na série “Rotas do ódio”, produção do canal pago Universal Channel, a atriz paraibana elogia a construção do roteiro dirigido por Santos. “Há o mistério criminal, mas há outras camadas de significado, ligadas à humanidade dos personagens. São todos sobreviventes”. 

A tensa cena rodada na fazenda (que emprega armas, tiros de festim e muito sangue cenográfico) exige concentração dos atores. Todos estão mais à vontade na locação do dia seguinte, instalada no aprazível hotel La Dolce Vita, escondido em uma estradinha de terra distante do centro de Tijucas do Sul. É um cenário literalmente cinematográfico: todos os ambientes do hotel, do restaurante à sala de jogos, são batizados com referências a filmes de Fellini. O bar do hotel (o Federico Bar, óbvio) foi transformado em um cabaré de fronteira, completo com strippers, cafetinas e frequentadores broncos. É onde encontramos Débora (Leona Cavalli), prostituta que se envolve no tráfico de bebês – atividade muito lucrativa e fora de controle no entroncamento entre os três países. 

“É uma situação horrível e cotidiana naquela região, da qual a mídia nacional pouco fala”, conta Leona, que já havia trabalhado com a produtora brasileira do filme (a Laz Audiovisual) na realização de “Cafundó”, de 2005. “Conheço a fronteira e sei que estamos fazendo um filme que trata o assunto de forma séria. O cinema ainda consegue mostrar realidades que a TV ignora.” Mayana Neiva, cuja personagem no filme também está ligada ao tráfico, completa: “Espero mesmo que o longa provoque uma reflexão nos espectadores, que chame a atenção sobre o que se passa por lá”.

Ligado a todo esse contexto sórdido – mas de um modo nada óbvio – está a figura de Dalmácio, o rico argentino que convoca o detetive Gualteri para investigar um assassinato na fronteira. Luiz Guilherme, que encarna o personagem, detalha: “Dalmácio é um sujeito culto, refinado. Ele não incorpora a violência típica da tríplice fronteira. Mas sua história também está entrelaçada com o mundo sombrio daquela região”. Sem dar margem para spoilers, Roberto Birindelli complementa: “Gualteri é trazido pelo Dalmácio para resolver um crime. Mas, na verdade, acaba desvendando outros. E enquanto acha que está descobrindo a verdade, junto com o espectador, na verdade está sendo manipulado... junto com o espectador”. 

Com orçamento de R$ 3,2 milhões, divididos meio a meio entre a Laz e a Cooperativa Romana Audiovisual (Argentina), “Águas selvagens” tem previsão de lançamento comercial em 2020, com distribuição garantida no Brasil pela Imagem Filmes. “Enxergamos um grande potencial na co-produção com a Argentina. Nossos mercados e nossas formas de produzir têm características complementares”, acredita Rubens Gennaro, produtor brasileiro do longa. Sua Laz Audiovisual é mais famosa por ter lançado em 2000 “Oriundi”, que viria a ser o antepenúltimo filme rodado por Anthony Quinn (1915-2001), além de produções como “Anita e Garibaldi” (2013) e o já citado “Cafundó”.

*Marco Antonio Barbosa é jornalista  (httpss://medium.com/telhado-de-vidro)