No ar, antes de mergulhar: confira crítica da peça 'Heisenberg – A Teoria da Incerteza'

As reações quando duas substancias se encontram são imprevisíveis, por isso existem fórmulas estruturadas para que não se erre. Quando dois corpos humanos se encontram, fala-se em química. Por isso, em “Heisenberg  – A teoria da incerteza”, embora o nome da peça seja o de um físico teórico,  é a química  a ciência em que se pensa de imediato ao se assistir à  montagem em cartaz no Teatro Poeira.

O texto é de Simon Stephens, um dos mais festejados e premiados autores ingleses da nova geração, e a  direção de Guilherme Piva, com tradução e adaptação de Solange Badim. A história gira em torno de um casal e seus encontros casuais ou não e o desenvolvimento de um relacionamento aparentemente  fadado a não acontecer.

Ela, Georgia, é uma mulher agressiva, potencialmente psicótica, em torno dos 40 anos de idade, que trabalha como assassina, garçonete, recepcionista da escola, já que em cada cena menciona uma profissão diferente. Bonita, assertiva, Barbara Paz encarna essa nova mulher que vai à luta em todas as dimensões. Ele, Alex, é um senhor, de mais de 70 anos, interpretado por Everaldo Pontes, açougueiro, solitário, sem qualquer expressão. 

Não é gratuita a escolha profissional dos personagens. Ela vai do mais prosaico, come em uma praça perto da escola, mas se insinua como dona do destino das pessoas, na versão assassina. Ele é um açougueiro que lida com sangue, carnes mortas, cortes que servirão de repasto e prazer a outras pessoas. Na versão original, aparecem dois companheiros de quarto dele, cujos diálogos ajudam a entender como a dimensão aparentemente simplória e dominada de Alex é o que reforça o  jogo que se anuncia. Georgia sem origem e sem qualquer duplo. A vida dela que se apresenta como exuberante dela versus a vida prestes a ser  morte dele. Vida sem graça versus vida que se diz com graça.

E na construção desse jogo claramente anunciado que a direção de Guilherme Piva e  o trabalho dos atores são construídos no tempo correto, também nas doses que dão a necessária e correta compreensão de um texto que poderia parecer simples e fácil por se tratar de mais  uma história sobre um relacionamento esquisito, mas que vai, o tempo todo, nos falar de como tudo é incerto. Stephens nos faz ver como não existem histórias convencionais  nem destinos previsíveis.

Georgia é uma personagem que puxa, avança, arranha, mas não fere. Constrói em Alex um sonho de vida, de gozo. Barbara Paz aproveita o figurino – refinado demais para uma pessoa  com as profissões que indica - com as capas/casacos de chuva  para evidenciar que há de se abrir o corpo, apresentar as camadas. Ele, também no figurino que pretende mostrar a sua simplicidade, fica à mercê dos oferecimentos e desejos dela. A submissão é bem evidenciada no trabalho do ator.

O jogo da ciência, que expressa verdades  imutáveis, serve de fundo, assim como  o painel que dá as datas e anuncia a passagem do tempo,  reforça que Georgia e Alex apesar de personalidades aparentemente estereotipas bem definidas, que acabam sendo tão mutáveis  no movimento do incerto que é viver.  Mas tanto a passagem de tempo como a ciência só servem para demonstrar o que já sabemos. Só vivemos uma certeza, a  da morte e a vida é tal qual ficar no ar, antes de qualquer mergulho.

*Professora do Depto de Comunicação da PUC-Rio e doutora em Letras

-----------

SERVIÇO

Heisenberg – A Teoria da Incerteza 

Teatro Poeira (Rua São João Batista, 104 – Botafogo – RJ. Tel.: 2537-8053). Qui. a sáb., às 21h. Dom., às 19h. Classificação: 16 anos. R$ 70.