Galeria Oriente comemora dois anos com mostra de fotos inspiradas em famosa tela de Gustav Klimt

“O beijo”, tela de Gustav Klimt, é daquelas obras de arte que despertam uma infinidade de interpretações. Curvas e linhas retas, retângulos e formas ovais, aparentemente inconciliáveis, nela funcionam com uma aura de paixão para o casal que se beija. Foi a partir desta imagem que a Galeria Oriente, na Glória, propôs a nove renomados profissionais que se inspirassem para fazer suas fotos.  O resultado é a mostra “Beijo”, que abre hoje para o público, marcando os dois anos de aniversário da galeria. Além da coletiva, serão inauguradas hoje também as individuais “fragmentos diários”, do artista visual conhecido como demps, e “O jardim de Maria”, série ganhadora do melhor portfólio do FotoRio 2017, de Pedro Kuperman.

“Estamos muito felizes em completar dois anos, em especial por sempre ter recebido muito apoio do meio artístico de diversas formas, e esperamos que isso seja só o começo”, diz a galerista Adriana Braga, à frente da Oriente, que realizou 13 exposições e 13 performances, além de conversas sobre arte no período, e segue com a agenda lotada até o final do ano. 

Há beijos entre homem e mulher, mulher trans e homem, homem e homem e até entre prédios ou praias. Ou seja, as interpretações dos fotógrafos foram tão variadas quanto as dos admiradores da obra de Klimt. Entre os artistas que participam da mostra estão Walter Carvalho, que “resgatou” sua foto de uma série que fez em 2008. “Era um trabalho sobre a maternidade. Naquela época, comecei a procurar situações de beijos que, afinal, vêm antes da gravidez!”, conta Walter, afirmando ter este compromisso com seu trabalho, o de nunca deixar as imagens esquecidas nos arquivos e gavetas.

A fotografia selecionada por Walter, de um casal se beijando enquanto uma mulher olha com desconfiança para a câmera, que mais uma vez provoca diferentes interpretações,  foi feita na passarela de Madureira - “Aquela que sempre tem engarrafamento de gente”, localiza: “Para mim, a fotografia acontece em três momentos. O primeiro é o que você vê, o segundo fica entre o olho e o visor da câmera e, o terceiro, quando a foto é revelada ou jogada no computador. Depois, quando vai para a parede, bidimensional, ganha outra leitura. Uma foto não pertence a ninguém, é do mundo!”, opina o renomado fotógrafo. Ele, que acabou de codirigir a série “Onde nascem os fortes”, na Rede Globo, fez a fotografia do longa-metragem recém-finalizado “Isso não é aqui”, rodado durante a Copa do Mundo de 2014, no Brasil, e que mostra três personagens confinados em um apartamente assistindo aos jogos.

Já Anna Kahn mostra um olhar totalmente diferente, ao escolher registrar o beijo entre Bruna Marx e o marido, Gustavo. “Queria algo contemporâneo e um dia li uma matéria sobre a Bruna, que é trans, militante e está envolvida num processo contra a Marinha para poder voltar ao trabalho - a instituição a afastou há dois anos e quer aposentá-la por incapacidade. Logo a imaginei como protagonista da minha foto. Entrei em contato, falei do projeto e eles toparam participar”, conta Anna. 

Ela conta que foi ao encontro do casal em Niterói, onde a foto foi feita através de uma porta de vidro, com reflexos de um jardim. “Eu queria dar um ar de porta-retrato, de ambiente familiar mesmo”, explica. Sobre o rosto de Gustavo não aparecer, garante que não foi proposital: “Tinha várias fotos onde o rosto dos dois apareciam claramente, ele não tem problemas em se mostrar - descobri, aliás, que, devido a esta postura, ele sofre com o mesmo preconceito que Bruna. Escolhi a imagem para a exposição, por causa da sombra de Bruna, que parece uma terceira pessoa”.

Há ainda Rogério Reis, que fez uma foto na praia; Ana Dalloz que interpretou a proximidade de dois prédios como um beijo; Fábio Seixo, que ampliou um “quase beijo” entre Jair Bolsonaro e Túlio Feliciano e colocou a logomarca “United Colors of Benetton”; e Kitty Paranaguá, que optou por uma visão mais poética. “Beijar é estar próximo do outro, é diálogo, é intimidade, é resistência e é lugar conquistado. Meu beijo é uma homenagem ao amor livre, às escolhas de cada um”, diz Kitty em relação à foto que mostra um clima amoroso entre duas mulheres. 

A Galeria Oriente apresenta a primeira individual de demps, artista visual autodidata, intitulada “fragmentos diários”. São quatro trabalhos: o vídeo “mneminutos (composição I)”, resultado de uma pesquisa iniciada em 2012; “poéticotidiano”, instalação de fotografias que compõe um diário imagético; “sobretexto”, textos datilografados com a ideia de poesia visual; e a escultura “silêncio tecido”.

“O jardim de Maria”, série ganhadora do melhor portfolio do FotoRio 2017, também é a  primeira individual de Pedro Kuperman. O fotógrafo e designer gráfico apresenta uma série de imagens em preto e branco, com um jogo de luz e sombras que se desenrola no jardim. 

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SERVIÇO

Beijo + fragmentos diários + O jardim de Maria - Galeria Oriente (R. do Russel, 300/401 - Glória; Tel.: 3495-3800). Seg. a sáb., das 14h às 19h. Entrada franca. Até 1/9.