Cervantes à Kiev: Companhia da Ucrânia encena neste domingo balé ‘Dom Quixote’

Em turnê que inclui dez cidades brasileiras, o Kiev Ballet desembarca no Rio para uma apresentação única no domingo, celebrando a obra de Ludwig Minkus (1826-1917), compositor da música de “Dom Quixote” e “Paquita” – esta em parceria com Édouard Deldevez (1817-1897). Para montar o espetáculo na Jeunesse Arena, na Barra, a companhia promove adaptações no palco, de forma a deixar o ambiente para a plateia mais semelhante ao dos teatros onde suas peças costumam ser encenadas.

Fundado em 1867 na capital da Ucrânia, o Kiev Ballet realiza sua primeira turnê sul-americana nestes 151 anos de existência, incluindo cidades no Peru, no Chile e na Argentina, além de Rio, Goiânia, Brasília, Natal, Recife, Salvador, Florianópolis, Curitiba, Belo Horizonte e São Paulo.

A internacionalização veio a partir de 1991, após a independência ucraniana, com o fim da União Soviética, quando o tradicional corpo de bailarinos passou a se apresentar no Ocidente. O padrão, porém, segue os preceitos com os quais a companhia se criou e consagrou bem antes desse período, no século retrasado.

“Kiev representa uma das principais escolas de balé do mundo. Além da excelência de seus bailarinos, há a rigidez com que segue as coreografias originais”, afirma Odemir Gonçalves Santos, representante da companhia na América Latina. 

Curiosamente, a peça principal, com previsão de 65 minutos, se notabilizou exatamente por variar em relação a padrões, quando foi lançada, em 1869 – dois anos depois da fundação do Kiev Ballet. A ousadia foi necessária para adaptar ao balé o clássico da literatura “Dom Quixote de La Mancha”, escrito pelo espanhol Miguel de Cervantes (1547-1616) e publicado pela primeira vez em 1605, em Madri. A coreografia remete a oito cenas do livro, divididas em quatro atos.

Em um espírito de arte que transcende conflitos geopolíticos, a companhia ucraniana encena a coreografia de “Dom Quixote” do russo Marius Petipa (1818-1910), um dos mais influentes do final do século XIX e, para muitos especialistas, o responsável por fazer do balé da Rússia o mais forte do mundo a partir daquela época, incluindo “Copélia” e “O lago dos cisnes”, entre outros clássicos.

Sua primeira montagem, em dezembro de 1869, foi feita exatamente no principal palco do balé russo, o Teatro Bolshoi, em Moscou, onde o público foi apresentado à adaptação de Petipa das peripécias do “cavaleiro da triste figura” para o balé.

“Não deixamos essa divisão contaminar a questão cultural comum. Uma de nossas bailarinas,  Ekaterina Kruk, é russa, inclusive. Também temos um solista tcheco, Jan Vaña”, ressalta o representante do Kiev Ballet na América Latina. A maior estrela da companhia é mesmo local, porém, como acrescenta Odemir Gonçalves. Trata-se da principal solista, Tatiana Golyakova, 42, ucraniana da gema de Kiev.

Kateryna Kozachenko, Stanislav Olshanskyi, Khrystyna Shyshpor, Ruslan Avramenko e Yevheniy Svyetlitsa são outros destaques do grupo de 38 integrantes, já agraciado com a Estrela de Ouro, maior prêmio da Academia Francesa de Dança.

Prevista para aproximadamente 35 minutos, a outra peça no programa deste domingo do Kiev Ballet estreou 21 anos antes, na Ópera de Paris, e também ganhou a assinatura de Petipa, ainda que indireta. Montada em dois atos e três cenas por Joseph Mazilier e Paul Foucher, “Paquita” estreou em 1º de abril de 1846 na capital francesa, com a música do austríaco Minkus e do francês Deldevz, baseada nas danças espanholas – aspecto da cultura ibérica mais festivo do que as visões de Dom Quixote, o que também se reflete em suas coreografias.

No ano seguinte, esse balé já ganhou uma versão do praticamente onipresente Marius Petipa para o Teatro Bolshoi Kamenny da Rússia, em São Petersburgo. 

Ela consagrou a forma de pantominas, em que, além da dança, os bailarinos se expressam com gestos, mímicas e demais expressões fisionômicas e corporais.

As adaptações não se restringem à passagem de um livro para a dança. Para apresentar o balé em uma arena originalmente construída para esportes, a companhia fez algumas modificações na estrutura cênica.

Uma das providências foi a retirada das cadeiras no nível plano, que poderiam dificultar a visualização. “Mantemos as cadeiras da arquibancada, escalonadas em altura, o que impede que alguém fique sem visão para o palco, um problema que acontece principalmente quando o espectador tem alguém mais alto na frente, adianta Odemir Gonçalves Santos. 

Outra medida para garantir uma visualização adequada, já que a arena tem arquibancadas laterais mais acentuadas que as utilizadas em teatros, foi abrir mão das estruturas de luz e cenários nos cantos do palco. “Toda a iluminação e movimentação de cortinas ficará em estruturas suspensas, para que os postes laterais não tapem a visão de parte do público”, afirma. 

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SERVIÇO

KIEV BALLET Jeunesse Arena. Av. Embaixador Abelardo Bueno, 3401, Jacarepaguá. Tel.: 2430-1750. Domingo, às 18h. Ingressos de R$ 80 a R$ 260.