Rosas bordadas: Paula Costa faz uso da natureza para exposições em galeria de arte

O tempo, a vida, o amor: temas frequentes na literatura e nas artes plásticas. A natureza, uma maneira de expressar estas reflexões _ um exemplo clássico, a obra de Frans Krajcberg. Outro, ainda mais próximo das cores dos seus jardins, Burle Marx.

Este caminho é seguido por Paula Costa, nas suas rosas e folhas expostas em galeria de arte. Aos 36 anos, Paula não seguiu escola de desenho, pintura ou escultura. Pelo contrário, começou a trabalhar na dura rotina (rotina?) das agências de publicidade, durante seis anos. 

“Comecei em pequenas agências, acabei na Thompson, quando fui convidada para ser gerente de marketing da Farm, a marca  recém-saída da fase da Feira Hype. Quando já tinha uma equipe de seis pessoas, esperando meu filho, fui para a Fábula, ainda em projeto, porque a Katia Barros (sócia da Farm) queria ter uma linha de roupas de menina. Virei diretora geral, com direito a interferir na direção criativa”, conta Paula, inacreditavelmente jovem para tantas atividades. 

E não foi só isso: “Saí da Fábula, resolvi trabalhar com design. Durante cinco anos, tive a Gávea Garage, onde restaurava e vendia móveis. Depois deste tempo vi que seria sempre uma péssima empresária, tinha que parar de brincar com isto. Abri um escritório de direção criativa para clientes de moda. Atendia à BB Básico, Uncle K, Alfaias, Mormaii, Coca-Cola Jeans. Mas neste período perdi meu pai, um abalo muito forte na minha vida. Fechei o escritório há um ano e meio.”

Tantas atividades e muita insatisfação. Uma consulta médica mostrou um caminho inesperado. “Minha impressão de que havia um nó, de que faltava um lugar para me expressar, foi confirmada por um exame: tinha oito nódulos na tireoide! Pensei: o que quero dizer com estes nós? O marketing é um meio muito noisy, não tinha como entender estes sinais.”

Paula encerrou com as marcas, começou a pintar. Morando no Jardim Botânico, com o filho de 11 anos e o marido, Rodrigo Suricato, vocalista da banda Barão Vermelho, estava cercada de flores e plantas.

Começou a bordar rosas com alinhavos vermelhos formando palavras. Um dia, quando sua casa serviria de locação para o catálogo da Farm, as produtoras viram os testes bordados. 

“Acharam lindo, alguém tinha que ver e avaliar. Mostrei para a Ana Andreazza, que me mandou para a Cristina Burlamaqui e para a Cristina Pinheiro Guimarães. Levei fotos e uma caixinha de óculos com uma das rosas dentro. As fotos foram vistas rapidamente, mas, quando a caixinha foi aberta, deu aquela parada, depois o comentário da Cristina: “Isto é arte”. 

Dali, ficou combinada a exposição “Transborda”, na galeria EMCB, no Horto. Dois andares recheados de arranjos, instalações, mais de 300 rosas bordadas. Folhas e ramos das podas do Sítio Burle Marx, um mandacaru que floresceu durante a mostra, aberta em outubro do ano passado. 

“A cada semana bordava mais flores, ao mesmo tempo que as rosas e folhas já expostas iam murchando, secando, dando a noção do tempo. O observador entendia o momento, durante aqueles dois meses da exposição. A natureza finalizava as obras”. 

Quem se apaixona pelas flores com expressões em linhas vermelhas pode levar para casa, como toda obra de arte. Elas são dissecadas e colocadas em caixas de acrílico. E agora, o que fará Paula? Está começando a produzir vídeos e instalações, em torno das rosas. No dia 8 de agosto, lança o livro “Transborda”, com texto de Ulisses Carrilho, na livraria Travessa de Ipanema. 

E os nódulos da tireoide?

“Sumiram”, finaliza Paula Costa.