Caixa Cultural oferece possibilidade de assistir ao cinema da República Democrática Alemã

De hoje a 19 de agosto, uma mostra na Caixa Cultural, no Centro, oferece ao público a possibilidade de assistir ao pouco conhecido cinema da República Democrática Alemã (RDA, também chamada de Alemanha Oriental). A retrospectiva “Imagens para o futuro – A Alemanha Oriental no cinema” proporciona um panorama de uma filmografia complexa, que procurou conciliar ideologia, indústria e reflexão social, desde filmes de gênero, como ficções científicas, musicais e  faroestes, a obras que consideram a emancipação feminina e o descompasso entre a juventude e o Estado.

O cinema da RDA existiu por 45 anos, de 1946 a 1992. A produtora estatal de cinema, conhecida pela sigla Defa, realizou cerca de 750 filmes. Nos anos 1990, uma eleição dos cem melhores filmes alemães de todos os tempos incluiu 14 deles, segundo o historiador Séan Allan. Apesar disso, de acordo com o especialista em estudos germânicos, que coeditou um livro sobre o tema, fatores como a Guerra Fria e o sucesso do “Novo Cinema Alemão” das décadas de 1960 e 1970  levaram a produção a ser imerecidamente negligenciada.

A mostra, com curadoria de Pedro Henrique Ferreira e Thiago Brito, apresenta 25 títulos, como “Os assassinos estão entre nós” (Wolfgang Staudte, 1946), o primeiro filme alemão a ser exibido fora do país depois da guerra, e  “Coming out” (Heiner Carow, 1989), que aborda o conflito de um jovem professor para aceitar a homossexualidade. 

Thiago ressalta que os curadores esperam olhar para esta produção “em sua complexidade e diversidade. Ver os filmes da mostra é também observar um tipo alternativo de produção e de criação de cinema”.  Pedro destaca que o título da mostra se deve a um interesse frequente dos filmes para retratar a construção de um novo homem e de uma nova sociedade, sem deixar de lado as tensões inevitáveis neste processo. Na ficção científica  “Eolomea” (Herrmann Zschoche, 1972), por exemplo, o desaparecimento de naves no espaço serve como premissa para explorar conflitos entre as noções de indivíduo e de utopia.

Nazismo e condição feminina

Reflexões sobre como lidar com o passado e a responsabilidade pelo nazismo também permeiam algumas obras, sobretudo aquelas dos anos imediatamente posteriores à Segunda Guerra Mundial. Os soviéticos, que detinham 55% da Defa, entendiam o cinema como um instrumento de educação e de remoção da ideologia fascista e militar da sociedade, em particular entre os mais jovens. 

“Estrelas” (1959), de Konrad Wolf, um dos mais célebres diretores da RDA e presidente de sua Academia de Artes, é um exemplo. Vencedor do Prêmio do Júri do Festival de Cannes, conta a história de um oficial nazista que se apaixona por uma judia, enquanto escolta um grupo de prisioneiros para um campo de concentração. 

A mostra prioriza filmes que abordam a condição feminina na sociedade, uma característica da cinematografia do país a partir da década de 1970, em obra feitas por cineastas de ambos os gêneros. Além de terem eleito quatro filmes dirigidos por mulheres para exibição em 35 milímetros no festival (em comparação a dois dirigidos por homens) a cineasta Evelyn Schmidt, uma das cineastas mais prestigiadas da quarta (e última) onda do país, ministrará uma palestra sobre o tema, no dia 4 de agosto, às 17h. 

Conhecida por filmes como “Infidelidade” (1979) e “A bicicleta” (1981) e sendo uma das únicas três realizadoras em um universo de 35 cineastas, Evelyn discorrerá sobre a presença feminina na Defa. “As mulheres tinham empregos, autonomia e autoconfiança”, diz. “Não havia, entretanto, nenhuma noção sobre feminismo. As funções de liderança costumavam ser exercidas por homens e não nos questionávamos.

A diretora sublinha que o interesse por histórias femininas também se explica por motivações estratégicas. Os órgãos de censura  determinavam que os homens fossem sempre fortes ou toda a estrutura política seria questionada, afirma. Por outro lado, nas histórias com protagonistas mulheres, as nuances eram mais aceitas. “A elaboração dos conflitos era mais fácil. Elas eram frequentemente retratadas como frágeis e passíveis de cometer erros”.

Essa tolerância relativa não impediu que “A bicicleta” sofresse censura. Muito bem recebido internacionalmente, o filme só foi lançado em poucas salas na RDA. Outras obras da mostra, como “O coelho sou eu” (Kurt Maetzig, 1965),  no qual uma jovem tem um caso com um homem que condenou seu irmão por subversão, sofreram destino ainda pior e só foram lançadas anos depois. “Em sistemas ditatoriais, somos obrigados a desenvolver uma linguagem subentendida. Até hoje, os antigos cidadãos da RDA podem ler as entrelinhas”, afirma Evelyn.

A retrospectiva conta também com uma palestra de Thomas Elsaesser, considerado um dos maiores historiadores do cinema alemão do mundo e professor da Universidade de Amsterdã, marcada para 14 de agosto, às 18h10. A programação completa pode ser conferida no site do Instituto Goethe, um dos apoiadores do festival. 

-----------

SERVIÇO

IMAGENS PARA O FUTURO – A ALEMANHA ORIENTAL NO CINEMA – Caixa Cultural (Av. Almirante Barroso, 25 -

Centro; Tel.: 3980-3815). De hoje a 19 de agosto. Programação em www.caixacultural.com.br/. R$ 4.