TEATRO - São dois pra lá, dois pra cá: confira crítica da peça “Minha vida daria um bolero”

O gênero musical tem várias formas. A opereta,  a ópera-pop, o musical, mas agora  tem  crescido uma nova faceta:  concertos temáticos com uma certa  trama, uma linha narrativa que alinhava as músicas, dá-lhes um sentido  e utiliza  atores-cantores para que  se consiga  uma maior empatia com a plateia. “Minha vida daria um bolero”,  concebido por Eduardo Barata, show–runner da cena brasileira, constrói com texto de Artur Xéxeo um espetáculo  que mistura  nostalgia de uma trilha  impecável e uma história de amor clássica. 

Em cenário de programa de rádio, que aponta para a concepção popular do que é um estúdio, Diana – Françoise Forton -, a apresentadora, inicia dizendo que é a última edição do programa “Minha vida daria um bolero”. E aí começa  a dualidade que percorre todo o texto, pois existe presente  e flashback,  encontro e separação, quiproquós.  A ideia do autor  de  atualizar os fatos da  narrativa é importante para provocar o entendimento que não se fala de décadas atrás. E sem a preocupação do acerto de cronologia –  pois Diana  diz que começou há 20 anos, ou seja em 1999 - vai inserindo práticas atuais como e-mail. 

A história de Diana é com Orlando (Aloísio de Abreu), de Orlandia,  seu primeiro ouvinte, apaixonado por boleros, louco para casar, professor de dança. O lugar-comum de se apaixonar pela voz aqui ganha uma excelente inversão. É Diana que se apaixona pela voz do ouvinte, com quem passa a ter longuíssimas conversas ao telefone. É no contar dos acontecidos que  os boleros vão correndo para dar sentido ao que se fala. Ao invés de ouvirmos as gravações originais, são os dois atores que cantam “Tu me acostumbrastes”,  “Solamente una vez”, “Angustia”, “Besame mucho” e mais 13 boleros que caem como uma luva para reforçar a situação. 

É uma história de amor  praticamente contemporânea, pois os contatos são via telefone, mas que por conta da música poderia ser incendiada. E os figurinos, discretos para ela, quase de um imaginário do que é uma senhora recolhida e discreta, são em preto, preto e branco, bege. Faltam o vermelho, o brilho, o sangue, o desespero. Apenas uma vez, Diana usa uma saia dupla-face com vermelho. Orlando também  é composto na discrição atemporal com blazers e a camisa de cetim rosa-shocking  traz apenas um levíssimo reforço.

É Orlando de Orlandia,  um professor trapalhão, inocentemente romântico, interioreano,  que é o fio  condutor, pois são as suas mudanças  sejam de sentimento, sejam   de cidade que criam os plots points para transformar um  concerto em uma peça. A interpretação de Aloísio de Abreu é leve, divertida, eficiente, sem qualquer vestígio de ridículo exagerado ou armadilha que nesse tipo de história pode-se cair. A movimentação do corpo, o balanço , o jeito com quem fala com Diana tornam verossímil a paixão que ela desenvolve pela voz. Francoise Forton compõe a  apaixonada que não se lança, não se joga e, por isso, discreta. Mas o casal é uma verdadeira pareja que dança lentamente, mas que ao final de dobra no enorme abraço da paixão rasgada. 

“Por que não tentar de novo?”, brinca Xexéo. 

* Professora do Depto de Comunicação da PUC-Rio e doutora em Letras

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Serviço 

“MINHA VIDA DARIA UM BOLERO”. Teatro Sesc Ginástico (Av. Graça Aranha, 187 - Centro; Tel.: 2279-4027). Qui. a sáb., às 19h, e dom., às 18h. Até 5/8. R$ 30 (inteira). Classi?cação: 12 anos.