Cida Moreira entrega voz a Tom Waits e apresenta 'Canções para cortar os pulsos' no Jardim Botânico

Ao longo de mais de 40 anos, a cantora e pianista paulistana Cida Moreira se distinguiu por interpretar canções de modo cortante e particular, sem se prender a fórmulas ou tendências do mercado. Isso acabou por trazê-la um público devoto, porém limitado. “Não sou uma cantora popular ou de sucesso, mas posso fazer o que quero. Em minha vida pessoal e em meu trabalho, sempre cultivei uma liberdade muito grande. Tenho personalidade forte e sempre quis fazer as coisas do meu jeito. Também perco coisas por isso, mas, no frigir dos ovos, está tudo como quero”, ela afirma. 

Hoje e amanhã, às 21h, no Manouche, no Jardim Botânico, os cariocas terão a rara oportunidade de conferir a cantora e pianista ao vivo, imprimindo a própria assinatura às canções do compositor e cantor americano Tom Waits, no show “Canções para cortar os pulsos”. Composto por 15 músicas interpretadas no piano, o espetáculo, que desde 2003 já contou com várias encarnações, teve sua última apresentação na cidade há 11 anos. Estes serão os primeiros shows da artista de São Paulo no Rio desde 2013.

Sua relação com Waits, Cida explica, é de “adoração”. Junto a outros “autores”, como ela se refere, como Lou Reed, Patti Smith e Amy Winehouse, ela diz se identificar com a transgressão, decadência e impetuosidade que permeiam a obra de Waits.  “Ele tem um universo ao mesmo tempo pop e underground, que me interessa muito. Eu me encanto pela esquisitice, pelo estranhamento e pelo estilo absolutamente único dele. Não há nenhuma obviedade no que faz”, comenta. 

Cida, que tem um vira-latas chamado Tom Waits (ela já teve outras chamadas Billy Holliday e Patti Smith), diz que decidiu interpretar as músicas em razão das letras. Os temas do compositor, embora também incluam baladas mais tradicionais, com frequência falam de ambientes e personagens enternecidos, desalentados, esquecidos e alquebrados pela vida.

“Escolho a música sempre a partir da palavra, a melodia vem só depois. Quando canto música de autores com quem tenho muita afinidade, o canto sai mais comprometido com o que estou dizendo.  Como em ‘Anywhere I lay head’ (‘Algum lugar onde encostar minha cabeça’, música de ‘Rain dogs’, de 1985), às vezes é uma frase o que me atrai”.

A artista, que começou a cantar no teatro, diz que a forte carga dramática com que carrega as interpretações é inevitável. “Não penso que vou cantar teatralmente, como se fosse uma decisão deliberada. Tudo o que canto é teatral, porque essa foi a personalidade que adquiri e cultivei. Tem muito a ver com minha geração, que passou a juventude próxima à grande música pop dos anos 1960 e 1970”, ela comenta. 

Com o tempo, a voz de Cida, ainda enorme, tornou-se mais enrouquecida e rascante. Isso gera comparações com o próprio Waits, que sempre teve um canto rouco, curtido por fumaça e bourbon. Ela reconhece a semelhança, mas salienta que a rouquidão “não é de propósito, mas natural. Nas músicas mais fortes e pesadas, aparece mais”. 

O repertório do show foge do óbvio. Dos maiores sucessos de Waits, além da canção supracitada, só estão “Downtown train”, “Time” e “Tango till they’re sore”, todas também de “Rain dogs”.  A abertura é com a instrumental “Fawn” (de “Alice”, 2002). Há espaço para pérolas menos badaladas, do começo da carreira de Waits, como “Closing time” (do álbum homônimo, de 1973), a obras mais recentes, como “Lullaby” e “All the world is green” (de “Woyzeck”, também de 2002). 

Além do show de Waits, Cida permanece em plena atividade. Em 2015, lançou “Soledade”, em que canta compositores brasileiros clássicos (Chico Buarque, Gilberto Gil, Taiguara) e mais recentes (Hélio Flanders, Arthur Nogueira). Já ano passado foi a vez do elogiado álbum “Soledade solo”, em que, ao piano, interpreta outros ídolos, como Leonard Cohen e Marianne Faithfull, além de interpretações intensas e emocionadas para “Na hora do almoço”, de Belchior, que cantava desde a infância e nunca tinha gravado, e “Forasteiro”, de Flanders e Thiago Petit. O último se referiu à interpretação como “a maior honra de sua vida”. 

A última grande aparição pública da cantora foi no filme “As boas maneiras”, de Juliana Rojas e Marcos Dutra, deste ano. Seu próximo trabalho, comenta, “não se parecerá com o último álbum”. Ela, que mês que vem vai a Alemanha interpretar canções de Kurt Weill e Bertold Brecht em alemão, que interpreta desde o início da carreira, cogita gravar compositores mais jovens, como, além dos já mencionados, Romulo Fróes e Thiago França. “A atual geração da MPB é extraordinária”, elogia.

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Serviço 

CIDA MOREIRA CANTA TOM WAITS EM “CANÇÕES PARA CORTAR OS PULSOS”. Manouche (R. Jardim Botânico, 983 - Jardim Botânico - subsolo da Casa Camolese; Tel.: 3514-8200). Hoje e amanhã às 21h. R$ 80, R$ 60 com 1kg de alimento não perecível. 100 lugares. Classi?cação: 18 anos.