Todo melhor que as partes: confira resenha do livro “Alguns humanos”

“Alguns humanos” de Gustavo Pacheco, é o tipo de livro de contos cujo resultado é mais forte que a soma das partes. A primeira história acompanha a vida de um pigmeu que viveu no Zoológico do Bronx, entre orangotangos, no início do século passado. A segunda tem como premissa a polêmica envolvendo dioramas de povos ditos primitivos no Museu de História Natural de Nova York. Não surpreende descobrir que o autor é doutor em antropologia pelo Museu Nacional. 

O livro trata de coisas sérias, colocando em questão a todo tempo as linhas que temos para demarcar o que é humano e o que não é, assim como os espaços históricos onde isso é disputado. Mas a voz que nos carrega pelos fios das meadas é quase sempre a de alguém que vê graça em tudo que descreve e só quer chegar logo no próximo parágrafo. Isso resulta numa leitura gostosa, mas é uma pena que em alguns momentos algumas ameaças de intensidade acabem se desarmando com essa distância engraçadinha.

Pacheco mistura na sua ficção elementos históricos reais com outros inventados e é habilidoso em misturar fatos científicos no meio da sua economia narrativa ligeira. A voz soa mais convincente falando de lugares remotos no tempo e no espaço do que do Brasil de agora. 

O repertório vasto lembra Borges, mas a referência mais direta do livro é o seu primo diluído, Cortázar, em particular um conto seu sobre o animal mexicano Axolotl que Pacheco transforma em algo mais solto e enigmático (desses casos em que o derivado sai melhor que o original).

Os contos pulam da burocracia do inferno para as consequências espirituais do conflito entre China e Tibet, mistura as ambiguidades da autoria no circuito da arte contemporânea com as da possessão mediúnica. Um deles explora, ainda, a cavernosidade retumbante da voz de Cid Moreira, em seu CD lendo os salmos (não vou dizer como pra não estragar).

É uma ótima estreia. Espera-se que o autor dê mais espaço para as suas tramas e frases respirarem, porque é evidente que sua imaginação é farta e sabe se enredar. 

*Escritor e doutorando em Literatura Comparada na Uerj.