Diretor Noilton Nunes lança ‘Sigilo eterno’, filme-poema sobre a arte de resistir

Pérola da literatura cinéfila no Brasil, o “Dicionário de Cineastas Brasileiros” (1990) resume o verbete dedicado a Noilton Nunes, um dos mais combativos defensores da estética do Real em nossas telas, assim: “documentarista e técnico (fotógrafo e montador) especializado em filmes didáticos e científicos”. De fato, a contribuição teórica deste realizador e professor de 71 anos, egresso de Campos de Goytacazes (RJ), foi fundamental para o entendimento de outros sertões na obra de Euclides da Cunha (1866-1909), analisada por ele no épico “A paz é dourada”, ao qual dedicou quase duas décadas de trabalho. Mas existe uma poesia em seu olhar sobre o mundo que transcende a dicionarização de seus feitos. Esta poesia poderá ser fruída por quem passar pelo Estação Net Botafogo hoje à noite, às 21h, para conferir o novo longa-metragem feito por Noilton: “Sigilo eterno”. A sessão encerra a Mostra Cavídeo, dedicada aos 21 anos de trabalho do produtor Cavi Borges em prol de veteranos como Noilton, aclamado na década de 1970 por cults como “Leucemia – O filme da anistia”. O novo longa é estrelado por Aline Deluna (uma sensação dos palcos à frente da peça “Josephine Baker – A vênus negra”) e Rollo Roquenrolo, um dos atores mais cults do cinema alternativo carioca da atualidade.

Na trama, o realizador segues os passos de Heloísa, uma jovem diplomata brasileira, que participa da Conferência Internacional sobre o Clima em Paris. O cineasta Natan, seu ex-amante, está no Rio de Janeiro realizando um documentário sobre mudanças climáticas na cidade. “No filme, a narrativa cinematográfica acompanha os diálogos entre os dois à distância, apresentando um painel das mobilizações que estão acontecendo em busca da necessária conscientização planetária para enfrentarmos imensos desafios, tentando salvar a humanidade”, diz Noilton. “Salvar a Terra é nossa última grande utopia”. 

Na entrevista a seguir, Noilton passa sua estética em revista e fala sobre a dimensão poética e combativa do verbo “resistir”.

JORNAL DO BRASIL: Que Brasil está retratado em “Sigilo eterno”? 

NOILTON NUNES: O Brasil e o mundo que estão expostos em “Sigilo eterno” são retratados num momento muito peculiar da história da Humanidade. Continuando os atuais níveis de poluição, desmatamento e envenenamentos do ar, da água e dos alimentos, os seres humanos entrarão em breve nas listas das espécies ameaçadas de extinção. 

Qual a natureza política consciente do seu cinema e como ela se materializa neste filme?

Cada vez mais quero fazer filmes e participar de ações contundentes, pois estou consciente de que não posso... aliás, não podemos continuar aceitando que 1% das pessoas que habitam nosso planeta sejam os donos do mundo e façam todo tipo de crimes em prol apenas de suas sustentabilidades. 

Qual é o seu lugar no cinema brasileiro de hoje e como você se relaciona com seus pares de relação? 

O cinema tem cada vez mais a missão de chamar a atenção dos que vivem na Terra, para os graves problemas que estão nos afetando. Dentro do capitalismo, não há possibilidades de resolvermos as atuais e apavorantes questões que vão aumentando a cada dia. A maioria dos meus pares, os meus amigos, companheiros que ainda acreditam que “O poder se ganha nas telas”... uma frase famosa do Cacá Diegues... sabem muito bem que precisamos fazer filmes cada vez mais inteligentes, fecundos, carregados das inquietações das milhares de Marias, dos milhares de Joãos e Josés... Precisamos fazer filmes livres, que ainda possam provocar sensações de esperanças, de amor, de mudanças, de encontros com um novo mundo.

Existe um “projeto” estético de cinema hoje no Brasil? Como ele é e como “Sigilo eterno” se relaciona com esse projeto? 

A Mostra Cavídeo 21 Anos, os muitos filmes de ficção e vários documentários que estão surgindo como Fênix das profundezas, vencendo as burocracias ditatoriais, são exemplares e deixam claro que não vamos entregar fácil as nossas certezas. “No Brasil de hoje, quem pensa, quem estuda, quem pesquisa é cada vez mais enxotado pelos medíocres, que passam por nós, afrontam-nos e ocupam os melhores postos de decisão. É a imbecilidade triunfante.” Essa frase do Euclides da Cunha, escrita há mais de cem anos, está atualíssima. Hoje, estamos sofrendo e sobrevivendo a uma “neoditadura”. Os imbecis triunfantes estão no poder. “Vamos sangrá-la todos os dias”, essa outra frase, que foi a senha para o início do golpe que estuprou a nossa jovem democracia, não pode ser esquecida. Meu filme “Sigilo eterno” pretende ser mais um espaço de reflexão. De respiração. De combate. De luta... 

O que o exemplo do produtor Cavi Borges, um judoca que passou a produzir cineastas das periferias do Rio e medalhões dos anos 1960 e 70, representa para o país?

O Cavi e a Cavídeo são melhores e maiores que a Ancine. O Cavi viu que eu estava precisando de ajuda para finalizar “Sigilo eterno” e não vacilou. Ele é um exemplo para todos nós que amamos o cinema, as artes, a cultura... Já entrou no meu novíssimo filme: “Lente Filmes apresenta...” sobre minha produtora dos anos 1970, que fazia o que ele faz agora. E o Estação é o novo Paissandu (referência à icônica sala de exibição do Flamengo que formou gerações de cinéfilos no Rio dos anos 1960). 

Você dedicou quase duas décadas de sua vida e de sua carreira a um filme inspirado em Euclides da Cunha, “A paz é dourada”. Como ficou esse projeto?

Consegui terminar esse projeto depois de mais de 20 anos de sufoco. O JB fez matérias lindas sobre o percurso do filme. Desde a ideia inicial, publicou uma página inteira e depois foi acompanhando minhas aventuras e desventuras... Numa delas botou uma foto dos meus olhos que ocuparam metade da página. Mas, depois de ficar quase 20 anos em uma caverna, soterrado, perdido, por causa de “A paz é dourada”, o que me traumatizou para sempre, resolvi que farei um filme longo por ano. 

*Roteirista e presidente da Associação de Críticos de Cinema do Rio de Janeiro