"Alguns humanos", livro de estreia de Gustavo Pacheco, tem estilo irônico e distanciado

Gustavo Pacheco há muito convive com textos impessoais. Graduado em Direito, fez mestrado em Relações Internacionais e doutorado em antropologia, até entrar no Itamaraty, em 2006, onde permanece. Nestes cargos, leu e escreveu relatórios, etnografias e telegramas, textos que define como “secos, distantes, frios”.

Segundo Gustavo, as características se aplicam também ao próprio estilo no primeiro livro de ficção, a coletânea de contos “Alguns humanos”, que a editora Tinta-da-China publicou em maio. Escrito em sete anos, o livro recorre a um tom contido e distanciado, comparável, exceto pelo humor, ao que o autor emprega ao escrever no cotidiano de trabalho. 

“Você tem que usar de maneira positiva aquilo que tem. Eu notei que se usasse o mesmo registro [profissional] para contar barbaridades, seria muito mais chocante do que se me valesse da primeira pessoa. Acredito em uma abordagem indireta e ambígua, inclusive com fins irônicos”, afirma o autor, que estará na Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) amanhã, ao lado de Sergio Sant’Anna, na mesa “Animal agonizante”, no Auditório da Matriz, às 20h.

A despeito de sua atribulada carreira, Gustavo, de 46 anos, não se manteve distante da literatura. Desde a infância, diz, “lê compulsivamente”. Em Buenos Aires e na Cidade do México, trabalhou no setor cultural das embaixadas, atuando junto a editoras para estimulá-las a publicar autores brasileiros. Além disso, também traduziu textos dos argentinos Roberto Arlt e Patricio Pron em português.  

Ele afirma que seu principal tema é a “fronteira entre o humano e o não humano”. A questão é abordada no livro sob diferentes perspectivas, como a relação entre homens e animais, ou por que em algumas sociedades e épocas algumas pessoas não são consideradas como tais, ou onde termina a consciência individual e começa uma força alheia.

Os contos, diz o autor, são “muito baseados em pesquisa”. Isto se traduz em uma grande quantidade de informações factuais em cada história, sobre temas como a vida de primatólogos em uma reserva de muriquis, um orangotango no zoológico de Nova York ou um médium que incorpora o espírito da poeta argentina Alejandra Pizarnik. 

Para dar estofo aos casos peculiares, todo tipo de material serve ao autor, de relatos jornalísticos a pesquisas acadêmicas. “Ouço um caso interessante, fico com a história na cabeça e então passo a ler obsessivamente a respeito”, ele diz. “Demoro para terminar as histórias. Há contos que demoraram até 20 anos para a conclusão, entre ter a ideia inicial e pôr no papel. No final, uso apenas uma fração”, conta. 

Fontes de inspiração 

O autor afirma que teses de doutorado estão entre suas principais fontes e cita uma frase da antropóloga Mary Louise Pratt, que, em 1986, se perguntou, em referência à pesquisa acadêmica: “Como pessoas tão interessantes, fazendo coisas tão interessantes, podem produzir livros tão maçantes?”. “Posso passar o resto da vida garimpando histórias mal aproveitadas em teses. Parte do meu projeto é recuperar essas histórias”, ele diz. 

Uma dessas fontes foi a tese de doutorado de Guilherme Sá, antropólogo da Universidade de Brasília, que pesquisa a interação de primatólogos com macacos. Foi dali que veio a história dos estudiosos de muriquis. “A primeira pessoa para quem mandei a história foi ele. Não sabia se ficaria irritado, pois tirei muita coisa da tese. Mas ficou muito feliz, como aumentava o alcance dos estudos”, afirma.

No penúltimo conto, o metalinguístico “Alguns humanos”, o escritor volta o espelho para a própria escrita. Um personagem diz a uma escritora: “Essa mistura de realidade e ficção me intriga. Eu sempre fico impressionado com a quantidade de pesquisa que você faz. Embora às vezes eu me sinta um pouco oprimido pela quantidade de dados”. 

“Um amigo disse que antecipo as críticas que posso receber”, diz Gustavo. “Imagino que, para algumas pessoas, o caminhão de informações possa ficar um pouco pesado. Mas assumo isso”. Ele acrescenta que a história foi a última a ser escrita, com o propósito de dar unidade à obra. “O livro tem conexões e brincadeiras internas, como personagens que reaparecem. Espero que, se lido na ordem, se tenha uma sensação de todo, não tão distante do romance”.

Além de elogios da crítica, o livro suscitou comparações com a teoria do perspectivismo ameríndio, do antropólogo Eduardo Viveiros de Castro. A última frase de “Alguns humanos” parafraseia uma declaração dele, em entrevista de 1990. A influência é possível, mas não deliberada, afirma. “Fui aluno do Eduardo e é um pensador de que gosto muito, mas não pensei nele como uma referência. Talvez as comparações existam porque leio muitas etnografias”, conta. 

As influências que reconhece como decisivas são de Rubem Fonseca e Sérgio Sant’Anna, a quem se refere como seus contistas favoritos. O autor teve a honra de ser lido por ambos. No caso de Fonseca, a interação se limitou a e-mail sucinto, escrito no mesmo dia em que o livro foi enviado: “‘Muito obrigado pela amável dedicatória. Já recebi e já li. Um abraço”. “É a resenha negativa mais concisa da história”, brinca Gustavo. “Mas é como receber um e-mail do João Gilberto, uma grande honra”. 

Sant’Anna, por sua vez, foi mais efusivo, elogiando o estilo conciso, o humor e outras características. A comunicação foi o início de uma relação de amizade, que acabou desencadeando na Flip. Gustavo ficou responsável por organizar uma antologia de contos de Sérgio, que sairá em Portugal, quando “O sobrevivente”, livro de estreia do famoso contista, completar 50 anos. 

__________

SERVIÇO

“ALGUNS HUMANOS”, de Gustavo Pacheco. Tinta-da-China, 144 págs. R$ 65.

>> Todo melhor que as partes: confira resenha do livro “Alguns humanos”