Vai pra Cuba! Longa de Alice de Andrade conta histórias de amor da Ilha

Se você não vai a Cuba, Cuba vem até você. O documentário longa-metragem “Vinte anos”, que estreia em circuito na próxima quinta (26), propõe uma viagem cinematográfica pelo dia a dia dos cubanos, pela lente do amor. 

A história começa em 1992. Durante o Período Especial em Tempo de Paz - apelido eufemístico do racionamento implacável que se seguiu ao fim da ajuda soviética a Cuba -, filmando o ritual socialista do casamento, a cineasta brasileira Alice de Andrade conseguiu reunir 40 jovens noivos num casting

O primeiro curta documentário da diretora, “Luna de miel”, retrata dois casais passando o diabo para terem as festas de casamento e luas de mel de seus sonhos, numa Cuba que mergulhava de cabeça na crise econômica que dura até hoje. Só que, nessa época, ninguém previa isso. Pelo contrário: todos esses jovens, bem dispostos e preparados pela educação primorosa que a ilha oferecia aos seus cidadãos na época, acreditavam ter um futuro brilhante pela frente.

Duas décadas depois, ela reencontrou três desses casais pesquisados e, através de suas rotinas e de seus destinos, Alice revela em “Vinte anos” como Cuba põe em prática um importante conjunto de reformas para atualizar seu modelo econômico. As imagens quebram o bloqueio e jogam luz sobre a realidade do cidadão cubano, criando a memória de um período histórico (bem pouco filmado, devido à falta de recursos do cinema cubano na época), até 2015, quando os Estados Unidos reataram relações diplomáticas com o país. 

O filme, o 12º da diretora e seu terceiro longa-metragem (os outros dois são “O Diabo a quatro” e “Memória cubana”), ganhou os prêmios de “melhor trilha sonora” (Candango) e Conterrâneos de “melhor documentário” no Festival de Brasília, além de participar da seleção oficial dos festivais internacionais de São Paulo, Havana, Miami, Guadalajara e Vancouver. 

O longa conta com um toque especial de um dos responsáveis por imagens que popularizaram a história cubana. Pranchas de contatos preto e branco 35mm, com anotações manuscritas de Alberto Korda, reconhecido mundialmente pelo retrato icônico de Che Guevara, “o guerrilheiro heroico” (1960), e fotógrafo de cena do curta, pontuam o filme. 

O tratamento dos cliques do grande fotógrafo para “Luna de miel” (produzido pelo Channel 4 – UK), quando Alice acabava de se formar roteirista pela prestigiada escola de cinema cubana EICTV, revela os privilégios oferecidos pelo Estado como recompensa à formação das famílias, “células mater” de uma sociedade socialista em plena penúria. 

“O governo pagava uma equipe feminina para pintar à mão as fotos dos casamentos, para que os casais tivessem registros coloridos, porque não havia laboratório para revelação de cor no país, apenas para os turistas que podiam pagar em divisas”, explica Alice. “No início dos anos 1990, as pessoas estavam com fome, mas acreditavam que aquela carência toda seria passageira: meus personagens estavam apaixonados e cheios de esperança. O longa mostra que não foi bem isso que aconteceu”. 

O processo de seleção foi capitaneado pela recém-formada jornalista cubana Jamila Castillo, hoje cantora, morando em Madri. Alice conservou todas as entrevistas e fichas de inscrição dos casais não escolhidos na época, pretendendo desde o primeiro filme retomar suas histórias para a realização do longa. De todos, Miriam e Andrés, Silvia e Danilo e Marlene e Mario, estes últimos pais de gêmeas musicistas, têm suas histórias contadas no documentário. 

Numa viagem através do tempo, depois de confrontar os personagens às suas imagens e ideias de então, projetando as entrevistas antigas nas salas das famílias, esse “Boyhood” cubano acompanha suas vidas ao longo de cinco anos, entre Havana, Miami e San José da Costa Rica, onde alguns personagens se exilaram. “Uma das gêmeas, a violinista Winnie Camila Berg, se exilou na Costa Rica. Era tão bem formada que, em dois anos no novo país, ela já fazia parte da orquestra sinfônica nacional. Pouco tempo depois, ganhou o Grammy Latino como melhor solista de música clássica e hoje vive no Japão”, diz a cineasta. 

A própria Alice de Andrade, que deixou Cuba após a conclusão do curso e viveu 17 anos em Paris, é personagem do filme, ao firmar relações de afeto e confiança durante o processo, capazes de captar uma crônica emotiva e verdadeira, desde o sonho socialista.

Via de saída 

“Vinte anos” lembra os mutirões revolucionários, com os cubanos construindo as casas onde viveriam, celebrando valores fundamentais como a solidariedade e a dignidade.  Depois, uma cidade deslumbrante, em grande parte em ruínas, e carros da década de 1950 apresentam uma Cuba parada no tempo. Mas as novas leis, que regulamentam suas propriedades, começam a modificar isso. E o filme revela como a lentidão das obras de restauração de Havana se assemelha às reformas econômicas do governo.

Segundo Alice, a penúria constante e prolongada abalou a moral do povo cubano, mas hoje lhes permite acreditar que há uma via de saída. “Eu quis retratar pessoas fortes, positivas e lutadoras, para além das paixões, ódios e idealizações que Cuba desperta”. 

Com as cores cubanas na tela, vão aparecendo os personagens , sonhando com uma  efetiva  melhoria  de vida e desejando que seu trabalho e a moeda local tenham mais valor. Eles fazem negócios como  autônomos,  legalizam posses de  seus  imóveis, frequentam cultos evangélicos, cerimônias de religiões africanas e recebem a visita do papa Francisco. 

A premiada trilha sonora é outro ponto alto da produção. A clássica “Carmina Burana”, de Carl Off, e “Mi cocodrilo verde”, música cubana de José Dolores Quinõnes, na voz de Caetano Veloso, ajudam a transmitir o sentimento desta história. 

Assinada por Pedro Cintra, a trilha traz versões do clássico cubano “Veinte años”, eternizado por Omara Portuondo no Buena Vista Social Clube. O bolero, cheio de nostalgia, diz assim: “Se as coisas que se quer se pudessem alcançar, você ainda me amaria como há vinte anos atrás, com que tristeza vemos um amor nos escapar, é um pedaço da alma que se arranca sem piedade.” Alice explica que utiliza diferentes versões da música como um comentário no filme. 

A riqueza do material de arquivo de “Luna de miel”, curta que deu a Alice o primeiro prêmio no Festival Internacional del Nuevo Cine Latinoamericano de Havana, em 1993, inspira agora uma série para TV, “80 destinos”, em parceria com o Cine Brasil TV, nesse momento em captação. A série, filmada no Rio, em Cuba, Miami, Espanha, Bolívia e Venezuela, conta a história dos casais entrevistados no casting, desde 1992 até janeiro do ano que vem, quando a revolução cubana faz 60 anos. 

Dirigida também por Alice de Andrade e escrita por ela e por Orlando Senna, a série vai trazer ainda a ida dos Rolling Stones e do ex-presidente Barak Obama a Cuba. 

* Jornalista e documentarista