Em cartaz com ‘Quarto 19’, Amanda Lyra atrai público com texto inspirado em conto de Doris Lessing

Se você estiver na plateia de “Quarto 19”, monólogo dramático em cartaz até domingo no Teatro Poeirinha, fique ciente de que há grandes chances de a atriz Amanda Lyra reparar nas suas mais discretas reações. Com essa observação minuciosa, ela pode alterar o ritmo do espetáculo, dar mais humor, densidade ou leveza à trama. A cada sessão, busca a cumplicidade do espectador. Durante 1h15, o público estabelece uma rara conexão com a história da mulher angustiada com o modelo de vida burguês, que luta pela sobrevivência de sua identidade fragmentada. Por sua atuação neste espetáculo, que estreou em março do ano passado em São Paulo e faz a primeira temporada carioca, a paulista de 36 anos foi indicada aos prêmios Shell e Aplauso Brasil e recebeu elogios da crítica de “ótima contadora de histórias”, dona de “uma arrebatadora composição”.

Amanda admite que a peça, adaptação do conto homônimo da inglesa Doris Lessing com direção de Leonardo Moreira, é mesmo um rito de passagem. “É meu primeiro monólogo e espetáculo mais desafiador”, afirma ela, que também é responsável pela tradução. “A peça não tem um grande cenário, uma grande mudança de luz, um objeto que sirva de ‘muleta’. Eu me sinto muito exposta. Também não tenho a troca com outro ator, então procuro o jogo com o público. As reações das pessoas costumam interferir em como eu vou dizer o texto. Não é uma atitude totalmente consciente, mas estou sozinha em cena e sempre à procura de um cúmplice”.

Com dez anos de carreira, Amanda Lyra nasceu em São José do Rio Preto, filha de dentistas e, como define, ‘a palhaça da família’. Cursou teatro na adolescência, mas, no momento do vestibular, decidiu estudar administração, o que diz ter feito com grande sofrimento, “pânico e depressão”. Depois de formada, ingressou na Escola de Arte Dramática da USP, mudou de vida radicalmente e abraçou a carreira de atriz – e de atriz-realizadora, que corre atrás dos próprios projetos. Além de “Quarto 19”, ela idealizou, produziu e atuou em “Tragédia: uma tragédia” (2014), de Will Eno, e “Uma história radicalmente condensada da vida pós-industrial” (2012), com texto inspirado na obra de David Foster Wallace, ambos dirigidos por Carolina Mendonça. 

“No teatro, principalmente quando idealizo e produzo, tenho um tipo de realização e satisfação profissional que, acredito, não vou ter em nenhum outro lugar. Porque todo o projeto passa por uma escolha minha ou dos meus parceiros. É maravilhoso, mas, claro, levantar o prédio a toda hora, é muito cansativo e pode ser frustrante, pois a gente recebe muitos ‘nãos’ até acontecer. Então, é ótimo também quando o telefone toca com um convite de trabalho”, observa a atriz, que pode ser vista ainda em “Samantha”, primeira série brasileira de comédia da Netflix, que entrou este mês no catálogo, e futuramente em “Assédio”, parceria da Globo em parceria com a O2, ainda inédito. 

Leitora interessada e voraz, Amanda conta que os textos literários costumam ganhar dos dramatúrgicos na hora de escolher seus projetos. “Quarto 19”, de Doris Lessing, caiu nas mãos da atriz em 2009. Tentou montar o texto em 2010, mas não conseguiu patrocínio. Em 2016, casada há mais de uma década com o escritor Roberto Taddei e mãe de Ulisses, de três anos, decidiu que era o momento certo de levar o texto à cena. Publicado em 1963, o conto de fina ironia (que alterna o relato em primeira pessoa com narrativa indireta) questiona o ideal de felicidade da família burguesa, a partir do conflito de uma mulher que tem tudo o que a sociedade espera dela, mas sofre, sufocada, pelo casamento e o papel de mãe. Para tentar fugir da ‘vida de prisioneira’, a personagem passa a alugar sistematicamente um quarto de hotel, sem qualquer atrativo, para ter algumas horas de solidão.

“Foi um momento feliz de retomar o projeto, pois coincidiu de esta fase pessoal minha, de refletir sobre este modelo burguês, estar em sintonia com a nova onda feminista, quando se voltou a falar muito fortemente sobre essas questões no Brasil e no mundo”, avalia. “O conto foi escrito nos anos 1960, e eu mesmo cheguei a me questionar se algumas dessas questões não estavam datadas, mas depois entendi que não. Justamente o que me mobilizou quando li e tive vontade de montar, foi a atualidade das angústias vividas pela personagem, tão insolúveis, sabe? Esse modelo de família da publicidade, de mãe, pai e filhos numa casa boa, numa estrutura boa, é o que vivemos há muitos anos e é difícil se dissociar dele como ideal de felicidade. Na peça, ela não é feliz dentro desse modelo e, por isso, imagina que está louca. Em nenhum momento a personagem pensa que simplesmente pode não querer aquilo para a vida dela”, explica. 

Assim, o “Quarto 19” passa a ser um lugar também metafórico, em que a personagem pode existir além desses papéis. “Este é um drama burguês branco, não há como fugir disso. Ela é uma mulher branca, privilegiada, com dinheiro, não passa fome e não tem grandes questões sociais e financeiras envolvidas. Mas eu não poderia falar sobre uma mulher negra, que mora na favela, não por falta de empatia, mas por não ter lugar de fala. Mas existem também questões femininas e do ser humano que dialogam com todos os públicos. O ‘Quarto 19’ seria um lugar em que não apenas a mulher, mas qualquer pessoa poderia existir fora dessa estrutura burguesa de organização, principalmente as minorias, que costumam ter seus papéis rotineiramente questionados nesse modelo”, entende.

Com temporada de casa cheia no Rio, “Quarto 19” veio para a cidade sem patrocínio, contando apenas com a arrecadação da bilheteria. Com cortes de verbas para a cultura, fins de editais e temporadas cada vez mais curtas, a atriz celebra um movimento de resistência artística no país mesmo sem condições dignas de produção. 

“Ao mesmo tempo em que sofremos com cortes de verbas e um olhar neoliberal nos editais privilegiando o trabalho de resultado ao trabalho de pesquisa, percebemos um movimento de resistência maravilhoso”, afirma. “Se eu vou produzir com poucas condições, que eu faça algo que tenha muito sentido para mim e para as pessoas que estão trabalhando comigo. É um tipo de engajamento que dá a qualidade e frescor a muitos espetáculos que tenho visto. Temos que achar outras formas de existir para além dessa estrutura tradicional que está claramente contra a gente. Senão, sucumbimos e os reacionários vencem”, opina. 

* Jornalista