Tela à vista: 'A Cidade dos Piratas' mistura desabafos do diretor Otto Guerra e reflexões de Laerte

Mesmo em seus momentos mais hilários (e são muitos), “A Cidade dos Piratas”, novo desenho animado em longa metragem do gaúcho Otto Guerra, guarda momentos confessionais de dar nó na garganta: nó de dor. Releitura existencialista da tira de quadrinhos “Os Piratas do Tietê”, da cartunista Laerte, com as vozes de Marco Ricca e Matheus Nachtergaele em seu elenco de dubladores, o filme, recém-finalizado, incorpora em sua trama, cheia de metalinguagem, uma crise pessoal de seu próprio autor, Otto, reproduzindo um drama pessoal do sexagenário cineasta: sua luta contra um câncer. 

O diretor de “Wood & Stock: Sexo, orégano e rock’n’roll” (2006) venceu, mas sofreu no processo, como se vê neste trabalho, que aborda, em tom documental, a peleja de Laerte Coutinho para se assumir trans e virar “a” Laerte. Estima-se que o longa estará entre os concorrentes do 46º Festival de Gramado, mas essa possível presença só será confirmada amanhã, quando o festival anuncia sua atrações. Nesta entrevista, Otto, considerado por muitos o maior animador brasileiro, na ativa desde os anos 1980 (com curtas seminais como “Novela” e “O Natal do burrinho”), fala de seu calvário para sobreviver a uma doença terminal e avalia a indústria animada no Brasil.

JORNAL DO BRASIL: O que mais te fascina no universo da Laerte e de que forma este ?lme dialoga com os teus longas anteriores, baseados nos quadrinhos de Adão Iturrusgarai e de Angeli?   

Otto Guerra: Los 3 Amigos, como esses cartunistas se chamam, beberam nas mesmas fontes que eu. Identificação ferrada entre nós, via Robert Crumb, Freak Brothers, Tintim, Bukowski, literatura beat, cinema etc. O universo desses caras é o mesmo pelo qual eu transito. Eu tinha que fazer comerciais para sobreviver e comprar equipamentos, daí talvez não tenha seguido na carreira de quadrinhos. Animação toma todo o tempo. Portanto, a identificação com o trabalho deles facilitou muito minha vida. Adaptar acaba sendo mais fácil do que criar universos complexos como é o caso do trabalho desses autores geniais, iconoclastas como eu. Eles dedicaram suas vidas a criar seus mundos em HQs incríveis.

Que outro grande cartunista nacional falta pra você adaptar? Algum em vista?  

Falta o Glauco. Mas como ele está morto, é complexo lidar com direitos autorais. Quando envolve família, os interesses se fragmentam. Agora, vou fazer um filme baseado num livro que escrevi chamado “Nem doeu”.

“A Cidade dos Piratas” espelha uma catarse sua, em sua luta contra o câncer. De que maneira a feitura desse desenho foi importante para a sua recuperação? Como foi a ideia de buscar um desenho metalinguístico na adaptação dos Piratas do Tietê, colocando sua própria história com a doença em foco?   

Muitas coisas aconteceram durante a pré-produção do “Piratas”. Em meio ao processo dele, eu fiz o longa “Até que a Sbórnia nos separe”, Laerte largou os personagens antigos incluindo os piratas que ele agora chama de “múmias machistas”, os quadrinhos dele mudaram de forma radical, ficando mais herméticos, profundos, existencialistas, mas sem perder a graça. E ele se assumiu trans na vida real: agora é ela. Pra completar, tive esse diagnóstico de câncer, e já em estado avançado, em metástase. Eu ia morrer e isso foi também bem determinante para que eu não fizesse mais concessões. Voltei a ser primitivo, como era quando fazia minhas histórias autorais lá em meados dos anos 1980. Isso gerou conflitos com a equipe. Mas como eu era um moribundo, acabaram por concordar com minhas ideias para adaptar aos novos tempos o roteiro, que havia sido escrito e reescrito umas dez vezes, por vários roteiristas de peso, como Tomás Creus, Rodrigo John, Juliana Rojas, Moisés Westfhallen, Pedro Harres, Grace Luzzi... Foi tudo jogado no lixo e refizemos. Sugeri algo como Cinema Marginal animado. Rodrigo John foi quem atualizou a parada de escrever a versão do roteiro que foi finalizada agora. 

Como está sua saúde hoje, depois do ?lme? 100% curado? 

Havia um novo medicamento que me salvou. Fiz duas cirurgias ferradas e, a princípio, estou curado já tem anos. O câncer pode voltar, mas, segundo os médicos, a cepa desse tumor não é mais mortal, como era alguns anos atrás. Sorte no azar. Voltei a beber, mas não como antes. Fiz 60 anos. Isso muda a perspectiva de certa forma. Sou um idoso. Essa nova geração de idosos da qual faço parte vai dar o que falar.  

Quando esse projeto começou e o que demorou para a sua conclusão? Quais são os próximos passos para o ?lme (já con?rmado pelo Festival de Vitória, em setembro)? Gramado?

A ideia de adaptar Los Três Amigos é de 1993, quando Adão foi morar em São Paulo e virou o quarto amigo. Conheci meus ídolos pessoalmente e, já naquela época, registrei na biblioteca nacional os nomes e argumentos dos longas do Angeli e da Laerte. Estava em plena produção do “Rocky & Hudson, os caubóis gays”, meu primeiro longa, de 1994, com base nas tiras do Adão. Isso levou então uns 20 e tantos anos. Como não fiz concessões, o resultado foi um filme marginal. Uma novidade completa pra mim. Por isso o futuro desse meu novo desenho é imprevisível.

De que maneira “A Cidade dos Piratas” contribui para a discussão das identidade sexuais inerente ao trabalho da Laerte? 

Laerte virou uma celebridade no Brasil depois que passou a se vestir como uma mulher. Ele antecipou em 20 anos essa sua mudança num personagem seu, Hugo, que virou Muriel em plena “Folha de S. Paulo”, nos anos 90. Essa mudança precisava vir para o filme e resolvi trazer para o centro da história do longa essa épica questão de gênero que sempre foi um tabu. Creio que tratar disso é jogar alguma luz na parada.

Em 2017, Gramado te deu o Troféu Eduardo Abelin, prêmio especial con?ado a diretores autorais, o que comprova seu lugar como um nome de resistência no cinema de animação do Brasil. Você é o mais importante dos diretores que mantiveram o setor em atividade no país, dos anos 1980 para cá. Como você avalia a atual situação da animação no país? 

Nunca imaginei viver uma época como essa, nem nos meus sonhos mais extravagantes. Temos 25 longas de animação em andamento, inúmeras séries, curta, clipes etc. Tive a sorte de não ter como objetivo, nos anos 1970 e 80, ganhar dinheiro: queria fazer ficção e usava a grana dos comerciais pra viabilizar isso. Essa foi a minha grande diferença no setor: produzo filmes de ficção há mais de 40 anos. Hoje tem estúdios produzindo séries importantes. Pena que nossas políticas culturais estão seriamente ameaçadas pelo golpe da direita. Sabemos que cultura não interessa a eles. O ex-presidente americano Ronald Reagan, num acesso de sinceridade, disse uma vez: “Por que vamos dar cultura se depois não vão votar em nós?". O Brasil capotou. Voltamos a ser uma república bananeira. Hoje, o trabalho de animação que considero mais importante, neste momento, é o longa “A arca de Noé”, dos Irmãos Gulane. É um filme grandão. 

Há alguma fragilidade que você aponta no cinema nacional de animação hoje? 

Estão usando animadores pra fazer direção de arte, o que é uma pena, pois os animadores, de certa forma, apenas reproduzem o que a Disney, Pixar, Dreamworks fazem. Perdemos a exuberância de nossos diretores de arte. O Brasil tem milhares de criadores e uma rica cultura visual. Copiar a Disney é muita idiotice, é apenas querer ganhar grana. E acho bem difícil chegar aos pés do que aquela grande indústria faz. Só os japoneses conseguiram chegar lá, creio que pelo fato de eles animarem dentro de um estilo próprio e poderoso, o mangá.

Que animadores brasileiros mais te entusiasmam hoje?  

Meu herói hoje no setor é o Juliano Enrico, meu ex-aluno, lá de Vitória, Espírito Santo, que faz a série “O irmão de Jorel”, com conteúdo e direção de arte geniais. Ele superou o mestre. Lá de Minas, Sávio Leite tem filmes que amo. Nara Normande e Érica Maradona são a nova e incrível geração de mulheres na animação brasileira. Nara, lá em Annecy (cidade dos alpes franceses que sedia o maior festival de animação do mundo, realizado em junho) soltou um “Lula livre” no palco (ao apresentar o curta “Guaxuma”, já confirmado por Gramado e pelo Anima Mundi, a ser realizado no fim do mês no Rio) e lavou minha alma. 

O que ainda te anima... a animar? 

Não animo mais há tempos. Passei a dirigir, produzir, sugerir argumentos e me meter nos roteiros, escolhendo diretores de arte e, principalmente, fazendo vozes de personagens na dublagem. Funciono como um maestro, como disse uma amiga. Chamo os músicos, apenas. Gosto disso. Gosto de ver o caldo todo funcionando.

Qual é a maior di?culdade de se manter um estúdio de animação hoje no Brasil? Quantas pessoas trabalham com você hoje, em seu estúdio, o Otto Desenhos, em Porto Alegre? 

Fixo na produtora, temos onze pessoas. Contratamos animadores e empresas prestadoras de fora quando tem muito trabalho, como agora, em que estamos fazendo a série “Rocky & Hudson”, dirigida pela Érica Maradona, para o Canal Brasil, além de mais dois curtas. E estamos desenvolvendo outros cinco projetos do núcleo criativo Zigótto. Para quem viveu o mundo analógico, onde tudo era pesado e caro, custoso mesmo, a animação hoje é canja de galinha, como se chamam coisas fáceis aqui no Sul. O mais difícil é encontrar bons produtores. Nesse aspecto tenho dado sorte. O estúdio resiste bravamente. 

* Roteirista e presidente da Associação de Críticos de Cinema do Rio de Janeiro (ACCRJ)