Angélica Freitas canta para atormentar

Celebrada poeta lê e canta poemas inéditos com Juliana Perdigão hoje em Botafogo

Uma das mais célebres e populares poetas brasileiras do século, Angélica Freitas está no Rio para uma performance hoje, às 20h, em Botafogo. Ela lê e canta ao lado da namorada, a compositora, musicista e cantora mineira Juliana Perdigão. Esta é a primeira exibição da dupla no Rio e acontece promovida pela Subcena, sessão mensal que aproxima música improvisada e poesia na Audio Rebel. Angélica tem dois livros publicados: “Rilke shake” (Cosac Naify/2007), atualmente esgotado, e "Um útero é do tamanho de um punho”, de 2012, que a Companhia das Letras reeditou em setembro do ano passado e que já esgotou a primeira impressão de 3 mil exemplares. 

No Rio, Angélica apresentará poemas inéditos. O humor e a ironia que caracterizam sua obra permanecem, assim como reflexões sobre a condição da mulher. Na entrevista abaixo, ela fala, entre outra coisas, sobre o que a move: a raiva.

JORNAL DO BRASIL: Questões que você aborda muito diretamente em seu último livro, como a imposição de padrões a mulheres, ganharam muita atenção nos últimos anos. Como você vê o crescimento do feminismo? 

Angélica Freitas: Acho que demorou. Demorou, mas aconteceu. As mulheres começaram a se dar conta de atitudes, muitas vezes de amigos ou parentes, que antes todo mundo aceitava ou não levava a sério. Vimos que estavam erradas e começamos a não tolerar mais. E começamos a não tolerar com força, o que acho natural. Imagina se dar conta de que você sofre não sei quantos mil anos de opressão? Isso para mim explica a raiva e violência com que algumas coisas acontecem, principalmente na internet. Não tinha como ser  diferente.  É muito tempo aguentando merda, a mulherada está com raiva. E não acho que adiante alguma coisa pedir calma ou questionar se a vítima tem sempre razão. É hora de tentar entender por que isso está acontecendo e ouvir.

Foi também isso o que a levou a escrever tanto sobre a condição da mulher?

Quando escrevi “Um útero é do tamanho de um punho”, eu tinha raiva das mulheres. Pensava: como é que vocês toleram essas coisas? Como aguentam esses caras, como deixam as coisas serem assim? Em parte, foi por isso que escrevi esse livro. Porque cresci achando uma merda ser mulher; uma merda, um azar. Não achava que houvesse nada positivo em ser mulher, ao contrário de algumas pessoas que falam na “força da mulher” ou “na força da menstruação”. Que trevas, grande porcaria.

Sua obra costuma ser muito associada à ironia.  Essa lhe parece uma estratégia particularmente e?caz para exprimir raiva?

Não sei. Há várias maneiras de expressar raiva. A ironia é uma forma de contê-la e destilá-la aos poucos. Mas já me perguntaram várias vezes sobre o uso do humor e da ironia em meus poemas. Hoje em dia, que estou mais velha, eu digo: escrevo assim porque gosto de escrever assim. Sempre escrevi de forma meio irônica, assim como sempre fui irônica, desde muito nova. É uma maneira de estar no mundo. Há poemas que não têm nada disso, mas sempre associei o impulso de escrever poesia a ironizar algo. Não tenho vontade de escrever sobre a beleza das coisas, sobre andar na praia ou viver um momento bonito. Isso não me interessa.

Seis anos se passaram desde seu último livro de poemas. O que explica esse intervalo? 

Não achei que tivesse que publicar nada. Mostro novos poemas nas performances que tenho feito e também em uns zines que produzo, que são uma maneira legal de divulgar. Nessas publicações, apesar de ser um público pequeno, há um contato muito direto com as pessoas. É  legal, porque você vê na cara delas se o poema funcionou ou não. Eu planejava fazer um livro este ano, mas decidi que não e deixei para 2019. Mas, de repente, daqui a dois anos publico outro.

O que tem escrito? 

Há uma série muito recente, que comecei em novembro de 2016 e ainda não terminei, que se chama “Canções de atormentar”. Se meu próximo livro incluir as performances, talvez tenha esse título. São poemas sobre sereias, o  canto delas, mas pulando a parte da sedução e indo direto para a intenção de destruir mesmo.  Não tenho muita simpatia com o personagem de Ulisses, o acho espertinho demais, não compro a ideia de que precisava demorar dez anos para voltar para casa. As sereias são seres que usam a ideia do feminino, da mulher, para dizer que uma mulher pode te destruir. Com essa série, quero dizer que as mulheres têm mais é que afundar navio.

E o que mais? 

Há outra série chamada “Coisas que voam”. Eu tenho uma técnica ou um hábito de escrita em que vou tirando um poema de outro e aí vira uma série, ao invés de ser um só. Aí fiz uma poema sobre o “helicoca”, o helicóptero com cocaína do Zezé Perrella.  Depois fiz mais um poema sobre aquele padre que se amarrou em não sei quantos balões de hélio e desapareceu, uma história que me dá pena, porque ele queria fazer uma coisa legal que deu muito errado. Tenho também dois poemas sobre Santos Dumont e dois sobre a Laika.

Como é a performance? 

De uns dez anos para cá comecei a pensar na poesia como performance. A Ju é cantora e  tem uma relação bem diferente com o público, o mundo dela é se apresentar, então, com a convivência, tomei um pouco mais de coragem. Toco violão desde pequena, mas não pensava em me apresentar. Eu faço a voz, declamo, canto e toco guitarra, e ela toca várias instrumentos e canta comigo.  

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Serviço 

Subcena - Angélica Freitas e Juliana Perdigão. Audio Rebel (Rua Visconde Silva 55 - Botafogo. Tel. 3435-2692). Hoje, às 20h. R$ 20.