Semana da Alta Costura de Paris: entre autorreferências e Lacan

Coquetéis em jardins ensolarados, convidadas caindo nos paetês, sol até na hora dos desfiles das 20h30: é a semana da Alta Costura de Paris, que se encerrou na quinta-feira, com um desfile de joalheria. Para quem sempre aposta no fim destas coleções de luxo, vale conferir que atualmente há 38 apresentações - ok, são 36 grifes, já que Chanel e Giorgio Armani fizeram dois desfiles, para atender ao grande número de convidados.

Lugares e autorreferências

Nesta edição, a preocupação com detalhes típicos da moda, como cores e cortes deu lugar a referências com lugares e cidades. Se Karl Lagerfeld homenageou Paris, onde chegou da Alemanha aos 18 anos, em Yamima a musa foi a Rússia, principalmente Catarina, a Grande. Yumi Katsura celebrou os 160 anos de amizade entre França e Japão, se inspirou na arte de Gustav Klimt (que reproduzia quimonos nas obras), Maria Mucha e Emile Gallé (dois ícones da Art Nouveau).

Outra fonte de criação foi o próprio currículo. Como fez a dupla Viktor & Rolf, que mostrou uma bela série de modelos brancos, quase angelicais, para comemorar 25 anos de trabalho. Ao mesmo tempo, há uma retrospectiva no Kunsthall de Roterdã, na Holanda, país natal de Viktor Horsting e Rolf Snoeren.

E em matéria de auto-referência, seria impossível competir com o que John Galliano fez para a Maison Margiela. Lembrando a coleção que assinou para a Dior em 2002, em que se inspirava nos sem-teto, mostrou roupas com aberturas, saias vestidas ao contrário, muito velcro em lugar de botões. “Atualmente, somos todos nômades, as ruas continuam sendo fontes muito importantes de criação”, comentou em uma coletiva. A inglesa Claire Waight, reverenciada pelos patrícios ingleses depois de produzir o vestido de Meghan Markle, quando se casou com o príncipe Harry, focou na obra de Hubert de Givenchy, autor original da Givenchy.

Luxo e conceito

Giambattista Valli apostou no luxo: pelo menos, no modelo com o apoio da Swarovski, onde brilhavam mais de três mil cristais. Em lugar de tanto brilho, Pier Paolo Piccioli cobriu com longas capas e quimonos seus looks de calças, saias douradas e bordados figurativos, ao som de árias de ópera no Hotel Salomon de Rothschild. Um show de estilo, simples nos modelos quase todos com bolsos e nos penteados variando de rabos-de-cavalo a suntuosos apliques à la leonne, como se usava nos anos 1960. Na plateia, o próprio Valentino Garavani, emocionado.

E um destaque conceitual, além de John Galliano, tem que ir para Maria Grazia Chiuri, que recorreu às definições de Alison Bancroft, autora do livro “Psychoanalyses and fashion”. Ela associa, em sentido lacaniano, “a alta costura a um modo de expressão dos movimentos de vanguarda, reapropriação de práticas seculares rejeitadas pelo desejo de novidade e a reinterpretação da tradição por meio de valores contemporâneos”. 

Mais do que um dos suntuosos vestidos da Alta Costura, o livro da Alison Bancroft é indispensável para quem curte moda como arte além dos cabides e desfies.