Instalação de Hélio Oiticica serve de passarela para performances em galeria recém-aberta

Pela primeira vez no foco central de uma exposição de Hélio Oiticica (1937-1980) no Brasil, a instalação “Rodhislandia” também é a pista de decolagem do Studio OM.Art, galeria montada pela artista e empresário Oskar Metsavaht na Vila Portugal – cluster de arte do Jockey Clube Brasileiro, que também reúne Carpintaria, Casa Camolese e Clube Manouche.

Em atividade desde maio, a galeria recebe neste sábado o cenógrafo e artista plástico Ayrson Heráclito, seguindo a linha proposta, de espaço multidisciplinar de arte. Um banho de pipoca será o mote de sua apresentação, com participação interativa do público, conforme a ideia pensada por Oiticica em 1971, quando inaugurou a instalação “Penetrável” – com grande área interna – na Universidade de Rhode Island (EUA) – o nome da obra refere-se a esse estado americano. 

Ayrson Heráclito vai apresentar “Buruburu” que, em iorubá – dialeto/idioma africano até hoje bastante falado na Nigéria e adjacências –, significa “pipoca”: “Vou ficar por um tempo bem prolongado dentro da instalação e convidar as pessoas que quiserem para dar nelas um banho de pipoca espiritual, de forma ritualizada conforme feito no candomblé e na umbanda”, explica. “A pipoca é como as flores brancas do velho Omolu, divindade da cura e da doença. Ele tinha chagas que eram transformadas em flores brancas, os quais a pipoca representa e, por isso, ela é um elemento importante para fazer limpeza espiritual”, detalha o artista, que já mostrou a performance em Frankfurt, na Alemanha; e na Ucla, Universidade da Califórnia, em Los Angeles (EUA). “Começo às 15h e vou até acabarem as pipocas; deve ter uns seis quilos”, completa.

A performance desse baiano de 50 anos, da cidade de Macaúbas, será registrada em vídeo, como parte do ciclo pelo qual passou a paraense Berna Reale e seguirá com Luciana Magno, no próximo dia 21, e o coletivo Opavivará, fechando a exposição de “Rhodislandia” em 4 de agosto. 

De acordo com Oskar Metsavaht, ela foi escolhida para inaugurar o espaço “porque representa plenamente o propósito do espaço: a multidisciplinaridade e a transversalidade da arte em várias plataformas. Oiticica propôs com este seu penetrável uma união de diversas formas de arte, de diferentes plataformas, aberta a performances. Vamos resgatar a proposta original de agregar à obra outros artistas e público com performances interativas”. 

O ambiente penetrável é de sala, com a parte interna marcada por espécies de lençóis como os parangolés – panos coloridos bem finos criados por Oiticica no final da década de 1960 para serem vestidos, como capas ,por participantes de atividades culturais, cujo sentido artístico seria seu movimento acompanhando o de quem os vestisse, ao dançar, andar etc.. 

Na Rhodislandia, eles ficam parados, mas ela vai além do conceito inicial dos parangolés. “É uma obra que dá um passo adiante na ideia de criação coletiva e multimídia. É o encontro da música, da poesia, do teatro e das artes plásticas. Foram cerca de 160 metros corridos de nylon na cor branca, mesmo material utilizado pelo Hélio na montagem original. É uma obra muito simples em materiais, mas realmente genial na arquitetura proposta, que leva o espectador à experiência de pertencimento à obra”, explica Cesar Oiticica Filho, sobrinho de Hélio e curador da mostra. 

Depois de 4 de agosto, quando se encerram a mostra da instalação de Hélio Oiticica com performances, o Studio OM.art planeja dar sequência com uma exposição “tradicional”, como de quadros, fotos ou esculturas. “A próxima será no ‘formato tradicional’. Ainda não podemos falar sobre ela porque não está 100% fechada”, diz Oskar, afirmando, porém, que a interatividade e a multidisciplinaridade não ficarão de fora da galeria. “ proposta do studio OM.art é receber todos tipos, formatos e plataformas artísticas. Possivelmente teremos outras exposições com caráter semelhante à Rhodislandia”. 

Cercada pelo muro do Jockey e pelas grades do Jardim Botânico em quase 1 km, a concentração de casas artísticas tem criado o próprio movimento em um local que, à exceção desses megaespaços, sempre fora mais um ponto de passagem de veículos. “A proposta da Vila Portugal é justamente ser um cluster de arte e cultura para aumentarmos o fluxo e a visitação da área. Com todos em pleno funcionamento, temos notado o grande aumento deste fluxo, principalmente na ‘troca’ de visitantes, sejam estrangeiros ou brasileiros, entre o Jardim Botânico e a Vila Portugal e vice-versa”, afirma Oskar, que permanece como diretor de criação e estilo da grife Osklen, paralelamente à administração da galeria e de outras atividades em artes plásticas e fotografia.

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SERVIÇO

‘Hélio Oiticica: Rhodislandia’ Studio OM.art Rua Jardim Botânico 997, Jockey Club Brasileiro; Tel.: 2239-9019. Até 4/8. Terça a sexta, de 11h a 20h; sábado, de 11h a 22h. Entrada franca. www.om.art.br. Curadoria: Cesar Oiticica Filho.