Filme polêmico do momento, ‘Canastra suja’ volta ao circuito com debate no Cine Joia

Ao sair de cartaz prematuramente, há uma semana, por falta de espaço em circuito, “Canastra suja”, longa-metragem em que o ex-casal Adriana Esteves e Marco Ricca chefiam uma família em coma moral, foi alvo de uma apaixonada campanha nas redes sociais que pôs em xeque a distribuição de filmes no país. Cinéfilos de toda a cidade, inclusive críticos de sites e jornais, reclamaram da crise do circuito carioca em relação ao espaço para pequenas produções de tom autoral, por vezes premiadas no exterior, mas tornadas invisíveis aqui por falta de espaço em tela. 

Falava-se ainda de censura velada: filme mais controverso do ano, por sua visão áspera da formação familiar, a produção dividiu opiniões por seu olhar trágico da periferia, expresso em uma narrativa tensa, incomum aos padrões bem-comportados da fotografia nacional. O berreiro foi tão alto que o filme, dirigido pelo paulista Caio Sóh, voltou, ainda que numa só sessão por dia, às 20h30, no Cine Joia, em Copacabana. Hoje, lá, vai ter debate com o elenco e integrantes da Associação de Críticos de Cinema do Rio de Janeiro (ACCRJ). 

Com um time estelar de atores, com destaque para o desempenho de Bianca Bin e Pedro Nercessian como os filhos de Adriana e Ricca, “Canastra suja” usa cartas de baralho como metáfora para os jogos de representação cotidianos que disfarçam traições e abusos em um ambiente familiar no qual o patriarca está em guerra com o alcoolismo. No Facebook, o diretor Luiz Rosemberg Filho, um mestre da estética combativa dos anos 1970, aclamado pelos cults “A$$untina das Amérikas” (1975) e “Guerra do Paraguay” (2015), definiu o filme como “uma aula de cinema, de direção e de Brasil”. “O filme ‘Canastra suja’ é, na verdade’ limpo e transparente. A sujeira fica por conta do país”, disse o cineasta. 

Na página semanal de críticas do JB, o longa foi elogiadíssimo na resenha de Frank Carbone. “’Canastra suja’ é um filme que aborda a típica família esquecida brasileira (nem os ricos nem os miseráveis, a de classe média baixa) com importância e tridimensionalidade; não há heróis ou vilões, mas um excesso de amor pelo escopo construído, e um medo descomunal de perdê-lo - daí fazer tudo pelas apostas, e perder sempre no fim, qualquer que seja a mão do jogo”, define Carbone, que integra a ACCRJ. 

Hoje com 39 anos, preparando-se para rodar uma releitura de Shakespeare chamado “Otela”, Sóh vê com alegria a mobilização em torno da permanência de “Canastra suja” em cartaz. Egresso do teatro, com experiência na música como compositor (em 2008, formou com Maria Gadú o movimento Varandistas) e com um trabalho reconhecido nas artes plásticas, como escultor, ele dirigiu longas como “Teus olhos meus” (2011), “Minutos atrás” (2013) e o premiadíssimo “Por trás do Céu” (2017), ambientados em cenários distintos, com temáticas variadas. Vai da fabulação ao realismo, de Fellini a Tchekhov. Nesta entrevista, ele fala sobre suas buscas estéticas no cinema e da importância de ver um longa na sala de exibição.

Que Brasil você retrata em “Canastra suja”?

Caio Sóh: Em todos os meus filmes, emprego o Brasil mais como uma vista do que como um denso retrato de um povo. Tento arquitetar conflitos que poderiam se sobrevir em qualquer atmosfera. Eles têm mais um reflexo da natureza humana do que da sociedade. Penso que sonhos, decepções, angústias, prazeres acabam em uma região muito mais íntima, reservada de cada um, mas comum a todos os cidadãos do mundo. Já escrevi peça que se passava na seca do sertão e foi adaptada no México para uma mina de carvão. Desde cedo, resido como um existencialista, mais interessado na realidade individual mundana, do que social.

Qual é a noção de família que o filme tenta expor e de que forma ele dialoga com a noção das novas formações familiares? 

A família já é naturalmente relacionada a uma relação de amor na ancestralidade. E é esse o ponto tradicional em que o filme a planta. Perdão, raiva, traição são sentimentos que, em família, tem uma estima completamente diferente que nas outras relações sociais. Apanhar do irmão é menos hostil que ser desrespeitado pelo moço que vende o pão. Às vezes, basta uma festa de Natal para se resolver delinquências de uma família. Irmãos se odeiam e se protegem, claro que não é uma regra, pois o ser humano é bem louco, mas, quase como uma dívida divina de fidelidade, existe um respeito de serem armados pela mesma receita. Quanto à noção da nova formação de família, não me sinto competente para medir, mas acho que está sendo adaptada para uma relação mais atualizada, onde se faz prevalecer o valor de família na conexão da qualidade do afeto na prática, e não só nesse vínculo sanguíneo-ancestral. 

“Canastra suja” impressiona, de modo geral, por sua engenharia de filmagem. Como foi a construção de linguagem com o fotógrafo Azul Serra?

É o segundo filme que fazemos juntos. Passamos antes dois meses no sertão filmando “Por trás do Céu”. O ponto principal, por nós sermos muito amigos, é a intimidade que temos de diálogo. Isso interfere redondamente na liberdade de criação em conjunto. O Azul, durante a filmagem do Canastra, hospedou-se na minha casa para que tivéssemos um processo de criação e, principalmente, desconstrução, a cada dia de filmagem. Acordávamos e, já no café, começávamos a evoluir tudo que tínhamos pensado na noite anterior. Reciclávamos as ideias 24 horas por dia. Nada estava estagnado e isso é o que nos inspirava. Um se alimentava da transformação do outro. E a mesma coisa acontecia quando voltávamos do set de filmagem. Assistíamos todos os dias trechos do material filmado para poder avançar ainda mais na linguagem que estávamos buscando. Já no roteiro eu pensava em um olhar mexido de câmera. Aí, o Azul veio com a ideia de usarmos apenas uma lente o filme todo, para estancar mais ainda a família na casa. Com isso, fiz a direção de movimentação dos atores, já incorporando neles próprios, o sentimento de zoom quando necessário, através da aproximação deles mesmos em direção à câmera. Era um balé em conjunto de atores e fotografia, bem artesanal. Como o Azul opera a câmera, confiava as cenas de olhos fechados a ele. 

O seu cinema é, hoje, um exemplo recente de diversidade, dialogando com as mais variadas linhas temáticas. Qual você acha que é a essência da tua filmografia? 

Por mais que eu tenha uma variação de linguagem e temas, o fato de eu escrever as histórias, acaba sempre mantendo uma mesma essência artística. Ela nunca foge da importância do ator e dos diálogos. Isso vem muito do teatro. Faço o filme com pouco recurso, pois já vim do estudo do Teatro Pobre de Grotowski. Qualquer lugar pode ser um cenário, se o personagem tiver seu conflito e o que manifestar de si. Tenho uma tendência à verborragia, pois vejo palavras até no susto. Eu as coloco e depois as tiro lentamente, para dar lugar à imagem. Naturalmente, tudo me leva à forma como observo a lástima humana. Se o personagem rouba, não tento achar o “porquê” de ele fazer isso, mas sim, o que ele sente quanto ataca. Os sentimentos são mais o que há de presente. No “Canastra suja”, não tem uma gota de sangue ou uma arma, mas tem uma selvageria de emoções. Como artista, seja no cinema ou nas artes plásticas, onde trabalho como escultor, não tenho o menor problema com o que eu já fiz. Eu tenho um grande prazer de errar sem querer. Vejo sempre arte no acidente. O acaso me ajuda em 70% da obra e é ele que examino e chamo de inspiração. 

*Roteirista e presidente da Associação de Críticos do Cinema do Rio de Janeiro (ACCRJ)