Único pianista que gravou com Jacob do Bandolim abre ciclo de homenagens

Um ano cujo legado não terminou e segue rendendo novos arranjos e melodias, solos e improvisos. Em 19 de fevereiro de 1968, em frente à Praça Tiradentes, Jacob do Bandolim, aos 50 anos, subia ao palco do Teatro João Caetano com seu conjunto Época de Ouro e o reforço especial do Zimbo Trio para acompanhar a cantora Elizeth Cardoso, então com 48 de idade. 

Em show dirigido por Hermínio Bello de Carvalho, o encontro transformou-se em um dos discos ao vivo mais celebrados do país, lançado em LP ao vivo. Além disso, confluiu duas correntes distintas da MPB, ao combinar o revivalismo do Época de Ouro e seu choro com a formação bossanovista do trio e seu samba-jazz. 

Parte dessa história abre, na quarta-feira, um dos dois novos ciclos de séries musicais no Espaço BNDES, com um dos participantes daquela noite de 1968. 

“Só depois daquele show e do lançamento do disco é que eu vim a saber que fui o único pianista com quem o Jacob gravou”, admira-se Amilton Godoy. Hoje, aos 77 anos, ele era um garoto de 27 que comandava as teclas do Zimbo Trio, ao lado do contrabaixista Luís Chaves e do baterista Rubinho Barsotti. “Aquele show foi tão antológico porque reuniu a corrente dos regionais, representada pelo Época de Ouro, e nós, que trazíamos a moderna música brasileira: o samba-jazz, em que tocávamos com improvisos jazzísticos, mas sobre músicas brasileiras, já sem depender dos standards americanos”, lembra. 

No primeiro show das Quartas Instrumentais em homenagem a músicos icônicos, é o pianista que encabeça o trio que celebra Jacob do Bandolim (1918-1969), com mais um improviso: um dos músicos – Gabriel Grossi, 38 – toca gaita, instrumento que não faz parte das formações tradicionais de choro e nem de Bossa Nova ou samba-jazz. 

O trio é completado por um instrumentista mais novo do que Godoy era em 1968. Um veterano aos 26 anos, Fábio Perón já foi comparado com outro Hamilton – com H, o de Hollanda – e comanda o instrumento de Jacob no palco do BNDES. 

“Estamos fazendo este show em homenagem aos cem anos do Jacob por antecipação, desde o ano passado, eu e esses garotos que têm grande virtuosismo e capacidade improviso”, atesta o pianista, que começa hoje novos ensaios para o show de quarta. “Ainda vamos definir o repertório”, afirma, adiantando, porém, que “Vibrações” e “Santa Morena” devem estar no set list. “E ‘Odeon’ – que é de um pianista, Ernesto Nazareth, e o Jacob regravou – deve voltar”, adianta.

Na sequência das Quartas Instrumentais, e da linhagem, quem toca na próxima semana, dia 11, é Antonio Rocha, atual flautista do Época de Ouro – sim, o grupo existe até hoje, com formação totalmente modificada, após diversas mudanças, mas com o mesmo propósito de preservar a tradição do choro. O músico, de 37 anos, percorrerá, em seu show, os caminhos da flauta brasileira, entre expoentes como Pixinguinha e Altamiro Carrilho.

Dorival Caymmi será o homenageado do dia 18, por Tutty Moreno (bateria), Rodolfo Stroeter (bateria), André Mehmari (piano) e Nailor Proveta (sopros). 

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Sambas em família

Na outra série, Quintas no BNDES, o ciclo será o de homenagem aos pais e filhos do samba. Quem abre a sequência, nesta quinta-feira, dia 5, é a cantora Beatriz Rabello. Filha de Paulinho da Viola, para quem fez backing vocals por dez anos, ela se apresenta com repertório baseado em seu álbum solo de estreia, “Bloco do amor”, lançado em 2016.

“É um trabalho que fala de amor e de Carnaval, em duas histórias se cruzando e que, assim, renderam um disco e em show – não necessariamente carnavalesco, mas que combina seus elementos”, resume a cantora, que levará ao palco músicas do álbum, como a faixa-título “Bloco do Amor”, do pai; “Sonho de um carnaval”, de Chico Buarque”; e “Nós os foliões”, de Sidney Miller, além de “Enredo do meu samba”, de Dona Ivone Jorge e Jorge Aragão. 

Beatriz se apresenta acompanhada pelo grupo Mulato Velho, com Flávio Santos (bateria) Felipe Tauil e Daniel Karin  (percussões), Dudu Oliveira (flauta, sax e demais sopros), Sidão Santos (baixo), Rogério Souza (violão de sete cordas) e Fernando Brandão (cavaquinho e direção musical). 

A sequência, no dia 12, é com o violonista Julião Pinheiro, filho  da cavaquinista Luciana Rabello e de Paulo César Pinheiro, um dos principais letristas da música brasileira nos últimos 50 anos. A base do show é “Pulsação”, disco lançado em 2015, depois de ser feito em família – Paulo César assina as letras de todas as  músicas, como “Artimanhas”, “Bamba com bamba”, “A revolta dos orixás” e o “Samba da estrela cadente”. Já Luciana assina a produção executiva e toca cavaquinho em 13 das 15 faixas – nas outras duas, a cavaquinista é Ana Rabello, irmã mais velha de Julião. 

Marquinhos Diniz, filho de Monarco e irmão de Mauro Diniz, canta, no dia 19, o repertório de “Meu samba”, seu primeiro álbum solo, lançado em 2012, como a faixa-título que ele compôs em parceria com Luiz Grande e Barbeirinho do Jacarezinho. No dia 26, o ciclo é fechado com o próprio Monarco, celebrando em família e com amigos os seus 85 anos.

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Serviço 

Espaço Cultural BNDES Avenida República do Chile, 100 - Centro, próximo à Estação Carioca do metrô; Tel.: 2052-6701. Quartas instrumentais e Quintas no BNDES todas as quartas e quintas, respectivamente, às 19h. Entrada franca, com ingressos retirados de 18h a 18h30 na bilheteria – eles podem ser reservados a cada semana, das 10h de segunda-feira às 14h do dia de cada show pelo site. Capacidade: 386 lugares.