Diretor André Ristum conquista público e crítica da Argentina com ‘A voz do silêncio’

Filme é estrelado por Marieta Severo

É comum o Brasil suspirar pelo bom cinema argentino, e até sentir uma pontinha de inveja deles, diante de filmes como “O cidadão ilustre” (2016), “Relatos selvagens” (2014) ou “O segredo dos seus olhos” (2009), porém, lá, entre nossos hermanos, neste momento, ocorre uma situação inversa: um longa-metragem brasileiro estrelado por Marieta Severo arrebata elogios deles. E, com isso, atrai o olho gordo de muito realizador em Buenos Aires. Definido pelo jornal “La Nación” como “um retrato pleno de emoções e poesia das relações humanas”, “A voz do silêncio”, drama dirigido por André Ristum (de “Meu país”), ainda inédito por estas bandas, anda lotando salas de exibição na capital da Argentina. Chegou até lá após uma aclamada passagem pelo Festival de Málaga, na Espanha, e vem conquistando atenções dos críticos e do público pela afinação de seu elenco em uma trama coroada por um eclipse lunar. A estreia aqui será apenas no segundo semestre. Ele estreou por lá primeiro por ter sido gestado em regime de coprodução com nossos vizinhos de América do Sul.

Nascido em Londres, em 1971  e radicado em São Paulo desde 1996, logo após ter sido um dos assistentes de direção do mito italiano Bernardo Bertolucci em “Beleza roubada”, Ristum alcança agora, lá fora, um prestígio que muito realizador brasileiro veterano sua a camisa para vislumbrar. Inspirado em experiências reais do diretor, “A voz do silêncio” executa uma cartografia das solidões de uma grande metrópole, a partir de pessoas anônimas, que vivem suas vidas em tensão, na luta pela sobrevivência, resignados com o próprio destino. Um eclipse pontua as mudanças nas rotinas dessas pessoas, que compõem um mosaico do Brasil urbano. Marieta vive Maria Claudia, uma mulher amargurada por escolhas pessoais infelizes. O elenco traz ainda Stephanie de Jongh, Marat Descartes, Arlindo Lopes, Marina Glezer, Claudio Jaborandy e Nicola Siri. Nesta entrevista, Ristum, premiado por filmes sempre ligados à questão da paternidade, como “O outro lado do Paraíso” (2014) e “De Glauber para Jirges” (2015), explica como chegou ao coração dos argentinos e o que foi buscar nas raias do folhetim.

JB: De que maneira “A voz do silêncio” aborda a questão da maternidade e de que maneira você, um cronista da paternidade, enfrenta o tema?  

André Ristum: A ausência da maternidade como tema, nos meus filmes, foi uma questão que me intrigou nos últimos anos. Claro que a paternidade tem uma relação direta e óbvia com minha vida, por eu ter perdido meu pai aos 12 anos. Mas a figura materna sempre foi de enorme importância, entre minha mãe e minha avó, duas pessoas fundamentais na minha formação. Entretanto, elas nunca tinham aparecido em meus roteiros. Agora, elas finalmente apareceram, e com bastante peso, nesse novo filme. Talvez a figura paterna, por ser algo menos presente na minha vida, tenha sido objetivo de busca nos filmes anteriores. Mas depois de algumas experiências, chegou a hora de encarar essas figuras maternas tão fortes e importantes na minha vida. Eu talvez conheça o tema da maternidade até melhor do que o da paternidade, e, por conta disto, brotou tudo de forma muito espontânea, em conexão com histórias intimas e pessoais. 

Como foi o desa?o de encarar frontalmente o universo feminino amparado no talento da Marieta?   

Crescer com mãe e irmã, depois ser cuidado pela avó, numa família com fortes raízes matriarcais, e, na sequência, viver um casamento que já dura quase dez anos, foram experiências que me proporcionaram um contato intenso e constante, ao longo dos anos, com o universo feminino. Tudo isso me deu as ferramentas para tomar contato cinematográfico com esse mundo. Mais do que isso, eu me aproximo deste universo através de histórias que têm uma conexão forte com minhas experiências de vida. Isso talvez tenha me proporcionado uma maior tranquilidade em mergulhar nesse universo. Marieta foi incrível ao enfrentar essa personagem dificílima, que, em tão pouco tempo, tem variações tão fortes. Ela traz elementos contraditórios das relações familiares de nossa sociedade, que nos marcam profundamente, principalmente num momento como o que estamos vivendo, em que se luta para mudar tantas tradições e hábitos tão profundamente enraizados.   

De que forma “A voz do silêncio” resvala na questão do melodrama? Estaria ele mais próximo do drama naturalista? 

  O melodrama sempre esteve presente, de alguma maneira, em meus trabalhos, mas acredito que, neste filme, o drama naturalista toma a dianteira a partir de histórias mais secas. Falo de pequenos dramas do cotidiano, sem nenhum grande acontecimento. Apenas pequenas mudanças acontecem no filme. Falo de sofrimentos corriqueiros e, eventualmente, de uma ou outra mudança mais significativa, mas que não chega a alterar profundamente o percurso do arco narrativo. 

A que você atribui esse sucesso na Argentina? Como é sua relação com o cinema de nossos hermanos? 

A repercussão na Argentina me surpreendeu não apenas pela boa recepção que o filme teve junto ao público, mas também pela receptividade da crítica, que, de maneira geral, avaliou bem o filme. Os críticos identificaram muitas das escolhas e conceitos que nortearam a realização do filme. Já a plateia teve uma conexão direta com a história dos personagens. Saindo da pré-estréia em Buenos Aires, uma produtora argentina que eu não conhecia me disse que tinha gostado muito e que achava o filme bem “tanguero”. Acho que isso deixou claro para mim o que fez ele funcionar por lá. O clima do filme tem muito a ver com o jeito de os argentinos encararem a vida. Tudo a ver com o tango. Sou um grande fã do cinema argentino. Sou fã de sua capacidade de contar histórias cheias de humanidade com estruturas narrativas complexas e pouco óbvias. Por isso, receber esse tipo de recepção deles é algo ainda mais significativo para mim.    

* Roteirista e presidente da Associação de Críticos de Cinema do Rio de Janeiro (ACCRJ)