Exposição individual de Tunga enfatiza desenhos, faceta menos conhecida do artista

Tunga entendia que a arte é feita da mesma matéria com que são feitos os sonhos. Em entrevista para a revista “Vice” de 2010, o artista apresentava um raciocínio básico para defender que qualquer pessoa pode fazer arte, se estiver atenta às atividades do próprio inconsciente. A prova disso, ele disse, “é muito simples. Todo mundo sonha. TODO mundo sonha. Isso aí é matemático. Todo mundo sonha e todo mundo opera esse processo simbólico diferente. Entretanto, 99 por cento das pessoas não dão a atenção merecida ao que acontece enquanto sonham”.

Fantasias atentas do artista, em obras produzidas entre 1974 e 2015, estão em exibição a partir de hoje no Museu de Arte do Rio (MAR), na exposição  “Tunga – O rigor da distração”. Com curadoria da crítica de arte Luisa Duarte e de Evandro Salles, diretor cultural do museu, a mostra, a primeira exposição individual do artista em 12 anos no Rio e a segunda grande retrospectiva desde a morte de Tunga aos 64 anos em 2016 (a outra aconteceu no Masp em 2017), reúne cerca de 200 obras, com ênfase em desenhos, mas incluindo também esculturas, filmes, fotografias e textos.

Segundo a curadora, Tunga pensava em si mesmo como um “clínico geral”: alguém que, ao invés de ser especialista em uma só modalidade, opera em diferentes práticas e ramos. “Ele tinha um programa poético que podia ser encarnado em diferentes linguagens. Era alguém que atuava em diferentes frentes e quisemos trazer isso para a exposição, tendo como eixo os desenhos, um lado menos conhecido de sua obra, geralmente associada a esculturas e grandes instalações”, ela diz.

O próprio artista diferenciava três tipos de desenho: aqueles que apresentam “o que você vê”, os que mostram o que “não você vê, mas quer que exista”, e, finalmente, o desenho que “só existe enquanto desenho”. A mostra, dizem os curadores, prioriza os dois últimos tipos — delineações e esboços para esculturas e instalações além de desenhos que só existem como tais (já os primeiros estariam mais próximos de representações de modelos).

Dentre os trabalhos em papel, que utilizam materiais como tinta caligráfica, grafite, monotipia, carvão e aguada, entre outros, há estudos para algumas das mais célebres obras do artista, a exemplo de “Les bijoux de Madame de Sade” (1983), a exuberante instalação (ou “instauração”, como o próprio Tunga definia) “True rouge”, de 1997, que foi a primeira obra de Inhotim, e “À luz de dois mundos”, obra contemporânea que foi exposta na Pirâmide do Louvre em 2005.

Os desenhos provêm principalmente do Instituto Tunga, fundado pelo filho, Antônio Mourão, para preservar o acervo do pai, com acréscimos de obras de coleções particulares e do próprio MAR. “O desenho fazia parte do pensamento dele. Ele desenhava muito, sobretudo à noite, sozinho. Pensava e começava a desenhar. Muitas vezes, os desenhos são linhas contínuas, sem interrupções. Quando havia eventuais acidentes, ele ia para frente, os incorporando à obra, sem apagá-los com borracha”, diz Antônio.

O título da exposição, diz Luisa, decorre de um desejo aparentemente paradoxal do artista: combinar o devaneio à exatidão: “Ele falava muito no rigor da distração e também na lógica do brincar. A distração está próxima do sonho e do inconsciente; o rigor, por sua vez, se refere a alguém que presta atenção, confere uma intenção à obra. Os conceitos de criatividade e de espontaneidade passam longe”, afirma a curadora. Evandro acrescenta que “o trabalho artístico de Tunga simultaneamente constrói um aparato formal e estrutural rígido e deixa aflorar um universo inconsciente e onírico. Ele equilibra o controle e o descontrole”.

Ambos ressaltam que o trabalho de Tunga tem uma dimensão autorreferencial muito forte, em que símbolos, figuras e temas aparecem recorrentemente, sob diferentes encarnações. O próprio artista afirmou em entrevista de 1997 que “o trabalho é um conjunto de trabalhos: um leva ao outro, como se entre eles existisse um ímã”. Dentre estas permanências mutantes, a noção de alquimia é uma das que mais o notabilizaram.

Para embasar esta noção de transformação da matéria, Tunga lia antigos livros de alquimia, o que Luisa resume como sendo a ideia de que “unindo duas coisas diferentes, elas levarão a um terceiro elemento, ainda inexistente”. A este respeito, Tunga certa vez disse que “fazer arte não era outra coisa senão juntar coisas. Mas juntar coisas, todo mundo junta. Então não é só juntar coisas, mas fazer com que, ao juntá-las, apareçam coisas que nos surpreendam”.

Este ímpeto de “juntar coisas” está presente nas séries “Morfológicas” e “From la voie humide” (“A partir da via úmida”, em tradução livre), produções do final da vida do artista, presentes na exposição. As instalações incluem tubos de ensaio, vasos, urina, metais, órgãos sexuais, colheres e outros.

As duas séries também retomam o tema do erotismo, questão central na obra. Sobre o assunto, o crítico de arte Paulo Sérgio Duarte (pai da curadora e, assim como ela, amigo do artista) escreveu: “A obra do Tunga é, do início ao fim, na sua maior parte, erótica. Bataille já estava lá dentro desde o início, o erotismo, primeiro por Freud e logo Bataille”. Na exposição, o tema também surge em desenhos de orgias impossíveis e em cópulas entre criaturas peludas e alegres. As obras mais explícitas ficaram reservadas a um corredor.

Há ainda um grande interesse no tema do duplo, o que remete à própria história de Tunga, que era filho de uma mulher gêmea. O tema aparece na exposição por exemplo nas fotografias de “Xifópagas capilares”, performance exibida pela primeira vez em 1984. Duas adolescentes louras, com vestidos iguais, eram unidas por uma vasta cabeleira e percorriam o espaço de mãos dadas. O tema retorna também em ilustrações familiares e algo perturbadoras de lagartixas de cabeças e rabos duplicados.

A mostra apresenta ainda entrevistas com o artista e o curta “Nervo de prata”, realizado em parceria com Arthur Omar, em 1987. Os textos ficcionais, definidos pelos curadores como “muito importantes” para iluminar a poética do artista, estão ao lado de trechos de entrevistas, que dão boa noção de seu pensamento. Em um deles, Tunga disse: “Eu não tenho o sonho que quero, assim como não faço o poema que quero. Mas é preciso, ainda assim, estar à disposição do sonho e do poema, ou, do contrário, estaremos nos instalando nos mecanismos de recalque”. 

SERVIÇO

Museu de Arte do Rio (MAR) - Praça Mauá, 5 - Centro; Tel.: 3031-2741. Ter. a dom., das 10h às 17h. Abertura hoje ao público, às 16h.  Até 1/11. R$ 20. Classificação: Livre.