João Bosco lança hoje primeiro álbum de inéditas em nove anos, com diferentes parceiros

João Bosco atende ao Caderno B animado em relação à Seleção Brasileira que dali a uma hora e meia enfrentaria a Sérvia pela rodada final da 1ª Fase da Copa do Mundo, na Rússia. “Já começou bom. Aquele que destruiu nossas técnicas futebolísticas, a Alemanha, já foi embora”, comemora, antes de ver seu otimismo confirmado pela vitória de 2 a 0 do Brasil, com os gols de Paulinho e Thiago Silva.

Sobre “nossas técnicas futebolísticas”, o cantor, compositor e violonista remete “àquele futebol que a gente que chamar de artístico, que se assemelha à intuição do artista”,  comparando a condução da bola ao da voz e dos instrumentos. “Apesar das táticas treinadas e tudo, nosso futebol se baseia nas qualidades de improvisar, como fazem os músicos jazzistas com arranjos não dantes estudados. É aquele lá das décadas de 1950, 1960, que voltou em 1982 e 1986. Depois, nós andamos um pouco sem ele, tivemos uma fase um pouco mais truculenta, de jogadas menos estruturadas e o objetivo fundamental de ganhar”.

Em seguida, ele pondera. “Sempre se quer, claro, mas, vai ver, somos tão sofisticados que ganhamos e não nos convencemos. Agora, essa seleção tem trabalhado para ir de encontro a esse resgate desde futebol arte, moleque, criativo, que tem as táticas, mas no qual se sobressaem os valores individuais, como Neymar, Phillipe Coutinho, Gabriel Jesus, Douglas Costa… jogadores, às vezes, irregulares, mas de grande personalidade”.

Dando sequência a sua resenha, o músico cita a Argentina para ressaltar que “ninguém está escapando da irregularidade” e justifica o empate do primeiro jogo, com a Suíça, pela “estreia, que sempre dá um frio no estômago. Na hora que deslanchar, todo o peso nas costas fica mais leve, dá lugar a algo mais leve e solta”.

A mesma coisa acontece no palco, afirma João Bosco, nascido em uma família de origem libanesa em Ponte Nova (MG) e que completa 72 anos em 13 de julho. Torcedor do Flamengo, apesar de ser mineiro, ele se coloca como parte da tradição intuitiva que atribui tanto à música quanto ao futebol do Brasil. “Eu sou aquele cara que estudou sozinho, porque não frequentei nenhuma escola de música. Não sou um músico que possa ler partituras, porque não aprendi e já fiquei inquieto quando estava estudando Engenharia em Ouro Preto [na universidade federal da histórica cidade mineira]. Lá, não havia uma escola de música, mas você vai crescendo e, na falta dela, vai substituindo o aprendizado formal pela observação auditiva”.

Bosco ainda ressalta Clementina de Jesus e Silas de Oliveira como exemplos de compositores natos. “A Clementina nem era alfabetizada, mas era sensacional, de um conhecimento enorme vindo da tradição oral. O Silas não tocava nenhum instrumento, mas compôs grandes sambas na caixinha de fósforos”.

Hoje, o artista conta que se sente muito bem no palco, sozinho ou com banda, depois de 19 discos de canções inéditas, mais quatro ao vivo, um de regravações, uma trilha sonora (de “Benguelê”, para dança do Grupo Corpo, de Belo Horizonte) e um em colaboração com João Donato – além da faixa “Agnus sei”, no LP de bolso do “Pasquim” que marcou sua estreia fonográfica em 1972.

Com Armando Marçal (percussão), Kiko Freitas (bateria), Ricardo Silveira (guitarra) e Guto Wirti (contrabaixo), ele sobe às 22h no palco do Vivo Rio para lançar “Mano, que zuera”, seu 20º disco de inéditas – mas não só.

Além das novas músicas, há espaços para regravações de outros compositores e dele próprio. “João do Pulo”, que ele compôs com Aldir Blanc e já gravara em 1986 volta emendada com “Clube da esquina nº2”, que, para ele “sempre remeteu a um universo de canto indígena, da maneira como o Milton [Nascimento] a cantou, na primeira gravação”. 

Do hábito da improvisação veio a ousadia de regravar só com voz e violão outra música com  o número 2 no nome – a “Coisa nº2”, de Moacir Santos – faixa do clássico álbum “Coisas”, de 1965, ela fora gravada originalmente por um timaço de 14 músicos – oito só nos sopros.

“Solo, na voz e violão, o caminho é um; com banda, é totalmente diferente: os espaços são outros, a forma da música se modifica e a gente pode trabalhar introduções, contracantos, improvisações podem ser feitas por guitarra, baixo e também bateria”, se anima João Bosco, que teve o filho, Francisco, como principal companheiro em “Mano, que zuera” – inclusive na faixa-título, “mais um caso de improvisação, pela modificação: do léxico, porque fizemos ‘zuera’ mesmo, não ‘zoeira’, que é o termo original”. Ao JB, o músico explica as dinâmicas de composições com os parceiros do novo álbum.

Francisco Bosco

O escritor e filho assina as letras de cinco das 11 músicas do disco, nessa linha de passe do improviso – facilitada, claro, pela proximidade familiar entre os dois jogadores. “São coisas que vão acontecendo no percurso. Em uma caminhada, você pode não saber com antecedência o que tem dali a 500 metros. Com o Chico [como chama o filho], me encontrei uma vez,  fizemos a ‘Mano, que zuera’. Nos encontramos outra vez, saiu ‘Nenhum futuro’”, enumera o cantor e violonista ao JB.

Uma série de cruzamentos vem à cabeça de João Bosco quando ele fala de “Onde estiver”, como ele conta. “O Chico fala dos filhos dele e também funciona como meu filho; em volta, forma toda uma árvore genealógica muito interessante. Quando toco, começo a citar o Pai Grande, do Milton Nascimento; e “Nossas últimas viagens”, que o João Donato gravou, depois de compor comigo e com o Aldir Blanc, que, na letra, fala da minha cidade [Ponte Nova, em Minas Gerais] e escolhe como personagem meu pai, um homem que ele conheceu muito bem”

Arnaldo Antunes

O embrião da parceria em “Ultra leve” começou a ser gestado há mais 30 anos, quando o letrista ainda integrava os Titãs. “Nos conhecemos em gravações de programas de música na TV. Uma vez, eu ficava tocando violão no camarim e ele veio, quase fizemos uma música. Combinamos, gravamos, cada um a sua parte, mas não demos continuidade – na época, era mais difícil, não tinha internet, só telefone fixo, então a gente precisava se encontrar, o que acabou acontecendo mais recentemente, porque ambos fazemos parte do conselho do Prêmio da Música Brasileira”, narra João Bosco. 

“Aí, voltamos a falar de compor juntos. Gravei o que estava pensando e mandei para ele, que depois mandou o texto, com todas aquelas referências à orla, à paisagem do Rio, que, se for ‘inútil’, como dizia a canção do Tom [Jobim] e do Vinicius [de Moraes] para alguém, esse alguém está perdendo”, brinca. “Curioso, também, que essa música com tantas referências ao Rio tenha sido feito por um mineiro e um paulistano”, acrescenta o músico, que, no álbum, tem a participação da filha e cantora Júlia Bosco na gravação de uma etérea Bossa Nova modificada.

Roque Ferreira

Uma tabelinha à distância marcou a composição do samba “Pé-de-vento”. Começou quando Bosco participava da turnê nacional de 50 anos de Maria Bethânia. “Ela me chamou no camarim, para me mostrar uma música do Roque Ferreira, para a qual queria que eu pensasse em uma harmonia ao violão. Era ‘Doce’, que ele falava da Bahia, de Caymmi, de Oxum”, lembra.

“Então, peguei, trouxe para casa e comecei a pensar em uma, harmonicamente. Nesse meio tempo, acabei fazendo um samba que não tinha nada a ver com ‘Doce’, mas aceitei esse samba e pensei ‘bom, se eu estava trabalhando em cima de uma música do Roque, nada mais justo do que mandar meu novo samba para ele fazer a letra”. O contato com o compositor baiano – avesso à tecnologia – se deu por amigos em comum e a família dele, em Salvador. “Gravei em MP3 e passei, não sei se converteram para CD para mostrá-lo, mas ele ainda bate letra em máquina de escrever. Olivetti, Remington ou coisa do tipo. Faz parte do estilo”.

Chico Buarque

Composta pelos dois e incluída por Chico em seu álbum de 2011, “Sinhá” volta agora em versão diferente. “Sempre tenho a ideia de regravar de forma diferente. Se não for assim, eu nem faço”, afirma João Bosco, que participara, com o colega, da gravação original. “Eu e ele pusemos uma percussão bem africana, com vários elementos. Então, agora, eu quis gravar por outro caminho, com muitas cordas, violão de seis cordas – de aço e de nylon – e de sete, mais bandolim, mas sem nenhuma percussão. Só cordas. Fiz esse arranjo para tentar que soassem um pouco como uma kora, um instrumento africano de 21 cordas, que vai do grave ao agudo, passando pelos médios”. 

__________

SERVIÇO

VIVO RIO

Av. Infante Dom Henrique, 85 - Parque do Flamengo; Tel.: 2272-2901. Ingressos de R$ 80 a R$ 180 (inteira);  de R$ 40 a R$ 90 (meia). Classificação: 18 anos. 

www.vivorio.com.br