Crítica Teatro 'Minha': Te vejo mais bela

As dificuldades de se fazer teatro no Brasil têm levado a uma enxurrada de monólogos, forma de se viabilizar produções e não perder a plateia. Mas o premiado autor Wilson Sayão faz do texto inédito “Minha”, em cartaz no Teatro Dulcina, um monólogo em que Osvan Costa, o idealizador e ator, apresenta-se com vários diálogos. O fluxo de consciência de um marido que visita a esposa em coma profunda não é o simples jorrar de palavras para exprimir o que sente. Ao contar o seu cotidiano, Henrique, o marido, introduz outros na sua relação com a mulher.

Um acidente, ainda que comum, desesperador: o choque anafilático em uma operação de varizes, leva a mulher de Henrique à vida vegetativa. Ele, homem simples, correto, contido, funcionário público, compromissado tem um ritual de visitas com a mulher, um corpo deitado em uma cama de hospital, que apenas respira. E aí numa visita normal, Henrique, depois de comentar incidentes num almoço de trabalho, resolve se despir e desnudar-se de tudo o que lhe aborrece. A solidão, os filhos insensíveis, as chatices do trabalho são a matéria à que recorre para manter a ilusão de que seu relacionamento ainda existe.

Com direção de Fátima Leite e supervisão de Amir Haddad, que transformam uma jornada sentimental que poderia ser pura pieguice em uma peça que se desenvolve entre a profunda tristeza da própria situação, as pequenas alegrias do cotidiano, as ironias dos desejos sexuais de Henrique e a trilha sonora que conta a história de um amor que, agora, só possui passado.

Osvan Costa vem caracterizado com o homem comum atemporal. Cabelo com gel, domado, arrumado, de terno e pasta, camisa branca, sapato preto, nada em desalinho o que contrasta com quem tem a vida totalmente perturbado. A interpretação de Osvan também reflete esse movimento do texto, reforçado pela direção, é realista, mas não é pastiche; é dramática, mas não é acima do tom. Henrique, o personagem, tem que trazer vida ao que está morto. Este foi o caminho escolhido com acerto.

A mulher deitada, dentro de um véu, é a figura quase estátua, como se vê nos túmulos. A iluminação de Aurélio de Simone e cenário de Fernando Mello da Costa convergem para colocar a mulher em algo difuso, esfumaçado, um próximo de fantasma, mas também uma boneca que se pode carregar. Dessa forma é vestida por Henrique como morta, como noiva, como alguém que se acarinha para aprofundar o sentimento.

“O amor é a pessoa de quem você se lembra quando lhe perguntam o que é o amor” é a frase motriz de “Minha”, ao lado da canção de Francis Hime, que evidencia nessa trama que o amor é um sentimento em construção. Sem cronologia, Henrique conta os momentos do que viveu, desde o encontro, o casamento, o cotidiano. Reclama do trabalho, fala do sexo que deseja, sinaliza a insensibilidade dos filhos. Fala da rotina das visitas. Que é preciso pensar que não pode abandonar, mas sabe que não pode ficar. Em “Minha”, apesar de a desgraça ser da mulher, é no diálogo entre o que acontece e o que sinto é que se vê que a dor é sempre só minha.

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SERVIÇO

“Minha” Com Osvan Costa e Cinthia T. 

Direção de Fátima Leite e supervisão de Amir Haddad 

Theatro Dulcina (R. Alcindo Guanabara, 17 – Cinelândia; Tel.: 2240-4879). 

De qua. a dom., às 19h. Ingressos: R$ 40 (inteira), R$ 20 e R$10 (quartas populares) 

Capacidade: 80 lugares Duração: 60 minutos Classificação: 14 anos