Língua portuguesa pode dominar Festival de Locarno, na Suíça

Evento, famoso pelo troféu Leopardo de Ouro, pode ter inéditos de Julio Bressane e Pedro Costa

Fala-se muito de Cannes, Veneza e Berlim na lista dos maiores festivais de cinema da Europa, mas Locarno não fica muito atrás: criado na Suíça, há sete décadas, em agosto, o evento, famoso por conceder o troféu Leopardo de Ouro a seus vencedores, aposta em filmes autorais pautados mais pela elegância formal do que pela militância. E por lá, o Brasil sempre gozou de prestígio. Foi dali, em 2017, que saiu um dos filmes nacionais mais badalados da atualidade: o terror “As boas maneiras”, de Juliana Rojas e Marco Dutra. 

Mas, este ano, nossa participação pode ser maior. Há um lugar cativo para a produção cinematográfica de língua portuguesa nas especulações da imprensa europeia acerca da edição 2018 de Locarno, agendada de 1 a 11 de agosto. O destaque fica para apostas em “Sedução da carne”, do carioca Julio Bressane, “As filhas do fogo” (antes batizado de “Vitalina Varela”, do lisboeta Pedro Costa), e “O termómetro de Galileu”, de Teresa Villaverde, também de Lisboa. Fala-se muito também em “Thursday night”, de Gonçalo Almeida, também de Portugal. Dizem que o pernambucano Claudio Assis pode finalizar seu esperado “Piedade”, com Fernanda Montenegro, no prazo para concorrer, mas nada foi confirmado. 

Estima-se que até o fim desta semana sejam anunciadas as atrações principais da 71ª edição do festival e que a competição de Locarno este ano traga inéditos do espanhol Carlos Saura (“El rey de todo el mundo”), da francesa Claire Denis (a sci-fi “High life”, com Juliette Binoche e Robert Pattinson), da palestina Annemarie Jacir (“Sandfish”),  dos canadenses Denis Côté (“May we sleep soundly”) e Denys Arcand (“The fall of the american empire”) e do chinês Wang Bing (“Jeunesse de Shanghai”). 

O muso argentino Ricardo Darín deve passar por lá com a comédia “El amor menos pensado”, de Juan Vera, sobre um casal à beira dos 60 anos que se separa. O já citado filme de Bressane tem tudo para competir, dado ao histórico de interesse do festival pelo cineasta. Em “Sedução da carne”, Mariana Lima é uma mulher acossada por suas inquietudes. Carne crua é o signo de sua angústia. 

O evento suíço anda crescendo em popularidade e prestígio, cada ano mais, aos olhos da indústria por se abster de conflitos políticos – só a temática dos refugiados não passa batida deles. A escolha do ator texano Ethan Hawke para ganhar um prêmio pelo conjunto de sua carreira já é um indício do quanto Locarno quer os holofotes de Hollywood. Não por acaso, sua curadoria garantiu uma sessão de gala do drama musical “Blaze”, dirigido por Hawke, e já premiado em Sundance, em janeiro, para a homenagem ao astro. E, de quebra, o evento vai, pela primeira vez, criar uma linha de séries para a TV, com uma seção dedicada a pilotos de temporadas de projeto televisivos serializados. 

A abertura desta seção será com “Coincoin et les z’inhumains”, do francês Bruno Dumont (realizador dos cults “A humanidade” e “Flandres”). Considerado um dos diretores mais respeitados da Europa hoje, Dumont vai receber o Leopardo de Ouro pelo conjunto de sua obra. 

*Roteirista e presidente da Associação de Críticos do Rio (ACCRJ)