Lenine apresenta “Em trânsito”, álbum que inverte a ordem da produção fonográfica

No disco “O dia em que faremos contato”, lançado em 1997, Lenine abria a primeira faixa com o som do modem, aquele barulhinho da internet “pré-histórica”, discada, que a geração das mídias sociais desconhece. Passados 21 anos de avanços tecnológicos sequer imaginados naquela época, o cantor e compositor continua antenado e lança “Em trânsito”, que subverte os ditames da produção fonográfica. O trabalho, que tem show de lançamento hoje no Vivo Rio, teve um processo diferente de parcerias, foi gravado ao vivo e disponibilizado nas plataformas digitais dia 11 de maio. O CD foi lançado ontem, o DVD e o vinil, com 20 faixas, saem em agosto e, no final do ano, um documentário será exibido no Canal Brasil. Versões em estúdio das 11 faixas serão gravadas e lançadas em streaming aos poucos, até serem reunidas em um CD ao final da turnê. “A gravação aconteceu no início do ano, no Imperator, que é uma casa maravilhosa. Eu queria documentar e extrair dali vários formatos, físico e digital, pois as mudanças estão acontecendo numa velocidade vertiginosa”, diz Lenine. “Em trânsito” é o terceiro disco ao vivo do pernambucano radicado no Rio há 35 anos, mas não tem semelhança alguma com os anteriores ‘MTV acústico’ e ‘In Cité’. “Que MTV? Mal me recordava desse! O ‘In Cité’ eu tive carta branca da Cité de la Musique, na França, para gravar o espetáculo, que ficou apenas no registro e não teve turnê. Era uma época de desvalorização do formato áudio+imagem num mercado musical anacrônico (quando aconteceu, por exemplo, a fusão da BMG com a Sony)”, lembra.

Lenine diz que “Em trânsito” é um coletivo de parceiros e músicos com quem ele já percorreu muita estrada e, por isso, tinha intimidade suficiente para propor um trabalho com escassez de tempo e fora dos padrões. Ele deixou, por exemplo, o violão de lado ao apresentar as canções aos parceiros, como os sempre presentes Bráulio Tavares (“Lá vem a cidade”, “Umbigo” e “Virou areia”, gravadas em discos anteriores); Ivan Santos (“Intolerância”) e Lula Queiroga (“Ogan Erê”). “Sei o quanto o violão é uma extensão do meu corpo, então é natural ele vir impregnado de harmonia e ritmo quando eu mostro as composições, o que acaba induzindo o parceiro. Dessa vez, se a canção por si só não soasse como estímulo, partiria para outra!”, conta.

No palco, o som marcante de seu instrumento também ficou mais discreto, porque as melodias e letras foram apresentadas cruas à banda, para que os resultados fossem decifrados em conjunto. “Ousei ser mais intérprete, dei outro peso às palavras e foi muito prazeroso. O resultado é um som de banda”, afirma. De fato, os solos - praticamente sua marca registrada - são bem evidentes em “Leve e suave” e “De onde vem a canção”, mas se diluem em meio à sonoridade do coletivo formado por Bruno Giorgi (guitarra, programações e vocais), Guila (baixo, sintetizador e vocais), Jr Tostoi (guitarra, programações e vocais) e Pantico Rocha (bateria e vocais).

“O disco tem três participações evidentes. Carlos Malta, presente desde o início da minha carreira; Amaro Freitas, que é um novo velho amigo; e Gabriel Ventura, com sua guitarra em ‘Umbigo’. Aliás, Gabriel é roadie e talentosíssimo, quando ele entra pra arrumar os instrumentos e começa a tocar, todo mundo se surpreende”, comenta.

Lenine conta que quando conheceu Amaro, virtuoso pianista que toca em “Lua candeia”, disse logo que queria fazer alguma coisa com ele. “Gosto como explora a percussão do instrumento. No show, coloquei o piano no meio da plateia para gravarmos ‘Lua’, música ‘clubesquínica’ que talvez tenha sido a minha primeira parceria com Paulo Cesar Pinheiro”, diz.

Sobre o consagrado flautista e saxofonista Carlos Malta, Lenine diz que o considera como “aquele ídolo que você quer ter sempre pertinho”. Em “Intolerância”, seu sax ressalta a pegada ska da composição que aborda um tema, infelizmente, cada vez mais presente e que o próprio Lenine, em janeiro de 2017, foi vítima. Por causa de uma entrevista a uma rádio pernambucana ele foi duramente criticado e atacado por ter falado que foi traído pela esquerda. “A entrevista foi editada, eu falei muito mais, só que isolaram alguns trechos. Mantenho o que disse porque eu ia ao ABC, levava meus filhos, era um dos românticos que comprava a briga dos trabalhadores.

Aí, quando você vê 50 pessoas mandando no Brasil e as migalhas deles sendo disputadas pelos três poderes, perde as esperanças. Por exemplo: votei na Marina, mas hoje ela não teria meu voto por ter misturado religião com a política”, diz, sem revelar quem poderia ser seu candidato em outubro. “Há dois ou três nomes possíveis, mas ainda é cedo, as coisas não estão definidas. Só sei que, quando comecei a compor para esse disco, a desesperança e o descaramento já estavam presentes”, diz.

“Em trânsito” tem direção musical de Bruno Giorgi, filho de Lenine que já havia produzido, ao lado dele e Jr. Tolstoi, “Chão” e “Carbono”. “Em ‘Chão’, Bruno fez toda a arquitetura sonora. Agora, foi responsável pela descoberta desse outro caminho quando disse: ‘Você não vende, você faz show, então tem que começar pelo show e com músicas novas’”, conta. Segundo o pai, a música foi surgindo naturalmente na vida de Bruno e dos dois outros filhos. “Eles sempre foram impregnados de música, que floresceu em momentos diferentes. João e Bernardo, até uns 18 anos, não queriam fazer música. Com Bruno, o interesse veio mais cedo, não só pelo criar, mas pelas ferramentas e possibilidades sonoras. Quando dei por mim, já estava produzindo e tinha a própria banda. Eu me orgulho tanto! Isso explica o que faço e como faço”, diz, com os olhos brilhando de emoção.

Para um artista que teve que insistir muito para fincar sua marca no mercado musical, chegar a um trabalho como “Em trânsito” comprova total independência e o auge do processo intuitivo. “Meu primeiro disco foi em 1983, o segundo, dez anos depois. Era o mercado dizendo não e eu, teimosamente, respondendo que sim”, comenta sobre os hoje cultuados “Baque solto”, com Lula Queiroga,e “Olho de peixe”, com Marcos Suzano.

Um período de dez anos que foi fértil em composições, que resultou num baú de canções que foram “distribuídas” nos discos “O dia em que faremos contato”, “Na pressão” (1999) e “Falange canibal” (2002). “O que eu fiz foi descobrir títulos para agrupá-las. Os considero uma coletânea de contos que me possibilitou apresentar os romances, esses sim com título, ambiência e relevo sonoro”, referindo-se a “Labiata” (2008), “Chão” (2011) e “Carbono” (2015). “Agora, meu romance sonoro foi levado aos palcos”, finaliza.

Serviço

Lenine - Vivo Rio (Av. Infante Dom Henrique, 85 – Parque do Flamengo - Tel.: 2272-2901). Hoje, às 22h. R$ 40 a R$ 240