François Ozon lança thriller erótico “O amante duplo” no Festival Varilux

Tem um drama geracional inédito de François Ozon, chamado “Alexandre”, saindo do forno (e da ilha de edição) nos próximos dias, disputado por festivais como o de Veneza (29 de agosto a 9 de setembro). Mostras deste porte adoram o realizador parisiense de 50 anos, uma máquina de fazer filmes (finaliza dois roteiros por ano), premiado na Europa por cults como “Dentro da casa” (2012) e “O refúgio” (2009). Para o circuito exibidor da França, ele também é um xodó, encarado como uma garantia de salas lotadas desde o sucesso de “8 mulheres” (2002).  

Público e crítica costumam adorar seu estilo sensual, eventualmente de carga LGBT, protagonizado por estrelas, repleto de beldades de ambos os sexos. Mas, vez ou outra, Ozon vai transcende sua própria média e chega perto do adjetivo “obra-prima”, termo usado para definir seu último trabalho, o suspense erótico “O amante duplo”, indicado à Palma de Ouro em Cannes em 2017, visto por 340 mil pagantes mesmo sem ter qualquer chamariz midiático. Com suas cenas de tensão, o novo Ozon tem Hitchcock nas veias e chega a parecer um bom Brian De Palma, à la “Vestida para matar” (1980).

“O cinema patina entre dificuldades, mas se reinventa. O mesmo vale para as formas que o cinema representar o sexo: filmar corpos nus ainda pode inquietar e gosto que meus filmes provoquem. Suspense inquieta”, disse o cineasta em Cannes, sempre acompanhado da atriz, Marine Vacth, que ganhou fama num filme anterior dele, “Jovem e bela” (2013).

Previsto para chegar ao Brasil no fim de junho, “O amante duplo”, que põe Marine numa louca jornada de prazeres com seu psiquiatra, chega antes às telas nacionais como atração de destaque do Festival Varilux. Nossa maratona anual de longas franceses este ano vai de 7 a 20 de junho, em 63 cidades brasileiras. Há 21 atrações novinhas em folha e um clássico de 1969 (“Z”, de Costa-Gavras, em cópia nova) no pacote do evento. Mas é difícil prestar atenção no menu quando Ozon desponta como prato principal.

“Tem muitos cinemas no cinema francês, tem Godard, tem Astérix, tem eu... graças a uma política azeitada onde a boa venda de ingressos de um sucesso qualquer engorda o fundo coletivo que fomenta nossas novas produções, de acesso democrático a todos nós. O que talvez me diferencie é o interesse por pequenas situações do dia a dia: elas engrandecem qualquer um”, contou Ozon, já ocupado com a montagem de “Alexandre”, uma história de outro tom, mais afetivo do que os quiprocós do desejo de “O amante duplo”, cujas cenas tórrida aqueceram a temperatura da Croisette.

“É comum vermos uma mulher dividida entre dois homens. O incomum aqui é serem dois gêmeos, sendo que cada um sinaliza um estado da bipolaridade da nossa personagem principal. É sexo, é tensão, mas é, antes de tudo, uma história de autodescoberta num ritmo que pode ir da love story ao thriller”. 

Seu astro, o belga Jérémie Renier, ator fetiche dos irmãos Dardenne (“A criança”), virá ao Varilux para defender a estética de Ozon e conversar sobre seu personagem, o médico que cai de amores por uma paciente, Chloé (Marine), sem se dar conta do quão perturbadora é sua psiquê. Chloé é funcionária de um museu que, abalada por conflitos internos, busca a ajuda de um psiquiatra a fim de parar de somatizar (com dores de estômago) suas angústias. Suas primeiras sessões com o Dr. Paul (Renier) são ótimas até que ele se apaixona por ela. O amor é mútuo e rende um namoro feliz... até ela saber que ele tem um irmão gêmeo - ainda mais sedutor. Aí começa uma sequência de cenas de mistério com molho de Freud.

“De Palma não foi uma referência consciente, mas ele é uma Bíblia quando se visita histórias de mistério. A minha visita não é reverente. Ela quer desconstruir o gênero: o desejo me interessa mais do que o medo”, disse Ozon, que trouxe Jacqueline Bisset para viver a mãe de Chloé. “Cinema é lugar de mitos. Gosto da mitologia que atrizes como Jacqueline carregam”

Em geral, o diretor gasta €3 milhões por filme, um custo médio, que garante sua produtividade alta. O orçamento de “Alexandre” está estimado nestas cifras: nesse novo projeto ele narra a saga de três amigos (Melvil Poupaud, Denis Ménochet e Swann Arlaud) às voltas com os dissabores da vida adulta.

“Filmar me dá muito prazer e eu tenho muitas ideias para tirar do papel. Se eu gosto e sei filmar barato, por que ficar anos a fio à espera de um projeto dos sonhos chegar?”, orgulhou-se Ozon. “Tenho uma produção modesta o que me permite seguir trabalhando em um país que faz da diversidade um diferencial nas telas”.

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Outros imperdíveis do Varilux

Custódia: Um dos achados do Festival de Veneza de 2017, este drama sobre os efeitos devastadores de uma separação sobre um homem abusivo rendeu o Leão de Prata de melhor direção para o estreante Xavier Legrand. Conquistou ainda o prêmio de júri popular em San Sebastián, na Espanha, depois da comoção que causou nas plateias ao narrar o processo de embrutecimento e loucura de Antoine (Denis Ménochet) depois que perde a guarda integral de seus filhos; 

Gauguin – Viagem ao Taiti: Ignorada pelos maiores festivais do Velho Mundo, mas lançada com sucesso em seu país, vendendo 85 mil pagantes em apenas três dias, este biopic do pintor Paul Gauguin (1848-1903) revê a jornada do artista plástico pela Polinésia, em busca de uma transcendência mais radical em relação à sua condição burguesa de berço. Vincent Cassel vive Gaugin. A direção é de Edouard Deluc (do belo curta “?Dónde está Kim Basinger?”), que explora o exotismo verde a seu redor para registrar as inquietações de um artista devastado pelo desejo de liberdade e de transgressão a qualquer preço; 

O retorno do herói: Realizador do fenômeno “O pequeno Nicolau”, Laurent Tirard faz um vaudeville apoiado no carisma de Jean Dujardin, coroado com o Oscar por “O artista” (2011). Nesta novela das seis pautada pelo romance e pelo riso, o galã interpreta o capitão Neville, um militar cascateiro que deserta de seus compromissos com a guerra para se casar com uma jovem rica. Mal sabe ele que a irmã de sua noiva espalhou cartas falsas falando da morte dele em batalha;

A raposa má: Talhado para plateias das mais variadas idades, “Le grand méchant renard et autres contes” (no original) é a cota da animação neste Varilux, coroado com o César (o Oscar francês) pelo requinte de seus desenhos. Inspirado em HQs educativas de Benjamin Renner, que codirigiu o filme com Patrick Imbert, o longa narra uma peça teatral na qual um bando de bichinhos lelé da cuca encena problemas de identidade.