Apresentações simultâneas têm concertos com Bach e a diversidade de compositores do século passado

Deve soar exagerado e clichê, mas muitos hão de concordar com a frase “Bach é o pai da música”. Sem Bach, a música hoje seria outra. Bach está para música assim como Einstein para a Ciência, Freud para a Psicanálise, Picasso para a arte ou, para citar pintores do período barroco, Rembrandt, Caravaggio. Aliás, o final do período barroco em música é convencionado exatamente em 1750 por ser o ano em que Bach morreu (iniciando aí o período clássico, com Mozart, Haydn, Beethoven, erguido sobre os pilares límpidos e claros de Bach). 

Hoje há dois concertos exatamente no mesmo horário e, infelizmente, será preciso escolher entre ouvir a mais fina música barroca, de Bach, e ouvir música do século XX, com obras raramente tocadas no Rio de Janeiro. O que pode ajudar a escolher entre um e outro é a preferência por música barroca ou moderna.

No Theatro Municipal, às 20h, o conjunto alemão Internationale Bachakademie Stuttgart, dirigido pelo alemão Hans-Christoph Rademann, executará a cantata BWV21 “Ich hatte viel Berkümmernis” e o Magnificat em Ré maior, BWV 243, duas grandes obras vocais do compositor. A Internationale Bachakademie Stuttgart é uma orquestra que traz em suas execuções o entendimento e cuidados de uma interpretação que a música criada em outro tempo exige, sendo reconhecida mundialmente pela alta qualidade de suas apresentações.

Na Sala Cecília Meireles, a Orquestra de Solistas do Rio de Janeiro (OSRJ), conjunto composto de músicos da melhor qualidade, sob a regência de Rafael Barros Castro, executará obras de Tacuchian, Stravinsky e Piazzolla. Três peças em estilos completamente distintos, que mostram a riqueza da diversidade musical do século passado. “Núcleos”, uma das peças, escrita em 1983 por Ricardo Tacuchian, é uma obra inserida numa estética pós-moderna que, segundo o compositor, é “a procura de uma linguagem nova, mas a partir de uma tradição. “Núcleos” é uma peça atonal, mas que, de pontos em pontos, apresenta um centro tonal, ainda que passageiro e pouco nítido. O nome “Núcleos” é bastante subjetivo, mas atende à construção da peça que, a cada momento, gira em torno de um determinado parâmetro (timbre, centro tonal, motivo atonal, ritmo, textura), como se fossem diferentes núcleos que se superpõem e/ou se ligam.”

A poucos metros da profusão dos sons modernos se ouvirá Bach no Municipal. O maestro alemão Hans-Christoph Rademann fala sobre a beleza da primeira peça que regerá: “Considero a cantata BWV 21 como uma das obras mais valiosas de Johann Sebastian Bach. É uma composição sensível, profunda e cheia de alma, que trata da tristeza e da preocupação da alma meditativa. Há um belo diálogo entre a soprano (uma alma crente) e o baixo (voz de Jesus) em que a ela diz ‘Como eu poderia ser feliz, a noite aqui é tumultuada’ e o baixo responde ‘Eu sou seu amigo fiel, que a assiste no escuro’. Essa tensão é resolvida num brilhante final com o coro em regozijo numa atmosfera de alegria”.

Inventada no século 17 na Itália, a Cantata é uma forma de música que pode ser apenas para vozes ou incluir orquestra, com textos sacros ou não. Bach escreveu mais de 200 delas, em geral para coro, solistas e orquestra, para serem apresentadas nos cultos dos domingos. A cantata desta noite, “Ich hate viel Berkümmernis” (“Tive muita aflição em meu coração”) é dividida em duas partes compostas de onze movimentos e inicia com apenas a orquestra tocando um prelúdio que se sustenta independentemente do resto da obra. A segunda peça da noite, “Magnificat em Ré maior”, teve a sua primeira apresentação em 1723, quando Bach tinha 38 anos. “Magnificat”, também conhecido como “Canção de Maria” é um dos principais cânticos cristãos e a palavra em latim significa ‘enaltecer’, ‘louvar’. Extraído do Evangelho de São Lucas, o texto reproduz o que a Virgem Maria teria recitado na ocasião em que visita sua prima Isabel. Bach concebeu a obra - para cinco vozes, coro e orquestra - em doze partes.

A enorme diversidade da música do século XX tem por características a “destruição” e a reinvenção da harmonia e do contraponto, tão original, fantástica e engenhosamente estabelecidos por Bach. As peças modernas desta noite são uma boa amostra desta bela “destruição” e da influência poderosa de Bach: Concerto em Mi bemol maior, de Stravinsky, “Dumbarton Oaks”, é assim chamado por ter sido comissionado ao compositor pelo diplomata Robert Woods Bliss e sua esposa, evocando o palacete com vastos jardins que habitaram nos anos 30, localizado no centro de Washington, DC. Uma peça do período neoclássico de Stravinsky e fortemente inspirada nos concertos de Brandemburgo de Bach. 

De Piazzolla, será executada “Quatro estações portenhas”, cujo nome evidencia de onde veio a inspiração, do outro compositor barroco, Vivaldi, agora em uma versão “argentinada” para as estações. A peça mais radical da noite, em termos de quebra da tonalidade e, por conseguinte, de rompimento com Bach (pai do estabelecimento da música tonal), é “Núcleos”, de Tacuchian, que o próprio compositor define como atonal. No fim das contas esses dois concertos refletem a mais básica polaridade que a música ocidental vive há séculos: a tonalidade e sua dissolução.

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