Thriller sobre refugiados, 'Lua de Júpiter' usa estética de super-herói

Pátria de cineastas famosos por planos lentos e muita reflexão existencial ou política, de Miklós Jancsó (“Salmo vermelho”) a Ildikó Enyedi (indicada ao Oscar este ano por “Corpo e alma”), passando pelo cultuado Béla Tarr (“O cavalo de Turim”), a Hungria também sabe ser pop nas telas e investir no filão mais rentável do momento, os filmes de super-herói, porém com mais interesse em gerar indignação do que em vender toneladas de ingressos. 

“Lua de Júpiter”, que estreia nesta quinta no Brasil após sua passagem pelo Festival de Cannes de 2017, flerta com a estética da Marvel, com um personagem com superpoderes, mas usa a fantasia como metáfora para a tragédia dos refugiados sírios no Velho Mundo. Dirigido por um especialista em contos morais, Kornél Mundruczó (de “Delta”), esta produção húngara impressionou a crítica com a sofisticação técnica de sua engenharia de efeitos visuais, mas também pelo teor inflamável de seu roteiro.

"Existem grandes filmes de super-herói como o ‘Superman’ dos anos 1970, porém uso aqui mais referências aos thrillers políticos dos anos 1960 e 70 do que elementos de filmes de fantasia. A fabulação aqui é um convite a um debate mais massificado sobre o drama de quem perdeu a própria pátria”, disse Kornél quando concorreu à Palma de Ouro. “Um país pobre como a Hungria não tem condições de oferecer um futuro a quem veio fugido de sua pátria. Mesmo assim, perto da realidade da Síria, e seus conflitos armados, a nossa pobreza parece invisível. Um subúrbio húngaro cheio de dificuldades econômicas vira um lar confortável para quem vive rodeado por bombas”, compara. 

Misto de aventura, suspense e análise geopolítica, “Jupiter’s moon” acompanha a ciranda de perigos em que o refugiado sírio Aryaan (Zsombor Jéger) se envolve após ser baleado gravemente e descobrir que pode regenerar suas feridas, além de ser capaz de flutuar. Um médico alcoólatra e decadente, incumbido de cuidar de imigrantes ilegais, o dr. Stern (Merab Ninidze, numa atuação impecável), tentará tirar proveito dos dons de Aryaan, que vira seu paciente. De cara, ele tem a ideia de cobrar dinheiro de ricaços que conhece para apresentar a eles os poderes de seu jovem amigo. Mas, aos poucos, os dois vão travar uma amizade cerzida a desabafos que expõem as feridas abertas da Europa.

“A flutuação é um símbolo para a capacidade de abstração que a Hungria perdeu após anos a fio de conflitos sociais e econômicos”, diz Kornél. “Busquei construir esta narrativa com o máximo de cuidado na montagem das cenas de tiroteio e perseguição a fim de criar uma estrutura de linguagem mais universal, chamativa sobretudo para os jovens espectadores que descobriram o cinema vendo o Homem-Aranha. A ideia é que ele entre nesse universo misterioso e descubra ruínas reais, morais, do mundo à sua volta. É importante que esses espectadores cresçam. Isso aqui é uma fantasia política para adultos”. define.

*Rodrigo Fonseca é roteirista e presidente da Associação de Críticos de Cinema do Rio de Janeiro (ACCRJ)