Peça “Cafona sim, e daí ?” é homenagem a Sergio Britto e o estilo brega

“Cafona sim, e daí ?”, no Teatro Sesc Copacabana, é uma homenagem a Sergio Britto, nas comemorações pelos seus 95 anos, em retrofit da peça concebida e dirigida pelo ator em 1997. Com a mesma intenção de se construir um musical/ show, com músicas do chamado brega, foi resgatada no texto de Daniel Porto, com direção de Alexandre Lino. 

A peça apresenta no primeiro ato o musical e, no segundo, o show, interação que funciona, pois o fio condutor são as músicas que falam de desilusão, traição, amores interrompidas. De clássicos como “Negue”, boleros, Reginaldo Rossi, axés baianos até “Ex- -my love” e a atualíssima sofrência, o que a plateia vê, canta e aplaude, é uma verdadeira parada de sucessos do mais brasileiro dos gêneros: a dor de cotovelo. 

O primeiro ato abre com os atores fazendo exercícios de esquenta e discutindo quais os problemas do show que estrearão no dia seguinte. A metalinguagem, a peça contando a própria peça, é um recurso tradicional, mas que aqui funciona bem, pois ao invés de exibir os sempre conflitos entre atores/editores, aproveita para narrar como foi o primeiro show e, sobretudo, contar a importância de Sérgio Brito. 

O texto leve divertido discute dogmas. Se existe essa licença para ser cafona em uma cena teatral que pretende se pautar por um suposto bom-gosto. Ao mesmo tempo, com intervenções sobre se é politicamente correto chamar a cantora Katia de cega, o que se percebe é a possibilidade de se entender que existe um popular que é alijado, assim como pode-se perder a objetividade ou mesmo o que se quer dizer quando qualquer tipo de regra ditatorial. Daniel Porto constrói uma linha reta: há de se falar aquilo que se deseja e que impacta positivamente o público. 

A direção de Alexandre Lino aproveita o palco em forma de arena, sem cenário, para movimentar os corpos dos atores em torno de uma ideia de grupo, pois não existem um narrativa clássica com começo, meio e fim e nem conflito de personagem, os atores representam a si próprios, sem haver exigência de atuação maior de um ou de outro. 

Os atores Antônio Carlos Feio (ator da montagem original), Luciana Victor (produtora na montagem original), Claudia Ribeiro (coreógrafa da montagem original), Nívia Terra, Marcelo Capobiango (ator que regularmente trabalhava com Britto) e Francisco Salgado cantam e dançam de forma eficiente ao que se propõe o espetáculo: uma brincadeira sem atingir um exagero parodístico, mas que exige um bom desempenho de voz e de corpo. 

A coreógrafa Claudia Ribeiro, excelente no número de Gretchen, consegue um bom resultado com um grupo de atores não bailarinos. Não há exageros e nem tentativa de se criar um ballet. Enfatiza-se um dança de casais, voleios individuais, um mexer de corpos embalados pelo ritmo da música. No segundo ato, o show, é quase que um baile de salão. 

“Cafona sim, e daí ?” é um momento de distração para se rir, cantar, pensar sobre a própria dor de cotovelo e de como podemos escapar, quando quisermos, daquilo que nos é imposto. Seja na ditadura do gosto musical, seja pode dizer Eu gosto disso sim. E daí?

* Claudia Chaves, professora do Depto de Comunicação da PUC-Rio e doutora em Letras.