Cannes: Marco Bellocchio volta com produção de 16 minutos sobre o nazismo

Existe uma ala do Marché du Film - setor de negócios do Palais des Festivals, o prédio onde Cannes exibe sua seleção anual de filmes - chamada Short Film, em que se pode ter acesso a todos os curtas-metragens em exibição no evento... menos um, “La lotta”. É uma história de 16 minutos sobre um jovem italiano caçado por nazistas. Por que ele não pode ser visto ainda? Por ser a joia mais luminosa da Quinzena dos Realizadores, graça à assinatura em seus créditos de direção: Marco Bellocchio. É uma grife autoral de alto quilate, o que vai tornar sua projeção, hoje, uma das mais disputadas do festival. Mito autoral do cinema europeu, com 41 filmes de prestígio em um currículo iniciado em 1961, Bellocchio misturou política e psicanálise em sua filmografia, marcada por cults, como “De punhos cerrados” (1965) e “Vincere” (2009). São poucos os cineastas do porte dele que se arriscam nos curtas. O motivo desse interesse está na entrevista a seguir, realizada na produção de “La lotta”.

JORNAL DO BRASIL: Por que investir no formato, Bellocchio? 

BELLOCCHIO: Eu nasci numa Itália fascista, em uma família de nove irmãos. Recebemos uma carta de congratulações de Mussolini, o ditador do nosso país, parabenizando meus pais por terem tidos tantos filhos, dando à Itália braços para trabalhar. E fora esse jogo do fascismo, havia a Igreja que cerceava tudo, que patrulhava as relações, em especial no momento em que o comunismo surgiu como uma luz para a minha geração. A Itália de hoje não é mais aquela, mas ainda sofre com contradições do jugo fascista. Esta história nasceu para expurgar esse fantasma. 

Em 1967, o longa “A China está próxima” valeu ao senhor comparações elogiosas com o cinema de Godard. E, na época, o senhor teve uma relação muito próxima com os diretores brasileiros que fi zeram a revolução narrativa chamada Cinema Novo. Em sua formação, em Roma, o senhor chegou a ser colega de escola do carioca Paulo Cezar Saraceni, diretor de “Porto das Caixas”, morto em 2012. Que lembranças o senhor guarda do Brasil daquele período?

O futebol é uma arte que nos une, mas tínhamos os filmes como paixão. A amizade é a principal recordação que eu tenho, sobretudo pela falta que sinto de Paulo e do também cineasta Gustavo Dahl, meus dois grandes companheiros de liceu no Centro Sperimentale di Cinematografia, em Roma. Aquele era um momento de juventude, no qual desfrutávamos com plenitude da euforia da criação e da revolução estética, com sonhos de usar a arte como um instrumento de transformação. Eram tempos de guerra. Éramos todos muito jovens e compartilhávamos do entendimento de que as mudanças deste mundo passam pela questão social e pela lucidez política. 

Qual foi sua maior lição? 

Foram muitas. Ali, eu descobri contradições que formam o Brasil, seu país. E dali saiu a centelha a partir da qual Paulo Cezar fez grandes filmes como “A casa assassinada”. Paulo era o homem da poesia em nossa escola. 

Como o senhor avalia o cinema que se faz hoje na Itália? Ainda existem surpresas?

Tem horas que eu me surpreendo comigo mesmo, por não querer parar, na minha idade, 78 anos. A produtividade me espanta. E o número de jovens talentos que começam a fazer seus longas com câmeras digitais. Quando eu comecei a filmar, nos anos 1960, meu país era um organismo audiovisual vivo, que revolucionava as telas com os mestres do Neorrealismo pela busca de uma linguagem transgressora, próxima do que se vivia nas ruas, nos campos. Eu pertenci a uma geração de prodígios, que conseguiram lançar seus primeiros filmes ainda muito jovens. Como espectador, eu vi muitas gerações de grandes diretores italianos se estabelecerem e sofri com a partida dos grandes diretores, como Ettore Scola, por exemplo. Mas a grande surpresa é ver o quão rápido a gente consegue filmar, finalizar e lançar filmes na Itália nos dias de hoje. 

Antes, como era? 

Em 1965, quando eu fiz meu primeiro sucesso, “De punhos cerrados”, a gente conseguia, no máximo, emplacar uns três filmes em circuito ao longo de um ano. Hoje, percebo que a gente lança quase 50 títulos. Isso tem a ver com a revolução digital, mas também tem a ver com o fôlego da atual juventude que, para o meu prazer e a minha honra, reporta-se com carinho ao meu trabalho. É emocionante saber que os jovens ainda se sensibilizam com obras como “A China está próxima”. O que me deixa alarmado, contudo, é pensar que esses filmes ainda encantam não apenas por razões estéticas, mas porque os problemas que foram denunciados por ele prosseguem, imutáveis.