Cannes: italiano 'Dogman' concorre à Palma de Ouro

No mesmo dia em que se deliciou com um Bellocchio inédito na Quinzena dos Realizadores, Cannes recebeu um presente da Itália em sua seleção oficial de concorrentes à Palma de Ouro: o faroeste contemporâneo “Dogman”. Já há quem afirme a vitória do novo filme do romano Matteo Garrone na categoria de melhor ator, dada a maneira quase chapliniana com que Marcello Fonte cria a figura de um tratador de cães, cuja fidelidade aos amigos - animais e humanos - pode ser fatal. 

Porém, esta violentíssima crônica da periferia de Villaggio Coppola pode - e merece - levar mais láureas. Não se esqueça de que Garrone recebeu duas vezes o Grande Prêmio do Júri de Cannes (honraria mais importante depois da Palma): em 2008, por “Gomorra”, e em 2012, por “Reality”. 

“Este é um filme bem mais simples, baseado em fatos reais e inspirado pela luz natural das minhas locações, que tenta extrair um desejo de justiça de um sujeito de comportamento quase ingênuo para retratar a briga universal do oprimido contra o opressor, sem cair em vitimizações de ordem social”, diz Garrone. 

Em “Dogman”, Fonte vive Marcello, dono de uma petshop, devotado aos cachorros, à filha e aos amigos do subúrbio miserável onde vive. Um deles é seu ponto fraco: o agressivo Simoncino (Edoarso Pesce), um viciado grandalhão que arrasta o amigo para as mais variadas confusões, inclusive roubos. Covarde, Marcello tem medo da força dele e faz o que ele manda. Porém, mais do que medo, ele tem uma fidelidade... canina... ao sujeito. Chega a ir preso para salvá-lo. Mas uma hora a confiança é rompida. Aí vem o troco... 

“Marcello cria um tipo próximo da máscara patética de Buster Keaton, grande comediante da era muda, e age movido por um simples desejo de ouvir a palavra ‘desculpa’. Mas o que a vingança representa num lugar arrasado pela pobreza?”, pergunta Garrone.