Um banho de descarrego

A chanchada surpreende Cannes com a vitalidade de ‘Le grand bain’

Raramente se ouve uma comédia ser citada no boca a boca dos corredores de Cannes, como é praxe em todo grande festival de cinema do mundo, onde tragédias pessoais, documentários e dramas sociais costumam ser mais prestigiados do que produções como “Le grand bain”, um ímã de gargalhadas capaz de desafiar a sisudez do evento. Desde a sua projeção, no domingo à noite, quando foi recebida com má vontade pela imprensa, a chanchada aquática dirigida por um dos mais bem-sucedidos galãs da França, Gilles Lellouche, não sai das conversas, seja dos papos entre críticos – surpresos pela afinação de seu roteiro – seja de distribuidores, que nele enxergam um potencial fenômeno. Neste momento em que Hollywood anda de mal com o riso, incapaz de emplacar um êxito cômico, os franceses não param de investir no filão do humor, valorizando aqueles que sejam mais popularescos. Conhecido no Brasil por “Infiéis” (2012), Lellouche está acostumado ao mais rasgado quaquaquá do vaudeville, mas levou a seu filme um diferencial: um elenco classe AA de estrelas europeias.

“O universo do nado sincronizado é um dos espaços mais disciplinados que você vai encontrar não só na natação, mas em qualquer outro ambiente. Então você imagina a dificuldade que foi controlar este bando de malucos”, disse Lellouche, em referência a Virginie Efira, Guillaume Canet, Leïla Bekhti, Benoît Poelvoorde, Jean-Hughes Anglade e Mathieu Almaric, em cartaz no Brasil com “Os fantasmas de Ismael”. “Benôit era o mais difícil, mas como a irmã dele mora em Paris, ele se comportava”.

Uma boa aposta de bilheteria

Associado com frequência, por uma proximidade fonética de sobrenome, ao diretor Claude Lelouch (de “Um homem, uma mulher”) com quem não tem parentesco, Gilles é um campeão de bilheteria em seu país, uma pátria que, nos últimos dez anos, viu duas comédias chegarem à astronômica marca dos 20 milhões de ingressos vendidos, cada uma: “A Riviera não é aqui” (2008) e “Intocáveis” (2011). Há quem aposte que “Le grand bain” – exibido na Croisette fora de concurso - tem fôlego para chegar lá também, dado o carisma de seus protagonistas – sua qualidade, como narrativa, é inegável. Sua estreia está marcada para outubro.

“O segredo de uma comédia está na harmonia que você alcança entre as pessoas no set”, disse Lelouche, que em 2017 estrelou o sucesso “Assim é a vida”, dos diretores de “Intocáveis”. Ele escreveu os hilários diálogos de “Le grand bain”, cuja trama é das mais surradas: um grupo de fracassados profissionais se reúne para fazer uma atividade inusitada. O inusitado aqui é ganhar um campeonato mundial de nado acrobático. A partir de uma piscina – cenário de 55% cenas do filme -, Lellouche afoga sexismos, ao abordar uma prática mais associada midiaticamente às mulheres para ser executada por um time de barrigudos deprimidos fora de forma. No comando dos atletas da natação há duas autoridades femininas: a ex-nadadora alcoólatra Delphine (Virginie, a Ingrid Guimarães da França) e uma instrutora cadeirante, Amanda (atriz de origem argelina Leïla Bekhti). 

“É um prazer ser convidado para um projeto desses, quando só pensam na gente para papéis trágicos. Você não imagina como é difícil aprender esses movimentos na água. É tão difícil quanto fazer o povo rir”, diz Almaric, também diretor (premiado em Cannes por “Turnê” e “Barbara”), que ganhou o respeito de Hollywood ao enfrentar James Bond em “007: Quantum of Solace” (2008). Pouco antes de filmar “Le grand bain”, ele explicou numa entrevista sobre “Os fantasmas de Ismael”, que abriu o Festival de Cannes em 2017, a lógica mercadológica do audiovisual francês. “Na França, quanto mais ingresso um filme vende, não importa qual filme seja ou de onde venha, um euro de cada tíquete vendido vai para um fundo nacional para a produção de novos projetos. Se uma comédia explode nas bilheterias, todo mundo lá ganha com isso, porque é mais verba para todos, o que pode ser usado tanto numa superprodução de Luc Besson como num filme de Godard”. 

De carona na onda de humor deflagrada por “Le grand bain”, Cannes abriu espaço para risadas também na competição pela Palma de Ouro, com a dramédia japonesa “Shopliflers”, de Hirokazu Kore-eda. Na trama, uma família que vive de trambiques se vê obrigada a adotar uma garotinha sem eira nem beira. Mas a adoção vai mexer com todos, sobretudo o patriarca do clã, Osamu, vivido esplendidamente por Lily Franky, mais forte candidato ao prêmio de melhor ator até agora.

Entre os longas hispano-americanos exibidos em Cannes, deu Argentina na cabeça com um par de títulos carregados de tensão, ambos incluídos na mostra paralela Un Certain Regad – na seleção oficial, em concurso, não há latinos, houve apenas uma projeção de gala de O Grande Circo Místico, de Cacá Diegues. A seleção dos argentinos contou com o policial “El Ángel”, sobre um adolescente que assassinou e assaltou dezenas de pessoas na Buenos Aires dos anos 1970, e com a fábula “Muere, monstruo, muere”, sobre a investigação de um crime no qual um corpo aparece decapitado. Houve espaço também para a Colômbia, que, em coprodução com o Brasil e a França, atraiu holofotes na mostra Quinzena dos Realizadores com “Los silencios”. Este drama visualmente requintado fez barulho no balneário à força da delicadeza da diretora paulistana Beatriz Seigner, capaz de mesclar antropologia e poesia ao narrar uma história de famílias fraturadas numa região insular do Rio Amazonas chamada Ilha da Fantasia, que fi?ca submersa alguns meses do ano.

Nesta terça, a Croisette pega carona na Millennium Falcon, ao lado de Chewbbacca, para singrar o espaço sideral nas aventuras de “Solo – Uma história Star Wars”, o único blockbuster capaz de desafi?ar a hegemonia Marvel com “Vingadores – Guerra Infinita” e “Deadpool 2”. Há quem diga que Harrison Ford, o Han Solo original, virá à Cannes passar o bastão para Alden Ehrenreich, que vive o piloto na juventude.

*Rodrigo Fonseca é roteirista e presidente da Associação de Críticos de Cinema do Rio de Janeiro (ACCRJ)