A cor da fúria... e da glória

Frase ideal para definir a passagem de Shelton Jackson “Spike” Lee em Cannes, com o febril “BlackKklansman”: “Já ganhou!”, uma expressão repetida ontem em coro, em muitos idiomas. Nada que passou até agora pela Croisette é tão necessário, em termos éticos... nem tão bom, em critérios estéticos. É o melhor trabalho do diretor de “Faça a coisa certa” (1989) desde os anos 1990, incômodo, mas iluminador. Produzido por Jordan Peele, ganhador do Oscar de melhor roteiro original de 2018 por “Corra”, este thriller, baseado nas memórias do policial Ron Stallworth, pode enfim dar a Lee a Palma de Ouro de Cannes. De uma ferocidade singular e de uma fluidez narrativa em curva crescente, ao longo de 128 taquicárdicos minutos, o novo filme do mais combativo cineasta negro dos EUA, hoje com 61 anos, faz uma radiografia do ódio em seu país indo muito além da dimensão racial. Há um trabalho de montagem digno de loas e de estudo, capaz de juntar, com harmonia, vinhetas, subtramas, núcleos diversos de personagens, epílogos documentais e um hilário prólogo co. Alec Baldwin. A cereja do bolo é a participação de uma lenda, o cantor e ator Harry Belafonte, já nonagenário.

A trama: em 1979, ao entrar para a força policial do Colorado, o detetive negro Ron Stallworth (John David Washington, em atuação singular) descobre uma célula local da Ku-Kux-Klan e, num telefone, finge ser um racista de carteirinha a fim de se juntar aos supremacistas e antissemitas brancos. Como? Simples, nos papos telefônicos, é ele quem fala e, para as reuniões presenciais, vai seu parceiro de farda, o judeu Flip (Adam Driver, luminoso). Lee parte da investigação de Ron para criar uma engenhosa estrutura de análise crítica do ódio inserido na gênese da América, usando o clássico mudo “O nascimento de uma nação” (1915), de DW Grifith (um dos pilares da gramática audiovisual, porém um estandarte da exclusão dos negros) como eixo histórico de discussão moral.

Enquanto Spike inflamava os ânimos da Croisette, o provocador Lars von Trier montava seu circo do lado de fora, nas escadarias do Palais des Festivals, afim de fazer da projeção do suspense “The house that Jack built” um acontecimento. Polemista de plantão, o diretor dinamarquês - que passou seis anos banido de Cannes após ter dito, em 2011, ao fim da sessão de “Melancolia”, que entendia os motivos de Adolf Hitler para odiar os judeus - está de volta com um thriller sobre o cotidiano de um psicopata (Matt Dillon). Lars solicitou à direção do evento uma equipe médica para quem passar mal em sua sessão, diante das cenas violentas de seu longa, concebido originalmente para ser um seriado. (R.F.)