Literatura: O tecido vivo da estrela

Assim como os tecidos orgânicos na pesquisa dos cientistas, os manuscritos estão vivos – parecem inertes só a olho nu. Quando observados com mais apuro, voltam a se movimentar como se as moléculas das palavras tivessem vida própria. A escrita à mão guarda os gestos tensos e esparramados, repentinos ou lentos da criação: rascunhos, riscos, asteriscos, rasuras, inclinações ou recuos refazem a história do instante em que a obra nasceu. Não são documentos estáticos, mas matéria pulsante. O que dizer, então, da palavra viva de uma autora como Clarice Lispector? E mais: o que revelam os manuscritos da última obra publicada em vida – “A hora da estrela” - em 1977? 

Uma seleção destas, organizada em um caderno de imagens com o acréscimo de ensaios inéditos de pesquisadores e professores, está na edição comemorativa dos 40 anos do romance (Rocco). Avançamos, mais do nunca, em direção à coisa viva, não com anzóis, mas com a ponta dos dedos, seguindo cada minucioso movimento de mãos cansadas, na letra que Clarice dizia estar “péssima” – os nervos das “moléculas”, dispostas no tecido da história de Macabéa por Rodrigo S.M., apresentam-se diante do leitor, que acompanha texto sobre texto: a forma como A hora nasceu e o seu depois, quando vira edição impressa. Uma linda viagem literária e... científica.

Trata-se do testemunho não só da forma (literalmente falando) em que a obra surgiu, co mo também do método de uma autora que tinha urgência em escrever. Muitas vezes, o texto nascia em pedaços de papéis espalhados e que, apesar de não apresentarem coerência olhando de pronto, encontram inesperadamente o caminho e o sentido da coesão. Reler a hora de Macabéa (“pequena flama indispensável: um sopro de vida”) revivendo os passos da criação a partir dos manuscritos chega a ser atordoante – no melhor sentido da palavra. 

“Sempre sonhei com o último texto de um grande escritor. Um texto que seria escrito com as últimas forças, com o último alento. No último dia antes de sua morte, o escritor está sentado à beira da terra, seus pés estão leves no ar infinito, ele olha as estrelas. No dia seguinte o autor será uma estrela entre as estrelas, molécula entre todas as moléculas. O último dia é belo para quem o sabe viver, é um dos mais belos da vida”, escreve Hélène Cixous em um dos ensaios. 

Talvez em razão da beleza dos últimos gestos de que fala Cixous, o fato de o romance ser um texto derradeiro confira aos manuscritos um valor ainda mais intenso. A autora, prestes a partir, pois já estava muito doente, escreve em “A hora da estrela” que “existir é coisa de doido”. Inicia a narrativa com uma promessa de vida – “Tudo no mundo começou com um sim. Uma molécula disse sim à outra molécula e nasceu a vida” – mas finaliza em agonia com a morte da protagonista no queima-roupa do asfalto. Um ciclo orgânico com a palavra pulsando. 

Entre as reflexões que os ensaístas propõem nos textos críticos da edição está a de Nádia Gotlib, autora de Clarice: uma vida que se conta, que analisa ‘A hora da estrela’ em seu contexto social: “Esse romance, que poderia ser considerado uma versão dos anos 1970 do ‘romance nordestino’ de longa tradição na literatura brasileira desde sobretudo os anos 1930, não se detém apenas na indignação e lucidez crítica, um tanto perplexa e comovida, é bem verdade, perante a situação de injustiça social a que a nordestina é relegada como objeto de cultura. Vai mais além, porque se volta para uma perquirição também contra si mesma, questionando a função e o papel do intelectual que se dispõe a representar este extrato cultural”.

De fato, é o próprio narrador quem define seu papel na engrenagem exposta da escrita: “Eu não sou um intelectual, escrevo com o corpo”. Ele coloca sob suspeita a utilidade social daquele que escreve diante do assombro do mundo.

Outras abordagens incluem a incontornável questão que leva à pergunta: por que, afinal, só um narrador homem seria capaz de contar a história de Macabéa, enquanto uma mulher lacrimejaria piegas, como está dito logo de início? Não há respostas concretas para a escolha de Clarice, mas há que se entender que Rodrigo SM é, acima de tudo, a própria linguagem que se constrói à medida em que narra; sua estrutura é o pensamento se organizando enquanto organiza a existência da nordestina capturada de relance na rua. Além disso, não se pode esquecer do momento em que ele se olha no espelho e vê Macabéa – duplos, opostos ou complementares? Máscaras que se sobrepõem, não se sabe quem é quem. SM: Sua Majestade, o autor? Uma fina ironia, é claro. “Vejo a nordestina se olhando ao espelho e – um ruflar de tambor – no espelho aparece o meu rosto cansado e barbudo. Tanto nós nos intertocamos”. 

A leitura dos manuscritos de Clarice Lispector, quase à beira da morte, exige a disposição de se acompanhar algo que tortuosamente se faz. Ouvir o batimento, a respiração da palavra; invadir o segredo de uma gênese oculta. Fica ainda o convite para a brincadeira de justapor em uma outra ordem os fragmentos dispersos e cintilantes e, quem sabe, fazer nascer outras estrelas.  Um jogo de montar clarices. 

* Claudia Nina é jornalista e escritora ([email protected])