O Barão Vermelho de Leningrado

Espécie de “Bete Balanço” da Rússia, “Leto” arrebata Cannes com retrato afetivo da cena roqueira

Nem mesmo o crítico mais ferrenho da estética pop do diretor russo Kirill Serebrennikov teria como justi car a acusação de malversação de verbas públicas que o levou à prisão e impediu sua passagem por Cannes para testemunhar o fenômeno que seu novo  lme, “Leto” (“L’Été”), virou no festival francês. Primeira (e, até agora, única) sensação da disputa pela Palma de Ouro de 2018, este musical eslavo que pode ser de nido como “o Bete Balanço da Rússia” ganhou corações, por sua emotiva reconstituição dos anos 1980, e mentes – sua fotogra a é de um requinte plástico arrebatador –, ao relembrar um tempo em que o rock’n’roll era revolução. A projeção para a crítica mundial, ontem, terminou com choro, ovação e pezinhos batendo ao som de “Psycho killer”, dos Talking Heads.

“A gente não tem acesso ao Kirill, mas ele soube da seleção de Cannes e soube que o festival fez um pedido ao nosso presidente para que ele viesse aqui. Porém, mesmo diante desta circunstância, eu não chamaria ‘Leto’ de  lme político, e sim de painel geracional histórico sobre uma  gura que fez a cabeça de muita gente em Leningrado e fora dela”, explicou o produtor Ilya Stewart ao JB, representando Kirill, cineasta respeitado por  lmes como “O discípulo” (2016). Batizado em referência a uma canção (traduzida em Português como “Verão”), “Leto” revive a saga do compositor e roqueiro soviético de origem coreana Viktor Tsoi (1962-1990), cujas letras serviram de bandeira para uma geração que cresceu vendo a URSS se esfacelar. 

Suas cifras  ertam com a liberdade, cantada com ecos punk à la Ramones por sua banda, Kino. Ele foi “o” poeta de Leningrado, o Leningrado do R-Rock, o roquenrol russo. Krill, que nasceu em 1969, ouviu Tsoi em sua juventude e levou os ideais do músico para seu cinema e para os palcos, onde militava à frente do Centro Gógol de Teatro Contemporâneo até ser preso, em agosto, no  m das  lmagens da saga de Viktor. 

A acusação - uso indevido de verbas públicas – não foi comprovada, o que de agrou uma campanha em Cannes (com bótons e camisetas) por sua libertação. O diretor artístico do evento,  ierry Frémaux, pediu um indulto ao presidente Vladimir Putin para que ele fosse liberado, a  m de participar da sessão de gala de “Leto”, na quarta. A resposta: “Seria um prazer ajudar Cannes, mas, na Rússia, a Justiça é independente”.

“Foi mais complicado conseguir os direitos das canções russas dos anos 1980 do que de hits em inglês”, explicou Stewart, que conseguiu Iggy Pop e Lou Reed para o  lme, arejado por efeitos de animação nas cenas de cantoria coletiva mais próximas de um “ is is spinal tap” Sintonizado com o contexto de repressão da URSS a in uências pop dos EUA, o longa faz jus à irreverência de sua época numa narrativa leve, porém abusada, com muitas deixas para o humor e para suspiros, pois há uma trama romântica entre Viktor e a mulher de um colega, interpretada pela ótima Irina Starshenbaum. Não havia espectador na sala Lumière do Palais des Festivals que não se contagiasse com a trilha sonora e com a atuação de Teo Yoo, ator alemão de origem coreana que vive Viktor. 

“Não sabia falar russo quando entrei no projeto, mas entendia o espírito libertário do homem que eu deveria interpretar. Há um sentimento universal de amor e de criatividade artística nele. E hoje já não passo fome se for a Leningrado, já sei pedir comida em russo”, brinca Yoo. Outro diretor em concurso este ano pode não aparecer na Croisette: o iraniano Jafar Panahi, que há anos está detido em prisão domiciliar, por ter enfrentado interditos morais do governo de seu país em  lmes aclamados como “O balão branco” (1995). Isso não impediu que ele ganhasse o Urso de Ouro, em 2015, com “Táxi Teerã”, sua obra-prima até agora... em que seu desejo é dar uma Palma dourada ao Irã, apoiado na experimentação de linguagem de “3 Faces”, seu novo longa, agendado para este domingo. Trata-se de uma experiência metalinguística entre fato e  cção, na qual o cineasta e uma atriz viajam por um vilarejo onde uma jovem foi proibida de estudar Teatro.

Panahi só faltará por proibições políticas. Já o suíço Jean-Luc Godard (nascido em Paris em 1930), que concorre à Palma com “Le livre d’image”, deve faltar por provocação voluntária. Os últimos trabalhos dele por aqui – “Filme socialismo”, de 2010, e “Adeus à linguagem”, de 2014 – foram exibidos sem a presença do mítico realizador de “Acossado” (1960), que dá bolo no festival alegando desculpas esdrúxulas do tipo: “Faltei em respeito à crise econômica da Grécia”. Seu longa mais recente, centrado em fake news, embaralha fabulação e documentário, abordando Estado Islâmico e imperialismo.

Esta madrugada, Cannes vai tremer de frio, pelo menos na telona, ao acompanhar a luta de Mads Mikkelsen (o astro de “A caça”) para sobreviver à aspereza glacial retratada em “Artic”, thriller de sobrevivência pilotado por um cineasta nascido em São Paulo, Joe Penna, sucesso no YouTube. A produção foi escalada para a seção Midnight, voltada a tramas de tensão ou terror em temperatura máxima... no caso, mínima. Mikkelsen vive um explorador do Ártico que precisa ser resgatado antes que uma hipotermia o derrote. Mas não será fácil. 

* Rodrigo Fonseca é roteirista e presidente da Associação de Críticos do Rio de Janeiro (ACCRJ)