Elza em dose tripla

Cantora sai este ano com novo disco, biografia e terá musical inspirado em sua vida

Oito é o número do infinito. Elza também parece ser. Infinita. Prestes a completar 88 anos com brilho no olho e uma energia invejável, a cantora-fênix consegue fôlego para viver as emoções do lançamento de mais um disco – “Deus é mulher” (Deck) -, uma biografia e a estreia de um musical sobre sua vida. Tantas realizações no ano de 2018 merecem festa e, na última terça-feira, a cantora recebeu um grupo de amigos em seu apartamento na Av. Atlântica, para uma audição privée do novo trabalho. 

Do novo disco, o 81o da carreira e que sai dia 18, apenas o single “Banho”, de Tulipa Ruiz, já era conhecido dos cerca de 30 convidados, por estar nas plataformas digitais há duas semanas. Dirigido e produzido por Guilherme Kastrup, com coprodução de Romulo Fróes, Marcelo Cabral (baixo e bass synth), Rodrigo Campos (cavaquinho e guitarra) e Kiko Dinucci (guitarra, sintetizador e sampler), a mesma turma paulista do disco “A mulher do fim do mundo” (2015), “Deus é mulher” tem 11 músicas, assinadas por outros compositores como Alice Coutinho, Mariá Portugal, Luciano Melo, Pedro Loureiro, Edgar e Pedro Luís, o autor da canção “Deus há de ser”, de onde Elza tirou o título do disco. 

Depois de um menu com direito a paella e medalhão de filé, os privilegiados, entre eles artistas como Charles Gavin, B Negão, Ava Rocha e Milton Cunha, os aplausos fervorosos, faixa a faixa, indicaram que “Deus é mulher” promete surpreender mais uma vez. Com refrões e frases como “A mulher de dentro de cada um não quer mais silêncio”, “Meu país é meu lugar de fala”, “Exu nas escolas”, “Eu quero dar pra você, mas eu não quero dizer, você precisa aprender a ler”, “Não obedeço porque sou molhada”, Elza Soares reforça sua imagem de mulher antenada com seu tempo. “Meu tempo é now!”, repete a diva, vestida em um terninho branco, com os cabelos e unhas impecavelmente arrumados.

Gravado em dez dias entre os estúdios Red Bull (São Paulo) e Tambor (Rio), o disco, que mistura pop, samba, rock e frevo, com estética eletrônica, deu uma canseira: “Confesso que depois fiquei uma semana de cama, com estafa, mas, como sempre na vida, não tive tempo pra sofrer. Estamos em uma nova era, conduzida pela energia feminina. Agradeço tanto a Deus, que hoje fica fácil. Deus é mãe!”, diverte-se, falando sério.

O fim de uma era machista e preconceituosa, ela já cantou em “A mulher do fim do mundo”, que ganhou o Grammy Latino como o melhor trabalho de música popular brasileira e foi escolhido pela APCA (Associação Paulista dos Críticos de Arte) como o disco do ano. O trabalho, segundo seus produtores, renovou o público de Elza que antes tinha de 50 a 60 anos, em média, e passou a ter uma galera de 19 a 35 anos, que se identifica com as bandeiras que a cantora levanta em defesa da mulher, do negro e do homossexual, contra qualquer discriminação. Entre uma taça e outra de champanhe sem álcool, descoberto na primeira classe de uma de suas viagens de avião, e suco de laranja, Elza vibrava, o tempo todo sentada na janela voltada para o mar, porque “de pé, a coluna não aguenta” – “Que venha mais um Grammy!!”. Ela comentava que não toma bebida alcoólica porque tem trauma – referência ao casamento com o craque Garrincha, que sofria de alcoolismo. “Tenho dedo podre para homem e hoje prefiro estar sozinha em paz. Ninguém deve ficar de joelho ralado pra ninguém”, alerta.

Além da música, sua vida pessoal também deve figurar do musical “Elza”, com texto de Vinícus Calderoni, direção de Duda Maia e direção musical de Pedro Luís, que a produtora Andréa Alves (dos premiados “Gonzagão”, “Auê” e “Suassuna – O auto do Reino do Sol”) leva ao Teatro Riachuelo, a partir de 19 de julho. “A mulher ainda sofre muito calada. As que vivem no campo, então, nem se fala! Fico muito mobilizada. Espero que a minha voz e a minha história ajudem a mudar isso”, anima-se a musa inspiradora. São décadas de histórias de superação e reinvenção de uma mulher que sempre esteve à frente de seu tempo, como constata o jornalista Zeca Camargo, em encontros semanais com a diva, para recolher material para a biografia que está escrevendo. “Percebi que a Elza sofreu muito racismo quando ainda era jovem e que assim que descobriu o início dos movimentos contra o preconceito se sentiu à vontade para botar a boca no mundo”. O livro sai em setembro pela editora Leya. 

*Patricia Terra é jornalista e documentarista