"Desejos de provocar e cutucar", destaca crítica sobre "Desejo de macar"

Esperava-se pouco do remake o clássico de Charles Bronson, que dominou as madrugadas brucutus globais nos anos 1980. O original data de 1974 e mostrava o arquiteto Paul Kersey sendo surpreendido pela onda de violência que varria o país, sua família e o transformava em vigilante noturno.

Quase 45 anos depois e o estado crítico da sociedade involuiu para aquele momento mais uma vez, e faz sentido que este novo petardo crítico-social volte a dar as caras, desta vez com a pitada mordaz de Eli Roth, que decora em crescendo essa narrativa do desespero e da denúncia. O bastão de Bronson é passado para um seguro Bruce Willis, que reveste de sensibilidade a dor que, em Bronson, era desértica. No nosso tempo, as ruas das grandes cidades voltaram a ser palco do horror cotidiano, no qual o lobo solitário Kersey uiva para matar.

Agora um médico cirurgião, o remake do original de Michael Winner justica com na ironia a troca de prossão; anal, o homem que lida diariamente com sangue em seu “escritório”, é soterrado pelo sangue também dentro de casa e passa a fazer do sangue a sua razão de perseverar.

Roth, um diretor que todos se acostumaram a ver em ligação direta com o cinema de gênero, consegue algo insuspeito: em clima de escalada, a violência vem em camadas graduais, até se tornar insuportável, que propõe um completo exercício de imersão da plateia. Aliado ao grito de mais um autor entregando o absurdo com a qual os americanos lidam com o armamento maciço, o lme é uma montanha russa de sensações, com trilhos montados em delicado equilíbrio. (FC)