‘Limpe o assoalho, Daniel San’

Não adianta esperar pelo Sr. Miyagi: com a morte do ator Pat Morita (em 2005), Daniel San  cou sem sensei para encarar os desa os da série “Cobra Kai”, “o” fenômeno midiático da vez na internet, veiculado como um canal do YouTube Red (plataforma de exibição paga, como a NetFlix), baseado na mítica em torno do  lme “Karate Kid – A hora da verdade” (1984). Aliás, nem mais protagonista Daniel LaRusso (uma vez mais encarnado por Ralph Macchio) é agora: seu adversário há 34 anos, o bad boy de cabelinho louro Johnny Lawrence, encarnado por William Zabka, assume o eixo central de uma narrativa serializada em dez episódios.

Os dois primeiros estão distribuídos gratuitamente, e tiveram 100% de aprovação entre os internautas graças à mistura de humor, artes marciais e saudosismo. O tempo foi cruel com os dois atores, aqui também creditados como produtores. Temos imagens do longa-metragem original, cuja direção coube ao mesmo realizador de “Rocky, um lutador” (1976): John G. Avildsen, morto ano passado, aos 81 anos. Mais cruel foi a realidade de seus personagens. Coqueluche na década de 1980, o primeiro “Karate Kid” (houve mais quatro sequências com Miyagi e uma re lmagem em 2010, com Jackie Chan) custou US$ 8 milhões para sair do papel e faturou US$ 90 milhões apenas nos EUA – estima-se que, mundo afora, o longa tenha feito mais uns US$ 100 milhões.

Nele, LaRusso é um órfão de pai pobretão de Nova Jersey que se muda com a mãe para Reseda, onde vira saco de pancada nas mãos de Johnny e seu bando até virar aprendiz do zelador Miyagi. Agora na série, três décadas depois, LaRusso virou coxinha: é um empresário dono de uma concessionária de carros classe AA e um pai de família submisso à sua mulher dondoca. Já Johnny desceu aos infernos: vivendo de bicos, consertando  ações e instalando TVs, ele virou um bêbado caído em desgraça. Mas, ao ajudar um jovem latino com seus dotes para o caratê, quebrando a cara de um grupinho de valentões, ele enxerga em seu velho quimono preto do dojô Cobra Kai uma salvação. Decide então reabrir a academia e fazer de jovens afoitos por revanches seus pupilos. Mas Daniel não vai deixar o caso sair barato.

“O ‘Karate Kid’ original apresentou ao mundo um desajustado que encarnava a fase de total deslocamento pela qual milhões de adolescentes passavam, sonhando em pertencer a algo”, explica o cineasta americano Derek Wayne Johnson, que abordou o simbolismo de Daniel San no documentário “King of the Underdogs”, sobre o cinema de Avildsen. “A partir da amizade com Sr. Miyagi, vemos o personagem de Macchio se transformar, saindo da condição de garoto assustado para homem valente. Isso era uma inspiração que mudou a minha vida” 

Em apenas dois dias no ar, “Cobra Kai” ganhou a liderança dos assuntos mais discutidos na rede e devolveu a seus astros um prestígio há tempos perdido, uma vez que nada feito por eles fora da franquia Karate Kid teve o mesmo impacto popular. Os dois foram ovacionados quando o piloto da série foi apresentado no Festival de Tribeca, em Nova York, em sessão especial. A maior curiosidade da plateia era saber se o vilão da série nos anos 1980, o sensei Kreese, vivido por Martin Kove, voltará no seriado. Fora o duo de capítulos introdutórios, os oito demais episódios só podem ser visto mediante o pagamento de uma taxa. No Brasil, a grife “Karate Kid” tornou-se ainda mais conhecido graças a suas sucessivas reprises na “Sessão da tarde”, na qual Johnny era dublado por Mario Jorge (a voz do Burro Falante de “Shrek”). 

“Johnny não era um vilão. No fundo, era um garoto legal. E eu, na época dessa dublagem, que ainda era um novato, perdia os loops (as falas) vendo atores do porte de Seu Magalhães Graça e Cleonir dos Santos dublando Miyagi e Daniel”, diz Mario Jorge. “Naquela época, ‘Karate Kid’ foi uma febre no país”. Diante do ardor dos fãs (de novas gerações) em torno de “Cobra Kai”, já se especula a criação de outras séries para o Youtube Red, derivadas de  lões bem-sucedido dos anos 1980. Surge uma especulação em torno de “A Super Vicky” e “Primo Cruzado”. 

* Rodrigo Fonseca é roteirista e presidente da Associação de Críticos de Cinema do Rio de Janeiro (ACCRJ)