Reabre o Teatro Adolpho Bloch

Projetada por Oscar Niemeyer, sala lembra a do Teatro Villa-Lobos e volta à ativa

Fechado há 18 anos, o Teatro Adolpho Bloch, na Glória, ficará aberto pelos próximos dez, na melhor das hipóteses, pelo acordo feito entre a Aventura Entretenimento e os atuais donos do prédio, que foi projetado por Oscar Niemeyer e inaugurado em 1965 para abrigar a extinta Rede Manchete (o prédio é tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional - Iphan). A próxima década de funcionamento está garantida pelo arrendamento.

A reabertura acontece com pompa na estreia hoje (fechada para convidados) da nova versão do espetáculo “O musical da Bossa Nova”, de Rodrigo Faour e Sergio Módena, que assina a direção geral da montagem. A direção musical é de Délia Fischer. No elenco estão Claudio Lins, Marcelo Varzea, Nicola Lama, Stephanie Serrat, Jullie, Andrea Marquee, Ariane Souza, Eduarda Fadini, Juliana Marins e Tadeu Freitas.

Em parte, a reabertura do teatro representa uma injeção de ânimo, com moderação, na produção cultural do Rio, que vive dias de UTI. Os equipamentos culturais da esfera pública, respirando por aparelhos, ou estão fechados ou virando esqueletos (caso do Teatro Villa-Lobos). No bairro da Glória, a volta à ativa da sala de 350 lugares tem função relevante. Ninguém se esquece da demolição do Teatro Glória, em 2010, parte da infeliz reforma iniciada no tradicional hotel pelo empresário Eike Batista.

Carmen Mello, produtora de Fernanda Montenegro e outros proeminentes nomes do teatro brasileiro, fez um post recentemente em sua página no Facebook listando 33 salas teatrais fechadas na cidade, ou, como definiu, “um obituário do teatro no Rio”: “Trabalho há 40 anos como produtora teatral. Vivemos um momento sombrio e trágico. É preciso parar e pensar. Um bairro sem teatro é um lugar sem identidade. O teatro me educou. Se as salas vão sendo fechadas, perdemos contato com pensadores, autores, atores, enfim, com o progresso. Torço pela vida do Teatro Adolpho Bloch”, afirma.

Uma das sócias da Aventura Entretenimento, Aniela Jordan jura que assistiu 35 vezes ao musical “Pippin”, com Marco Nanini e Marília Pêra, cenografia de Gianni Ratto, sob direção de Flávio Rangel, no antigo Teatro  Manchete, em 1974. A sala teve nobres temporadas, tais como “Tudo bem no ano que vem” (1976), com Glória Menezes, Tarcísio Meira e Carlos Martins; e “O pagador de promessas” (1970), de Dias Gomes, com 34 atores em cena, as duas montagens também dirigidas por Rangel (dados da Enciclopédia Itaú Cultural).

“Trabalho com teatro há 30 anos. Comecei fazendo iluminação no Theatro Municipal até me tornar produtora. O antigo Teatro Manchete tem muita importância na minha história, fui uma adolescente ‘maluca’, capaz de assistir 35 vezes a ‘Pippin’”, lembra. “Nos orgulha conseguir o teatro aberto novamente. Depois que transformamos o Cine Palácio no Teatro Riachuelo acho que é possível fazer tudo”, diz. Segundo ela, os deuses do teatro conspiraram, pois o investimento não foi alto para reforma. “A empresa que adquiriu o prédio reformou o teatro e tivemos apenas que estruturar com varas, luz e som. A plateia tem as mesmas cadeiras de veludo vermelho dos anos 1970. É um projeto arquitetônico incrível. O palco é excelente, mas não cabe musical estilo superprodução”. Média-produção, comemorativa dos 60 anos do gênero, “O musical da Bossa Nova” é quase um show, constituído por 84 músicas que traçam a história de um dos movimentos mais importantes da música nacional, com pitadas de curiosidades e alusão a episódios da época, como conta o autor Rodrigo Faour.

É a terceira versão da peça, que não fez sucesso inicialmente no Teatro Riachuelo, tornou-se um pocket show e foi montada no Clara Nunes, depois ampliada para temporada em São Paulo, com lotação esgotada por três meses. O premiado autor, ator e diretor Gustavo Gasparani, responsável pela primeira versão foi quem indicou Faour e Sergio Módena para assumirem o bastão na nova carreira do espetáculo. “É impossível contar a história da Bossa Nova em duas horas, mas, na época, fizemos uma coisa bem simples, hoje é quase uma aula. A própria história da Bossa Nova, a evolução dela, é que vai levando a minidramaturgias”, conta Faour.

O autor, um dos principais pesquisadores da música brasileira na atualidade, vai além. “A peça é didática, mas acho importante, porque o Brasil tem memória tão negligente que a Bossa Nova é fenômeno mundial, levou a música do Brasil para o mundo inteiro e é vista como ultrapassada. Reavivar a memória das pessoas é de grande importância”. Em cena, poucas esquetes evocam os artistas da época. Claudio Lins e Nicola Lama, por exemplo, reproduzem o encontro de Tom Jobim e Frank Sinatra. No vasto repertório estão as músicas “Ela é carioca” (Tom Jobim e Vinicius de Moraes), “Samba da minha terra” (Dorival Caymmi), “Chega de saudade” e “Garota de Ipanema” (Tom e Vinicius).