À beira de um ataque de fraternidade

Cérebro financeiro por trás dos filmes de Almodóvar, seu irmão, Agustín, dá detalhes da nova obra

Assim que esquadrinhou a equação financeira de “Dolor y gloria”, o novo longa-metragem do espanhol Pedro Almodóvar, seu irmão (seis anos) mais moço, Agustín, dimensionou para si um pequeno papel para atuar ao lado de Antonio Banderas. Desde 1978, quando ajudou seu mano no curta-metragem “Salomé”, atuando, esse ex-químico e professor de Ciências, pai de dois filhos adultos, sempre dá um jeitinho de roubar uma ponta para aparecer nos filmes que ajuda a tirar do papel. 

Quando as produções são dirigidas por outros – como é o caso de “Zama”, de Lucrecia Martel, hoje em cartaz no Brasil e laureada no domingo com três troféus na entrega do Prêmio Platino, o Oscar da latinidade – ele fica apenas nos cálculos financeiros. Mas o faz com o empenho de quem sabe o valor do intercâmbio entre culturas cinéfilas.

“O melhor cinema espanhol da atualidade é feito fora da Espanha, na América Latina, onde se filma com liberdade e com gosto pelo risco estético. Os espanhóis filmam hoje preocupados com o potencial comercial e não com o senso de descoberta. No meu país temos Pedro, mas há, por outro lado, um esquecimento em relação à tradição. Nomes como Luis García Berlanga, muito importante no passado por sua ousadia narrativa, precisa ser redescoberto pelos jovens, que não ouvem mais falar dele, assim como não se fala mais em Carlos Saura”, disse Agustín ao JB na cerimônia de entrega do Platino, no México.

Ele e a produtora mineira Vania Catani foram defender “Zama”, que nasceu de uma operação conjunta entre empresas como a El Deseo, dos Almodóvar, e a Bananeira, dela. 

“Tanto como produtor quanto como espectador, gosto de propostas cinematográficas que se arriscam artisticamente. E esse tipo de narrativa está em solo latino, onde existe um cinema muito bom. No contato com a Bananeira, de Vania, aprendi que o Brasil, embora viva hoje em meio a conflitos, conta com dispositivos de apoio ao cinema. É importante que um país do tamanho e da complexidade cultural do Brasil tenha a preocupação de apoiar seu cinema. Conseguimos fazer ‘Zama’ por um caminho de intercâmbio que considero muito valioso”, diz Agustín, que, desde 1988, quando encampou o projeto do irmão de lançar “Mulheres à beira de um ataque de nervos”, afastou-se de seus compromissos com aldeídos e cetonas para investir na química do cinema, produzindo longas e estabelecendo coproduções com a América do Sul, entre elas o cult “Relatos selvagens” (2014).

Mas seu desafio atual é colaborar com Pedro no desenvolvimento de “Dolor y gloria”, sobre o confronto de um cineasta (Banderas) com suas escolhas pessoais de um pretérito imperfeito. “Na sexta passada, terminamos a primeira semana de pré-produção, fazendo a escolha do elenco. Volto agora para a Espanha, a fim de buscar locações e resolver detalhes que são imprescindíveis para as filmagens, coisa que Pedro faz de uma maneira bem peculiar: ele filma o roteiro na ordem em que as coisas se passam na história, de modo a manter os atores unidos, com uma energia que corresponde à ordem ficcional da evolução dos eventos. Em geral, as filmagens obedecem uma ordem de conveniência.

Às vezes, um set começa pelas cenas finais, por razões orçamentárias. Com Pedro, não”, explica Agustín, nascido em Calzada de Calatrava, há 63 anos. “Esperamos filmar na segunda quinzena de julho. Trabalhamos com um orçamento estimado entre €7 milhões e €8 milhões, que é o custo médio de nossos filmes nos últimos anos”. Bom de conta, Agustín lembra que havia também uma média alta de espectadores para os melodramas de Almodóvar. Mas esse número vem mudando por conta das novas mídias digitais. “No fim dos anos 1990, os filmes de Pedro chegavam a somar 2,5 milhões de pagantes na Espanha. Mas hoje, tem menos gente indo ao cinema. Porém, essa gente ainda é fiel a nossos filmes: elas agora assistem aos longas da gente em outras plataformas. Acabei de vender nosso catálogo à Netflix”, explica o produtor. 

“Nossos filmes somam hoje cerca de um milhão de espectadores espanhóis. Mas ele ainda é consumido. Houve recentemente um festival na Europa que fez uma retrospectiva nossa e estava cheio de gente com menos de 20 anos (agora, em maio, a Caixa Cultural do Ceará fará um evento integral do cineasta). Tem sempre alguém acompanhando o que Pedro faz, mesmo que em formatos diferentes. Mas eu fico feliz quando o primeiro contato das pessoas com nossos filmes se dá pela tela grande”.

*Rodrigo Fonseca é roteirista e presidente da Associação de Críticos do Rio de Janeiro (ACCRJ)