Rap com ginga e afeto

Rincón Sapiência apresenta esta noite o premiado álbum ‘Galanga livre’ na Lapa

“Pretos e pretas estão se amando”, “os crespos estão se armando”, adverte o rapper Rincón Sapiência. O ataque poético do álbum de estreia, o premiado “Galanga livre”, é frontal, em um resgate ao rap crítico de outros momentos da história da música. O artista de São Paulo apresenta o trabalho esta noite, no Circo Voador, com a banda O Quadro. Quando lançou o disco em maio do ano passado, Rincón queria resgatar a cultura do MC, da primazia das letras e das histórias. 

“Os papéis do ativista e do artista andam juntos, mas, em primeiro lugar, sou artista. Ao fazer qualquer crítica, procuro criar um texto bonito, um encaixe de palavras legais, um ritmo bom de se ouvir. Por mais que exista esta acidez, tento colocar a beleza da arte”, diz o rapper, que passa pela capoeira e pelo blues, pelo coco, Tropicália e afrobeat, com uma pegada rock and roll, para ir da fuga do Galanga— personagem mítico do monarca africano que, escravizado e trazido ao Brasil, conseguiu libertar a si e a outros escravos, ficando conhecido como Chico Rei — a reflexões sobre resistência, amor, justiça e liberdade.

O álbum “Galanga livre” concorreu ao prêmio Bravo! de “melhor disco”, no mês passado, disputando com “Caravanas”, de Chico Buarque, e “Letrux, em noite de climão”, de Letícia Novaes. Ganhou. Em 2017, já havia sido vencedor do Prêmio Multishow, nas categorias de “melhor produção musical” e “melhor capa”. Rincón também foi considerado “Revelação do ano” na mesma premiação e ainda levou o prestigiado prêmio de “artista do ano” pela Associação Paulista dos Críticos de Artes (APCA).

Nascido e criado no bairro de Itaquera, Zona Leste de São Paulo, o artista iniciou carreira em 2000, em grupos do bairro. Desenvolveu atividades sociais como oficinas de poesia e debates, ganhou campeonato de improviso no Fórum Social Mundial de 2005 e, no mesmo ano, se aliou ao selo Plano Áudio, idealizado pelo rapper Kamau, com o qual lançou a primeira faixa, “Aventureiro”. Em 2009, foi a vez da expressiva “Elegância”, que teve videoclipe exibido pela MTV em 2010, indicado ao VMB do mesmo ano na categoria Rap. “Acostumado a passar por despercebido / exceto quando tão procurando bandido / a conclusão pra evita ando bem-vestido / conforme a grana que vem tenho permitido / bom preço fio tenho um bom brechó”, dizia a letra de “Elegância”.

De 2009 para cá, o caminho foi de persistência”: “Até as coisas se encaixarem... havia muitas incertezas, e também foi um caminho de pesquisa e amadurecimento, um processo, pelo qual consegui sair de um lugar que estava muito parecido com o que já era feito, para um trabalho mais próprio, em questão de linguagem, estética. Foi um tempo longo, mas necessário”, conta.

Na opinião de Rincón, o mundo experimenta uma “pluralidade maior”, apesar dos discursos polarizados. Otimista, pensa que, por outro lado, “as pessoas estão querendo se encontrar mais, se organizar mais, se expressar mais, e neste processo têm surgido coisas interessantes”. E vê luz no fim do túnel: “Pode ser que tudo faça parte do processo de construção de novas linguagens na arte e em geral. No contraponto da crise, estão surgindo ideias corajosas e interessantes, pessoas dispostas a atuar, debater e aparecer”.

Tal pluralidade se expressa também na cena do rap brasileiro. “Já temos a linguagem LGBT dentro do rap, garotas atuando de forma relevante, cenas fortes em Belo Horizonte, Fortaleza, saindo do Eixo Rio-São Paulo. Vejo a cena do rap mais interessante, principalmente pra quem consome esta música.” Rincón está de volta ao Rio depois de elogiada passagem pelo Lollapalooza deste ano, e com novas parcerias na bagagem, com as cantoras Iza e Karol Conka.  

Serviço

Rincón Sapiência e O Quadro 

Circo Voador (Rua dos Arcos s/n ? Lapa; Tel.: 2533-0354) 

Hoje, às 22h 

Ingressos: R$ 80 e R$ 40 

Classificação: 18 anos