O relâmpago, o violino e o precipício

Musicista e poeta, Denise Emmer lança seu 14º livro de versos, “Discurso para desertos”

Estava revisitando poemas do Ivan Junqueira e, ao reler “Oh, deâmbula alma inquieta”, pensei em Denise Emmer. Em seu último livro de poesia, “Discurso para desertos”, lançado em março último, e na própria poeta. Diz Ivan: “Ó deâmbula alma inquieta,/ porque te moves às cegas/ neste ermo que se enovela/ entre o que és e o que pareces?/ Por que te pões tão secreta,/ se debaixo de teus véus/ todos logo te percebem/ nos mil papéis que interpretas?/ (...) Não te basta o que é terrestre? Por que buscas o mistério no abismo que desconheces?”.

Ivan dedicou para Denise o poema “A música dos mestres”. Mas poderia ter dedicado “Ó deâmbula alma inquieta”. Carne morena, Denise Emmer traz sua pálida alma à flor da pele. Alma inquietíssima. Assim como sobe montanhas e toca vários instrumentos, ela não consegue parar de escrever poesia, tanto que “Discurso para desertos” é seu 14 º livro de poemas. Tem que se expressar liricamente. Eu entendo. Vivi com um poeta. Ivan não tinha o escape da música. Também não tinha o acesso à vertigem das rochas e das estrelas. Vivia a ponto de explodir. Sem a poesia, Beethoven, Bach e as óperas de Mozart, explodiria.

Graduada em Física e em Música, Denise estagiou no Observatório Nacional, ouvindo a música das esferas. Creio que, sem os astros, sem aquele piano longínquo que existe lá no fundo do Universo, tocado por Deus, e sem a poesia, ela correria o risco de explodir também. Pois é uma pessoa pouco falante e introvertida, que transfere para sua lírica contida toda a capacidade de comunicação verbal.

Todas as facetas de Denise Emmer são bem-sucedidas, a de violoncelista, alpinista e poeta. Pois, sem dúvida, Denise Emmer é poeta. E não estou aqui fazendo esta afirmação categórica com base nos prêmios que recebeu, mas, sim, pela leitura de seus versos. Este seu último livro tem preciosidades, como os dois poemas “Ao parvo” e “Ainda ao parvo”.

Espécie de autobiografia, eis o primeiro: “Ele me diz:/ Nasceste em berço esplêndido/Tua mãe e teu pai quando voavam/Pelas ondas siderais dos palacetes/ O régio amor então a conceber-te/ E estás aí/ A soma de dois  mundos/ És um número/Sem tantos algarismos/ O nariz fino que herdaste da materna/ E da paterna a álgebra sinistra/ Dos macambúzios mudos e autistas./ És uma folha em branco de revista”.

Quanto ao poema “Ainda ao parvo”, é rápido como um raio: “E a música de onde adviria?/ Da união de um piano/ Com um relâmpago?/A poesia, bem sei, veio do espanto/ quando nadei do útero ao mundano”.

“A pequena elegia para Marcos”, o irmão que morreu na infância, é tocante. Transcrevo aqui a abertura e os últimos versos: “Nasceu meu pequeno irmão/ De um livro raro e sonoro// Desses quando ao se abrir/ As flautas batem as asas// Dizer que nasceu do nada/ É esquecer pai e mãe// Os mesmos que me moldaram/ Em barro e geometria// Ele envolto em melodia/ Era Beethoven em menino// Dos pátios regia os sinos/ E as estrelas canoras// Hoje na fria masmorra/ ele toca para o nada// (...) Um dia que já não tarda/ Tocaremos na harmonia// O duo das cordas frias/ E o que mais nos aguarda”.

Há também um poema para o Filho Arthur, intitulado “Dois gatos”, com o qual me identifiquei muito: “Meu filho mora na tarde/ Desperta o meu antídoto/ Ele me fala chip/ Eu lhe respondo livro/ Somos dois gatos siameses/ que se lambem esquivos”.

E mais autorretratos, como “Nem sei”, “Geminus signum” e “Eu”. Em “Nem sei”, ela descreve a dualidade interna: “Sou a dor/ E o sorriso/ O novo e o mais antigo/ O meu inverso/ Perigo/ Meu lapso/ Fogo amigo/ Não sei/ Quem serei/ Em instantes/ Se como agora/ Ou antes”. No poema “Geminus”, ela fala das “múltiplas faces rios e denises”, a águia aventureira e a poeta. 

Em “Eu”, Denise menciona a Lua, a Via Láctea e se transforma num ser alado: “O lábio fino da Lua/ É o meu reflexo no rio,/ Curvada ao sol da noite/, As mãos espalmando a terra/ Vejo-me reetida/ Através do prisma branco/ Os cabelos da Via Láctea/ Jogo por cima da noite/ Meus gestos vagam nas ondas/ qual um feliz fantasma// Batem lentas minhas asas (...). Enquanto em “Cismas da Lua”, o pálido satélite fica mais bravio, pois “quando cheia a Lua/ Saem os lobisomens/ Das matas frias e de não sei onde/A ventania esquiva despenteia a tarde/ E sussurrando rege /A lei da gravidade”.

Denise vive num mundo de música, estrelas, pedras e precipícios, sendo que o maior precipício é ela mesma, como nos conta em “Monte”: “Dou passos/ Por entre abismos/se me arrisco, nem tanto/ Por ser tão rijo/ o meu monte/ Leva-me qual um amante/ Com suas frases de vento/ Ele me chama e me quer/ Mas alto que sua cruz/ Erguida nos ombros de Deus// O precipício sou eu”. Seu corpo frágil e sua imaginação potente oscilam entre a visão do mar e do deserto como nos revela em seu poema “Discurso para desertos”. Pois os desertos “São o resumo/ Do mundo; Lá/ o nada e o tudo/ Comungam os céus contrários (...) E “Entre o mar e a montanha/ “Num intervalo do mundo/ Ele (o homem) habita seu escuro/ E ventanias sem rumo..”

A poeta vidente nos ensina algo que já sabemos, mas da qual nunca  devemos nos esquecer. Quando acabamos de perder alguém, o morto ainda fica conosco algum tempo. Mas quando o tempo vai passando, eles vão ficando distantes, distantes, até irem embora completamente. A primeira lição está em “Prólogo” e a segunda em “Meus mortos já vão longe” Em seus 46 poemas, Denise não usa pontos e recorre a pouquíssimas vírgulas. Abre todos os versos com maiúsculas, como se fosse uma alegórica caixa alta. Trabalha com rimas internas, toantes ou soantes.

Editado pela Escritura, com um sol de alvorada que queima o deserto na capa, se tem uma coisa nesta obra de Denise Emmer de que não gostei foi o título: “Discurso para deserto”. Pura poesia, o livro está muito longe de ser um discurso. Só se for discurso dos santos do deserto, Santo Antão e São Simeão o Estilita, que viveu em cima de uma coluna de pedra. 

*Cecilia Costa é jornalista e escritora