MPB4: Essência mantida após 50 anos

Maior grupo vocal do país leva repertório de inéditas e sucessos a show em Copacabana

O que seria uma aventura de quatro jovens numa viagem de férias escolares acabou se tornando o início da brilhante carreira musical do grupo MPB4. Era 1965 e os adolescentes Ruy, Magro, Aquiles e Miltinho, que haviam formado anteriormente o Quarteto do Centro Popular de Cultura (CPC), ligado à  Universidade Federal Fluminense e União Nacional dos Estudantes (UNE), partiram de Niterói para São Paulo, a fim de tentar participar do “Fino da Bossa”, o programa de televisão de grande audiência, que era apresentado por Elis Regina e Jair Rodrigues. “Eu era o mais novo, estava no segundo ano clássico, Miltinho e Magro cursavam Engenharia e Rui já trabalhava. Não só conseguimos nos apresentar no programa, como em outros das TVs Record e Tupi. Arrumamos até um empresário! Então decidimos voltar para Niterói sim, mas para avisar que seguiríamos carreira artística”, relembra Aquiles Reis. Com essas e outras muitas história para contar, o MPB4 está na estrada com o show  “O sonho, a vida, a roda viva!”, que marca os 50 anos de carreira e passa hoje pelo Rio, no Theatro Net Rio, às 21h. 

A participação do MPB4 defendendo “Roda viva” no Festival da Record de 1967, ao lado de Chico Buarque - classificada em terceiro lugar, atrás de “Ponteio”, de Edu Lobo e Capinam, e “Domingo no parque”, de Gilberto Gil - consagrou o grupo em todo o país e rendeu convites para shows fora do eixo Rio-São Paulo. 

Aquiles conta que o grupo passou por muito sufoco na época da ditadura militar, porém  jamais  arrefeceu, a não ser  quando Chico Buarque decidiu interromper as apresentações ao vivo. “Nós nos apresentávamos com ele e isso nos abalou. Foi uma época em que ficamos sem matéria-prima, pois todos os compositores estavam no exílio ou sob censura. Além disso, nosso contrato com a Record tinha encerrado”, rememora Aquiles sobre a quase desistência do grupo. “Mas então veio nossa participação no Festival da Tupi do Rio com a canção ‘Amigo é pra essas coisas’,  que foi classificada em segundo lugar. Ela é muito significativa na nossa carreira, pois nos fez perceber o quanto ainda fazíamos a cabeça das pessoas”, conta.    

Hoje, o cantor se diverte ao relatar episódios tensos que o grupo passou para driblar - nem sempre conseguindo - a censura: “Nós montamos um besteirol chamado ‘República do Peru’ no Teatro Fonte da Saudade, na Lagoa. O primeiro fim de semana foi um sucesso que nem esperávamos. Aí, na semana seguinte, encontramos um oficial na porta dizendo que o show havia sido proibido na íntegra. O argumento foi que o nome poderia criar problemas diplomáticos com nosso vizinho Peru! Era sempre assim: fazíamos um show, censuravam; fazíamos um recital, proibiam no dia seguinte”.   

Formado atualmente por Aquiles (voz), Dalmo Medeiros (voz e viola), Miltinho (voz, violão e direção musical) e Paulo Malaguti Pauleira (voz, teclado, direção musical), o MPB 4 passou por duas perdas nos últimos anos. “Foram situações traumáticas por diferentes motivos. Não esperávamos a saída do Ruy e, depois, a morte do Magro “. Dalmo e Paulo, que entraram para substituí-los, se adaptaram harmoniosamente ao formato. 

“No início dos ensaios, percebemos que a sonoridade se manteve, não houve mudança na essência do MPB4”, afirma Aquiles. Porém, em mais de 50 anos de atividades, é normal que surjam pequenas adaptações, ainda mais em um trabalho que exige tanto da voz. “Quando comecei, tinha 17 anos e fazia a quarta voz, a mais grave, e Miltinho fazia a terceira. Depois, a gente trocou. Com o passar do tempo, baixamos o tom de algumas músicas para não forçar muito, afinal, não somos cantores sertanejos!”, brinca. 

No show desta noite, o grupo vai misturar o repertório de inéditas do CD comemorativo, como “Milagres” (Breno Ruiz e Paulo César Pinheiro), “Desossado” (João e Francisco Bosco) e “A voz na distância” (Paulo Malaguti Pauleira), e também sucessos como “Roda viva”, “Partido alto”, “Cálice” e “Canção da América”. Na banda que os acompanham, estão três instrumentistas com o DNA musical: Pedro Reis (guitarra e bandolim), filho de Aquiles; João Faria (baixo), filho de Ruy, e Marcos Feijão (bateria), filho de Miltinho.

SERVIÇO

MPB4 - Show “O sonho, a vida, a roda viva!”

Theatro Net Rio  (Rua Siqueira Campos, 143, Copacabana)

Tel.: 2147-8060

Hoje, às 21h

Ingressos: R$ 90 e R$ 120