Com amor, Simon: O discreto charme da visibilidade

Quis a força das circunstâncias (leia-se ‘a força da temporada de premiações’) que o furacão poético-cinematográfico ‘Me chame pelo seu nome’, dirigido por Luca Guadagnino, chegasse às salas nacionais menos de três meses antes de ‘Com amor, Simon’. A informação é pertinente pois ambos carregam em seu DNA o representante do ‘coming of age’ LGBTQ , separados na temporalidade narrativa por 35 anos. Fica a pergunta: como seriam as reações da audiência se ambos estivessem em seus lugares de origem temporal e geracional, um no ano retratado e o outro cinco anos depois, no auge das comédias-românticas high school que John Hughes ajudou a consolidar como força dramática e que fornece todo aquele aroma ao longa? Ao trazer um universo ainda carente de representação numa embalagem clássica que remete a um dos campeões de audiência das tardes dos anos 1980/90, essa espécie de ‘Admiradora secreta’ versão smartphone, dirigida por Greg Berlanti, presta uma enorme abertura rumo à normatização de um grupo cada vez maior de vozes. ´

Para além da diversão, da identificação e da empatia que promove sem levantar bandeiras, o filme coloca um elenco reconhecível do universo adolescente (representantes de ‘13 reasons why’, da série ‘Divergente’, do último longa do “Homem-aranha”, etc) e que dão conta do recado, incluindo o protagonista Nick Robinson que vive o inseguro Simon, que está no processo de “sair do armário”, inclusive para si mesmo, quando encontra virtualmente um outro rapaz nas mesmas condições que ele, e se apaixona mesmo sem ver o rosto de seu príncipe. E a partir daí tem sua paixão tratada da maneira mais delicada. 

Apesar da pouca e pontual experiência de Berlanti, o filme não pretende revolucionar, mas tem boa condução, uma atmosfera carismática e um charme irresistível de nostalgia da boa, de quando esse tipo de filme lavava nossa alma com a mais pura diversão. E reside aí o grande mérito de ‘Com amor, Simon’: sem nunca promover uma campanha pró-tema, ele coloca todos os seus personagens em lugares comuns, com seu rito de passagem sendo igual a de qualquer outro rapaz da sua idade - e na base da ironia, talvez seu aspecto político esteja todo sutilmente impresso aí, em tratar Simon sem quaisquer distinção, exatamente como ele é: um adolescente como outro qualquer.

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COM AMOR, SIMON

NOTA: ***

COTAÇÕES:

- : PÉSSIMO

* : RUIM

** : REGULAR

*** : BOM

**** : MUITO BOM

* Frank Carbone é integrante da Associação de Críticos de Cinema do Rio de Janeiro (ACCRJ)