Lollapalooza passa no teste dos três dias

Festival trouxe ao Brasil grandes atrações internacionais e arrastou 300 mil pessoas

O passo a mais dado pelo Lollapalooza em sua sétima edição deu certo. O festival, que aconteceu em São Paulo no último final de semana, bateu a lotação de 100 mil pessoas por dia, que foram ao Autódromo de Interlagos para ver 72 atrações distribuídas em quatro palcos. 

Carregado na diversidade musical/comportamental, o Lolla depende, contudo, de grandes nomes do rock para atrair os fãs de música, já que as maiores plateias se reuniram em torno do Palco Budweiser, o principal, para ver Red Hot Chili Peppers, Pearl Jam e Th e Killers, que fecharam as noites de sexta, sábado e domingo. 

Supervisionando tudo de perto, o idealizador do festival, Perry Farrel, foi visto no entorno de vários palcos, e acabou participando do show do Pearl Jam, cantando com eles “Mountain song”, do Jane’s Addction, a banda que lhe deu origem, além de soprar as velinhas pelo 58º aniversário. 

O grupo fez uma das melhores apresentações do Lolla, com uma performance mais agitada que a habitual, e um repertório, que muda a cada show, matador, em quase duas horas e meia. Além de clássicos como “Alive” e “Even flow”, houve espaço para lançar a nova “Can’t deny me” e para releituras da pesada para “Comfortably numb”, do Pink Floyd, e “Baba O’Riley”, do Th e Who.

Com um show tecido a partir de improvisações dos músicos, o Red Hot Chilli Peppers enriqueceu a noite de sábado com músicas como “Higher ground”, a cover pesada de Stevie Wonder que catapultou o grupo nos anos 1990, e “Aeroplane”, que não foram tocadas no último Rock In Rio. Mas o público se acabou mesmo nas irresistíveis baladas “Under the bridge” e “Californication”, e teve espaço até para uma versão para “Menina mulher da pele preta”, de Jorge Benjor, cantada em um português torto pelo guitarrista Josh Klinghoffer. 

No domingo, o Killers assumiu a responsabilidade com firmeza e provou que tem tamanho para encarar um público de grandes dimensões. Com base em bons refrões, quase todas as músicas são cantadas pela plateia, sobretudo a do multiplatinado álbum de estreia, “Hot fuss”, que completa 14 anos este ano. 

O show teve a participação da apresentadora de TV Dedé Teicher, que também é baterista do Scracho, na música “For reasons unkown”, e de Liam Gallagher, que apareceu de surpresa. Liam tocou no mesmo palco mais cedo, e apresentou cinco músicas de seu primeiro álbum solo, “As you were”, que saiu em outubro, e nada menos que oito músicas do Oasis, mas sem a voz doce e macia de outrora. 

Outros bons shows foram o do duo Royal Blood com uma gigantesca e surpreendente participação de público, na tarde de sexta, no Palco Onix; do performático David Byrne, que mostrou no sábado um espetáculo teatral, com 11 músicos de apoio com instrumentos dependurados no próprio corpo; e o metal “quase cover de várias bandas’ do Volbeat, que, no entanto, teve pouca adesão do público.

O Th e National, que tocou no sábado antes do Pearl Jam, mostrou que o indie depressivo do qual é baluarte também funciona para grandes multidões, e o LCD Soundsystem brilhou no entardecer de sexta no Palco Onix, com uma parafernália técnica que funde rock e eletrônica a serviço do bom gosto.  

No domingo, a dupla de DJs Tropkillaz encheu o Palco Axe de dançarinas, e a apresentação teve até a participação da cantora Anitta, que, em um telão, pediu música. Do outro lado, mais tarde, um público juvenil adorava as letras pesadas das músicas de Lana Del Rey, que até aceitou sugestões de repertótrio.  

Ainda entre os brasileiros, o Vanguart fez bonito na tarde de sexta, mostrando que pode ter uma carreira duradoura no mix de rock e mpb, e o pernambucano Tagore, que soma psicodelia à música regional, mandou muito bem no Palco Principal, na soalheira de domingo. O Terno, de seu lado, reuniu ótima quantidade de público, que se divertia valer no show com naipe de metais. 

Com tantos ajustes para uma edição bem maior que as anteriores - no Jóquei Clube, quando começou, em 2012, o público girava em torno de 50 mil -, a infraestrutura reagiu bem com fi las aceitáveis e muitas opções de alimentação e descanso. Só a volta para a casa foi mais apertada, já que a boa conexão trem + metrô perdeu meia hora de folga, mas nada que não possa ser corrigido na já confirmada edição de 2019. 

* Marcos Bragatto é jornalista (www.rockemgeral.com.br)