Trajano sem firula

Para entrevistar nomes tão distintos como Zico, Hamilton de Holanda, Jean Wyllys, Chico Pinheiro e Magic Paula, dominando diferentes áreas, do esporte à música, da política à literatura, é preciso ter muita estrada. E experiência é o que não falta a José Trajano, que estreia neste domingo, às 21h30, o programa “Bonde do Zé” no Canal Brasil. Amanhã, autografa o terceiro livro, “Os beneditinos”, na Livraria da Travessa, em Ipanema, às 19h. E dá bis no sábado, na Folha Seca, no Centro, ao meio-dia. “Saí do Colégio São Bento direto para o Jornal do Brasil, com 16 anos. Uma vez meu pai foi à redação, quando era na Avenida Rio Branco, perguntar se, para ser jornalista, seria preciso chegar em casa de madrugada e bêbado”, diverte-se Trajano, comentando o precoce início de sua trajetória profissional, em jornais, revistas e TVs, como a criação do canal ESPN.

O craque que joga nas onze: Jornalista estreia no Canal Brasil com programa de entrevistas e lança o livro “Os beneditinos”

O programa de entrevistas “Bonde do Zé” é uma série deliciosa de 13 episódios. Os bate-papos foram gravados numa casa em Santa Teresa e abordam assuntos variados, tendo uma coisa em comum: divertidas partidas de futebol de botão. “Alguns levaram seus próprios times, outros, montaram com os que tinha lá. No ataque do Zico, tinha ele, Edu e Antunes. Xico Sá escalou uma seleção nordestina e Magic Paula, um time com os nomes mais importantes do basquete de todos os tempos”, conta.

Dirigido por Pedro Asbeg, do ótimo documentário “Geraldinos”, o programa de estreia é com Zico. O ídolo rubro-negro, completamente à vontade, conta histórias engraçadas para Trajano, como a de um goleiro do Fluminense que disse que era uma honra tomar um gol seu e “se ferrou” e a de Jorge Benjor, que criou a letra de “Camisa 10 da Gávea, depois de um jogo onde ele fez quatro gols. “Ele foi descendo com a gente para o vestiário e, cantarolando, disse que já tinha o refrão!”, lembra o Galinho de Quintino.

Torcedor fanático do América, Trajano puxou a sardinha para o seu lado e indagou a Zico quem foi melhor jogador, se ele ou o irmão Edu, que jogou e brilhou no time tijucano. “Edu era meu ídolo, eu tinha que abordar isso! E Zico confessou que o irmão foi melhor que ele”. O jornalista também tocou num assunto pouco conhecido da vida de Zico, que foi a prisão do irmão Nando, durante a ditadura militar, e a perseguição que ele sofreu enquanto jogava por um time de Portugal e ter sido o primeiro jogador a receber a anistia.

“É um assunto de que a família Coimbra guarda muita mágoa. Na entrevista, diz que isso pode até ter impedido a convocação de Edu para a seleção de 1970. E também tem uma vertente que acha que Zico não foi convocado para a Seleção Olímpica de 1972, em Munique, em represália”.

Trilogia - No primeiro livro, “Procurando Mônica”, José Trajano fala de uma paixão de juventude, na cidade serrana de Rio das Flores, e do reencontro 40 anos depois com a musa. No segundo, “Tijucamérica”, lembra o menino criado na Tijuca e torcedor do América que, de tanto amor pelo time, faz de tudo para ressuscitar os jogadores e torná-lo grande outra vez. “Beneditinos’ é como se fosse uma história do meio”, comenta.

Na mais recente obra, Trajano escreve sobre um torneio de futebol de veteranos, onde ele convoca os colegas do São Bento para formar um time e ir a Londres jogar contra os “rivais” do Santo Inácio. “Vou descrevendo aquela época em que estudávamos, a Rádio Nacional, a TV preto e branco, a Bossa Nova... E, quando nos reencontramos, todas as divergências ganham uma dimensão maior. Há nomes reais, como os dos colegas, e outros que preferi trocar, como alguns daminha família. Tem muitos trechos do livro em que eu pareço meio para baixo, doente e chateado com a situação do país. Engraçado que muita gente me ligou perguntando: ‘Trajano, como você está? Parece deprimido! Misturam o real com personagem”, conta, rindo.

O jornalista faz questão de destacar que “Os beneditinos” é dedicado ao amigo Eduardo Amaral, que o ajudou a ser lembrar de muitas histórias e morreu antes do término do livro. Com isso, seu novo título fecharia uma trilogia, mas Trajano não descarta o próximo: “A gente vai tomando gosto, né? Mas não vou fazer mais nada em primeira pessoa, certamente vou criar um personagem”.

Depois da passagem pelo Rio, Trajano voltará a São Paulo para dar prosseguimento à série de programas de entrevistas que faz em sua própria casa. “Na sala com Zé” já recebeu Ciro Gomes, Fernando Haddad, Professor Pasquale, Juca Kfouri e Lula. “São vários convidados conversando, cozinhando, fazendo drinques. Quando o Lula veio, trouxe oito quilos de rabada! Comprei agrião, cinco quilos de polenta e foi aquela festa”, conta, informando que o programa será retomado em abril, mas que ainda não há confirmou a lista de convidados.

Enquanto isso, vai tocando seu canal Ultrajano, no site ultrajano.com.br, postando material nas redes sociais e vídeos no Youtube, além de apresentar o programa “Papo com Zé Trajano” no canal TVT, uma emissora educativa ligada a sindicatos paulistas. “Faço aqui de casa mesmo, de segunda à sexta, às 18h45”, diz.