SEMPRE AOS DOMINGOS: Porto seguro 

Ainda em 2005, quando eu trabalhava como correspondente estrangeiro para um jornal em Pequim, na China, esbarrei numa história ao mesmo tempo humana e desumana. Para quem não sabe, a China não possui um sistema universal de Previdência e quem costuma bancar os pais na velhice, se eles não conseguem fazer isso por conta própria, são os filhos. Os filhos homens, destaque-se, porque é comum que as filhas se casem e passem a integrar o núcleo familiar do marido.

Na época da política do filho único, passou a ser comum para muitas famílias chinesas, diante do nascimento de uma menina (especialmente as do campo: pobres e ignorantes), simplesmente  abandonar (ou abortar. Ou vender) os bebês meninas, que eram criadas em abrigos até que casais estrangeiros se candidatassem à adoção. Aquilo me tocou profundamente - e a meu parceiro de 15 anos - para a questão do abandono na infância e da adoção. 

O tempo passou, nos mudamos para Washington D.C., e ao retornarmos para o Brasil, mais especificamente para São Paulo, a adoção e o desejo de sermos pais já haviam passado do terreno das ideias para o projeto propriamente dito. E assim foi. Nos inscrevemos para a adoção e, em 2014, no mesmo dia em que fui demitido do tal jornal, já no Rio, fomos habilitados para a adoção pela Vara de Família. Três meses depois, iniciávamos uma longa jornada para conhecer nosso filho Paulo Henrique, um menino negro de quatro anos num abrigo em Capelinha, cidade minúscula de Minas fincada no paupérrimo Vale do Jequitinhonha. 

Lá, descobrimos não apenas a história de sofrimento, abandono e maus tratos vivida por  nove entre dez crianças abrigadas, mas conhecemos a Rafaela, irmã do Paulo, então com 14 anos. Ano passado, depois de um período de visitas, Rafa aceitou nosso convite para fazer parte da família e virou nossa filha. Somos uma família nos novos formatos: um casal homoafetivo numa adoção interracial, três gatos, dois cachorros, 11 aves entre galinhas e marrecos numa casa na Serra.

Somos felizes. Temos problemas? Claro, como qualquer casal, como qualquer família. Mas em nenhum momento passa pela minha cabeça que aquelas crianças, num abrigo sozinhas, à mercê do destino, ficariam melhores ou teriam mais oportunidades que aqui, conosco. Elas são nossa alegria e nosso futuro. Nós somos o porto seguro que elas nunca tiveram. O brilho nos olhos dos meus filhos quando fazemos projetos, quando saímos para comprar material escolar, quando vamos jantar ou ao cinema, aquela  sensação que eles nunca tiveram de pertencer a um núcleo de pessoas amorosas e protetoras, é absolutamente tocante. De vez em quando, me pego chorando escondido pela oportunidade de viver essa experiência. E me sinto bem por mim, por eles, por nossas famílias que tanto nos apoiam, pelos amigos que torcem pela nossa felicidade, pela ideia que eu tenho de um país mais justo e mais feliz, de gente com oportunidade e esperança.

Dia sim, outro também, a Bancada da Bíblia em Brasília tenta nos transformar em aberração. Para eles, a definição de família é homem e mulher casados oficialmente com ou sem filhos. Homem ou mulher solteiros que adotem não são família. A imensa quantidade de famílias tocadas por mulheres sozinhas, abandonadas geralmente por seus companheiros, não é família. Netos criados pelos avós não são família. Uma pessoa e um cão não é uma família. Família, para a indústria da fé, é um conceito tão antigo quanto a Bíblia, reinterpretado por mercadores de água santa e exorcismo de acordo com suas conveniências. A editora Cleófas reuniu num artigo, se é para levar a Bíblia ao pé da letra, o que deveria ser observado e questionado. Dois pontos entre dezenas: 

“Levítico 25,44 – estabelece que posso  possuir escravos, tanto homens quanto mulheres, desde que sejam adquiridos de países vizinhos. “Vossos escravos, homens ou mulheres, tomá-los-eis dentre as nações que vos cercam; delas comprareis os vossos escravos, homens ou mulheres”. 

Êxodo 35,2 –  claramente estabelece que quem trabalha nos sábados deve receber a pena de morte. “Trabalharás durante seis dias, mas o sétimo (sábado) será um dia de descanso completo consagrado ao Senhor. Todo o que trabalhar nesse dia será morto.” 

E por que certos “religiosos” não consideram estas palavras bíblicas de forma literal? Porque o discurso de ódio, que tanto une fundamentalistas mundo a fora, não apenas não é considerado antirreligioso, como sustenta a unidade de um agrupamento fragilizado pela ignorância e pelo medo. Aliás, os novos formatos familiares, décadas após a Revolução Sexual e o auge - e agora  ressurgimento – dos movimento de afirmação de minorias e direitos civis, continua sendo uma questão. 

Como se o olhar dos meus filhos hoje, diante de um futuro com o qual eles podem agora se dar ao luxo de sonhar, não me dessem a certeza de que o amor é maior do que ódio. De que minha família é real e linda. E de que os fundamentalistas de todas as matizes vão ter que engolir os arranjos familiares de todo um país. 

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