"Príncipe das Mares" por Cynthia Bezerra

Quem já esteve ouvindo boa música em bons locais de jazz esteve familiarizado com aquela cena clássica de um final de noite nesse tipo de espaço. Restam ali pouquíssimos casais - às vezes somente um - e músicos naturalmente um pouco cansados por conta de um final de noite, ainda tocam mas sem dúvida mais lentos e mais concentrados em si mesmos. 

A conversa nas últimas mesas não cessa e os músicos mais a vontade conversam algo entre eles, um comentário, uma observação ou uma memória qualquer. Um final de festa pode soar como algo prolixo, um final de ano nos remete às vezes a uma repetição previsível das mesmas ações. O fato é que silêncios, um certo recolhimento e reflexão produzem resultados incríveis em um momento onde um final de ano ou um final de festa deveriam servir como insumos que nutrem e nos oferecem acalento, e de quebra solução. A necessidade humana de sobrevivência psíquica é capaz de produzir novas demandas e que acima de tudo dêem conta de não deixar calar jamais o desejo. Sem esse último não se vive. É dele que advém o potencial de metamorfose que existe em casa um de nós; uma dor que é transformada em missão, necessidades básicas que sublimadas tornam-se produção, uma perda que ao mesmo tempo amputa e elege novas soluções, uma saudade que um dia foi ferida e que hoje é doce ou mera recordação. O país amanheceu cheirando a brioches o ano inteiro. 

Desconhecíamos essa maneira de fazer revelar nosso descontentamento com dirigentes que há muito haviam se apropriado da nação. Se isso ocorreu é porque de fato pouco sabíamos sobre nossas intenções. Por isso a Psicanálise se orienta sempre na direção do desejo de cada um. O que vc quer...? Com quem? Como...? Onde...? Somente a partir daí pode se saber a que continente (lugar) a gente pertence, qual idioma (qual linguagem) vamos usar, e assim nossa vizinhança, nossos valores, nossos amores. À nossa existência se impõe fatores que independem da nossa vontade. Como no fluxo das marés, acontecem movimentos que maiores que nós nos impelem a coexistir lado a lado à adversidades. Ao sábio navegador cabe orientar suas velas nunca "against the wind" (nunca contra o vento). Mas todo o resto é fruto de nossos desejos, escolhas e consequências. 

Ficar depende de nós. Não ficar também. A escolha do nosso caminho é o maior patrimônio que se pode ter. Ele nos organiza, orienta, representa e com isso legitima quem somos . Esse patrimônio nos permite fazer muitas escolhas (uma de cada vez) mas mais de uma vez ... A convicção de que teremos a nosso dispor sempre outras chances faz do nosso trajeto um percurso mais amigo, mais cúmplice e sempre... a nosso favor. Mudar e acreditar vem de "esperançar", ir em busca de um caminho. O pior naufrágio é não partir. Feliz ano novo a todos. !

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Cynthia Bezerra, psicóloga e psicanalista. Atende em consultório particular. Administra a página CONSULTÓRIO DE PSICOLOGIA www.facebook.com/CONSULTORIO Cynthia